Esportes
Hoje o voleibol brasileiro é profissional
| ABIDES DE OLIVEIRA Editor de Esportes O presidente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), Ary da Silva Graça Filho, está no comando da entidade desde 1997, quando substituiu Carlos Arthur Nuzman, atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro. Empresário, advogado e economista, sua vida está ligada ao vôlei. Foi jogador, atuou por 10 anos no Botafogo e defendeu o Brasil nas décadas de 60 e 70. Depois foi vice-presidente da CBV de 1975 a 1983, ano em que criou o time feminino da Supergasbrás. Os resquícios da época de jogador podem ser vistos nos dedos indicadores tortos. Foram frutos de muitos bloqueios, diz. O dirigente concedeu a seguinte entrevista: Gazeta - Como é comandar a Confederação Brasileira de Vôlei? Ary da Silva Graça - Hoje as técnicas administrativas são tão fortes e como vim do mundo empresarial, montei um modelo de gestão na CBV para ela andar sozinha. Por exemplo, posso vir desfrutar as belezas de Maceió e sei que está tudo caminhando normalmente. Mas resumiria o modelo de gestão da CBV em duas palavras: trabalho e credibilidade. Hoje o voleibol brasileiro tem muita credibilidade. Somos a primeira entidade no mundo esportivo a ter o balanço anual publicado e receber a ISO 9001. A CBV é a primeira no mundo que tem esse certificado de qualidade em administração. Como o senhor avalia o vôlei brasileiro? Começaria pela minha época (década de 60) que foi uma era pré-histórica em termos profissionais e administrativos. Para se ter uma idéia, cheguei a disputar o Mundial da Tchecoslováquia sem tênis, descalço. O tênis não prestava mais e não tínhamos dinheiro para comprar outro. Nem eu e nem a própria confederação. Na década seguinte apresentamos um crescimento. Já nos anos 80 começamos a ganhar algumas coisas, quase fomos campeões mundiais e olímpicos (O Brasil foi vice no Mundial de 1982 e prata nas Olimpíadas de 1984). Em seguida demos uma caída, mas em 1992 ganhamos as Olimpíadas. Mas sempre houve uma mentalidade profissionalizante. Em 1997 ficou claro que nós profissionalizamos tudo. E a parceria com o Banco do Brasil? Foi fundamental para o desenvolvimento do voleibol. Precisa-se de dinheiro e o Banco do Brasil a partir de 1991 nos deu esse suporte financeiro que vem até hoje. Estamos com alguns problemas no momento, eu diria que até sérios. Mas o voleibol está sedimentando a uma realidade brasileira. O senhor falou em problemas, quais são eles, são ligados ao voleibol? Não temos problemas sérios nenhum. Eles (Banco do Brasil) é que têm problemas sérios (preferiu não dizer quais seriam esses problemas). Essa situação está nos noticiários, o diretor de Marketing teve um problema e saiu do banco. O que falta à seleção de vôlei feminino do Brasil para chegar ao patamar da masculina, que é a melhor do mundo? Na verdade, parece até choro de perdedor, nós chegamos nas Olimpíadas neste estágio (campeã do Grand Prix Feminino). Perdemos aquele jogo (Para a Rússia, quando vencia o quarto set por 24 a 18) que não tem explicação. Perdemos um jogo, impossível de perder. Mas, mudamos grande parte da seleção que disputou as Olimpíadas. Temos, entre o grupo que esteve em Atenas, a Fabiana, de 19 anos, e a Valeskinha, que é um pouco mais velha, mas é uma jogadora espetacular. E digo, esse time nos dará muita alegria. Quando a gente acertar as levantadoras, elas pegarem um pouco mais de experiência, esse time é para ganhar olimpíada e campeonato mundial. Por que a maioria dos jogos da seleção brasileira masculina e feminina ocorre nas regiões Sul e Sudeste e, raramente, vem para o Nordeste? É bom lembrar que há três anos trouxemos a Liga Mundial para Recife, em 2002. Mas, de qualquer maneira, temos problemas com as televisões, este é o grande motivo. Não é preferência para A, B ou C. Hoje em dia tudo é tão profissional, que a gente segue a orientação dos patrocinadores e também das televisões, que consideram os custos altos e maiores para vim para alguns estados (Nordeste, por exemplo). Então tentamos facilitar a vida das televisões e assim diminuir os custos de produção desses eventos. Na década de 80 a seleção masculina jogou em vários estádios de futebol Brasil afora. Existe um projeto para o atual time masculino fazer o mesmo, quando será? Nós íamos fazer estes jogos no Mineirão (Belo Horizonte), Pacaembu (São Paulo) e Arruda (Recife), mas a falta de calendário, muitas competições e o problema que ocorreu no Banco do Brasil, que retirou todos os patrocínios da noite para o dia, fizeram com que a gente revisse esse planejamento. Mas nada impede que em 2006 a gente faça uma turnê pelo País mostrando os campeões olímpicos e mundiais. Categoria de base é fundamental para manter o voleibol, ou qualquer esporte, com força e renovação constante? Esse é o grande mistério que o Brasil tem e que nos outros países não existe. Hoje temos uma confederação estruturada em cima das federações estaduais. Essas sim, que não aparecem infelizmente, é que cuidam do futuro do voleibol brasileiro. São os verdadeiros responsáveis por tudo que está ocorrendo. Inclusive, pelas conquistas nos campeonatos mundiais infanto-juvenil e juvenil masculino e feminino. Porque, os campeonatos de bases brasileiros vão para todo o País. Para se ter uma idéia da importância que o voleibol atribui às federações estaduais, o Estado do Amapá, com todo respeito, venceu a Segunda Divisão do Brasileiro Infanto-Juvenil Masculino, quando muitos acham que nesse Estado não existe voleibol. Tem voleibol no Amapá, no Acre, em Rondônia e é bom. Essa integração no País inteiro, através do voleibol, é hoje uma realidade no Brasil. E o Nordeste? Por incrível que pareça, hoje em termo de gestão, o voleibol no Nordeste é muito mais avançado do que o do Sul do País, que falam sempre que é uma maravilha. Mas, atualmente, temos cinco federações nordestinas que estão com um sistema de gestão ótimo e acima da realidade do Sul. Evidentemente, muito mais carente e com recursos menores. Porém se essas federações tivessem mais recursos, o voleibol do Nordeste cresceria e iria mais adiante. Uma delas é a do Estado de Alagoas, com o trabalho extraordinário do Toroca, que tem uma vida dedicada ao voleibol. O vôlei de praia conta com um circuito nacional, mas nos estados, por exemplo em Alagoas não há competições estaduais. A CBV tem algum projeto com as federações para mudar isso? É importante em qualquer atividade esportiva você ter primeiro os ídolos. Aí a coisa vem de cima para baixo. Você tendo um ídolo, um campeão olímpico e mundial, você desperta o interesse do público, das televisões, dos patrocinadores. Essa parte já está cumprida. Nossa grande preocupação, atual, são os clubes. Os clubes brasileiros de futebol de uma forma em geral estão falidos. Toda a base do esporte brasileiro era em cima dos clubes de futebol. Mas duplas de vôlei de praia não são ligadas a clubes, sua formação é independente? Este é um novo modelo. São as características de cada região. No Nordeste, por exemplo, ele se adaptou extraordinariamente. Não tem nada melhor no País que o vôlei de praia do Nordeste. É uma característica da região. Jogadores excepcionais, a grande maioria não é alta, mas tem habilidade. Hoje, metade dos nossos grandes jogadores de voleibol de praia, olímpico e campeões mundiais, é do Nordeste. Isto foi espontâneo, surgiu espontaneamente na região. ### QUEM É Nome: Ary da Silva Graça Filho Cargo: Presidente da CBV Profissões: Empresário, advogado e economista Carreira: Atuou como jogador por 10 anos no Botafogo e representou o Brasil em mundiais e olimpíadas