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Torcidas organizadas estão perto do fim

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WELLINGTON SANTOS FERNANDA MEDEIROS Repórteres As duas maiores torcidas organizadas de Alagoas, Mancha Azul (CSA) e Comando Vermelho (CRB) viverão, amanhã, os momentos mais críticos de sua história. A partir das 15h30, os representantes das duas facções estarão depondo aos promotores do Ministério Público Estadual, depois de intimação e abertura de Inquérito Civil Público publicado no Diário Oficial do Estado, requisitado pelo órgão, na última quarta-feira. Tudo porque vários integrantes das duas facções foram o pivô de uma das maiores cenas de vandalismo e terror já registradas em diversas ruas de Maceió e, principalmente, na saída do Estádio Rei Pelé, no sábado, dia 24, após uma partida festiva de masters entre CSA e CRB. A Mancha Azul entrará às 15h30 e, logo em seguida, por volta das 16h30, será a vez de a Comando Vermelho depor aos promotores, informou a coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor do MP, Denise Guimarães. A promotora confirmou ainda que na quarta-feira (5) será a vez de os representantes da Federação Alagoana de Futebol (FAF) prestarem seus depoimentos. Quanto à Polícia Militar, Denise explicou que a audiência ainda não tem dia marcado, porque está sendo colhido todo o material requisitado pelo MP à PM, como fitas de vídeo e outros documentos. Nessa parte, segundo Denise Guimarães, está sendo levantado ainda extenso material registrado pela imprensa (TV, jornal e rádio) sobre os atos de vandalismo ocorridos naquele sábado. Denise Guimarães, que assinou o ato de abertura de Inquérito Civil Público com os promotores Max Martins e Artur Melo, chegou a afirmar, em matéria publicada na Gazeta de Alagoas, na edição da última quinta-feira, que, dependendo das provas que serão apresentadas, não está descartada a dissolvição (extinção) das duas torcidas organizadas. Ou seja, o processo que começa amanhã, na prática, pode significar o início do fim das organizadas em Alagoas. O Ministério Público vai se basear basicamente em farto material jornalístico dos meios de comunicação, com imagens fortes, mostradas principalmente pela TV Gazeta e TV Alagoas, além dos jornais. Outra denúncia que deve pesar contra as organizadas é o material que a PM deverá levar ao MP. Além disso, depoimentos de pessoas que moram no entorno do Rei Pelé deverão pesar contra os integrantes das organizadas. Planejamento O comandante do Policiamento da Capital (CPC), coronel Marco Antônio Brito, responsável pelo plano de segurança do estádio no dia do jogo, é outro ferrenho crítico das organizadas. Para ele, a situação já extrapolou todos os limites. Colocamos um efetivo de 250 homens e acompanhamos, como de praxe, os integrantes das torcidas do Rei Pelé até o trilho da Praça do Pirulito, mas muito desse pessoal consome droga e ameaça até a polícia, como aconteceu. Para se ter uma idéia, alguns de nossos carros foram apedrejados e prendemos cerca de 180 integrantes, relatou Brito. Questionado se a PM planejou a separação e isolamento das organizadas antes, durante e depois da partida do sábado, e depois de críticas de alguns torcedores, por meio da imprensa, denunciando que a PM só agiu no policiamento ostensivo, já na saída de todo mundo do estádio, atingindo, inclusive, pessoas inocentes, Brito respondeu: O problema é que muitos desses jovens estão infiltrados em verdadeiras gangues. Outros nem entram e ficam à espera dos rivais na saída dos jogos, escondidos. Mas temos o nome e endereço de quase todos eles e vamos entregar ao MP. ### Dirigentes lamentam, mas apóiam MP Na pauta de discussões sobre a repercussão negativa que os episódios envolvendo as organizadas tiveram, a Gazeta ouviu também os dirigentes dos clubes. Eles são apontados, muitas vezes, como co-responsáveis e incentivadores da presença das organizadas nos estádios, quer seja com a distribuição de ingressos abaixo do preço ou com o acesso gratuito, em alguns casos. Entrevistados, eles expressam o que pensam do assunto. Um dirigente em sã consciência incentiva e dá apoio a sua torcida para que ela vá ao estádio torcer e fazer uma festa bonita, seja organizada ou não. Evidentemente não concordamos com os atos de vandalismo. Por isso, no caso do CRB, nossa posição é dar total apoio ao que o Ministério Público ou a polícia decidirem, opinou o presidente-executivo do CRB, Celso Luiz. Do lado do CSA, quem falou foi o vice-presidente financeiro, José Wilson, pois o presidente-executivo, Gino César, estava fora do Estado. Wilson afirmou que sempre foi contra a questão de facilitar a entrada de torcidas organizadas nos estádios. Por mim elas não receberiam ingresso nenhum. Nem de graça nem com abatimento, declarou. O dirigente azulino, porém, lamenta a possibilidade de as facções serem extintas. Elas fazem uma festa bonita, com bandeirões, faixas e coreografias, mas se não há como controlar é melhor acabar. Vamos acatar o que o MP decidir. Mas acho que também deve impedir o encontro dos brigões, mesmo eles estando sem as camisas das respectivas facções, opinou. Eu não diria acabar com as organizadas, mas deve existir uma punição séria para os vândalos que arrumam confusão e fazem baderna nas ruas. Os responsáveis pelas duas torcidas também devem ser chamados e punidos, opinou o vice-presidente da FAF, Ederaldo Almeida. Mas ele acredita que o MP tomará a decisão correta. E vamos acatar o que o órgão decidir. Queremos começar o Campeonato Alagoano em paz, afirmou. |WS/FM ### Moradores do Trapiche sofrem com as torcidas Se a população em geral e os torcedores comuns que vão a um jogo ou outro já estão assustados com as constantes bagunças patrocinadas por vândalos infiltrados nas organizadas, imagine os moradores que habitam as ruas próximas ao Estádio Rei Pelé, palco principal das partidas. Isso sem falar da Avenida Siqueira Campos, principal rua do Trapiche da Barra, que, em quase todos os jogos em que tenha uma das duas facções em ação, transforma-se numa espécie de palco para arrastões, depredação e batalhas campais de integrantes da Mancha Azul e da Comando Vermelho. Mudar o Rei Pelé Exemplo claro disso são os estabelecimentos comerciais, as residências e os carros estacionados de moradores, que, em dias de jogos, sofrem com as ações de apedrejamento, assaltos e outros delitos. Uma dessas vítimas constantes é a Academia World Gym, de propriedade de Joseildo José da Silva, o Nem. É constrangedor ver a academia com os vidros quebrados por causa dos vândalos. Já perdi as contas. Outro dia, um pessoal da Mancha queria invadir o local porque um rapaz estava com uma camisa vermelha aqui dentro. Foi preciso fazer uma barreira à porta, mas por vingança eles terminaram estilhaçando o vidro de um dos carros estacionados, conta Joseildo. Questionado se espera uma solução imediata para o problema, ele é irônico: Só tem um jeito: mudar o Estádio Rei Pelé daqui. Outra vítima das ações de membros de torcidas foi a massoterapeuta Rosana Cavalcante Araújo, que mora em uma rua transversal à Siqueira Campos. Quando voltava do trabalho em um ônibus da linha Usineiros/Trapiche, ela levou uma pedrada de torcedores. O resultado foram cinco pontos na cabeça. Eu estava no ônibus e eles atiraram a pedra, que me atingiu, disse. WS/FM ### Imprensa acha que deve punir vândalos A imprensa alagoana também tem debatido muito esse assunto, criticando os atos de violência praticados por integrantes das organizadas. Os cronistas esportivos acreditam que acabar com essas facções não é o suficiente. A punição aos culpados é fundamental e deve ser severa. É o que pensa, por exemplo, o radialista da Gazeta AM Orlando Batista. Tem que acabar, mas tem que prender os culpados pelas badernas e desordens. Seguir o Estatuto do Torcedor, quando ele determina que torcedores que praticarem atos violentos sejam presos e proibidos de comparecer aos jogos por um determinado tempo. Então, que a lei seja aplicada, opinou Batista. Outros pontos citados por ele dizem respeito à revista que a Polícia Militar faz nos torcedores e o serviço de monitoramento em todas as dependências do estádio. A revista deve ser rigorosa, para impedir a entrada de torcedores com drogas e armas de quaisquer tipos. Outro ponto é o monitoramento. Cabe à administração do estádio instalar câmeras de vídeo para monitorar todo o movimento no estádio. Sobre o esquema de segurança da polícia, Batista afirmou que devem ser escalados para trabalhar nos jogos policiais preparados, especializados para aquele tipo de evento. E devem separar as torcidas. Na hora da saída, devem liberar primeiro uma torcida e, algum tempo depois, liberar a outra, opinou, acrescentando que considera o contingente de policiais insuficiente para atuar em jogos com grande número de torcedores. Culpados O também radialista Carlos Miranda, da Rádio Difusora, afirma que é contra a extinção das torcidas, mas não há outra alternativa. O que vem acontecendo é motivo suficiente para acabar com as organizadas. Se bem que acabar com elas não é o bastante. É preciso que os vândalos sejam punidos. A impunidade faz com que eles continuem agindo, frisa. Segundo Miranda, os culpados pela violência praticada por membros das torcidas são os dirigentes dos clubes e das próprias facções. Os dirigentes de clubes porque mantêm essas facções, com ingressos e transportes para os jogos; e os dirigentes delas porque não têm controle sobre os integrantes. |WS/FM ### Diretores de organizadas se defendem Sem querer acreditar e lamentando a situação crítica e iminente de extinção das torcidas organizadas, dirigentes da Mancha Azul e da Comando Vermelho se defendem, alegando que existem pessoas infiltradas nas facções, que não fazem parte delas. Vamos nos defender e queremos que os fatos sejam apurados. Temos esse direito, afirmou o diretor-geral da Mancha, Francisco José Rodrigues, 27. Ele reconhece que a torcida cresceu muito (hoje são mais de 4 mil membros) e não há como controlar. Nós sobrevivemos da venda de camisas e material da torcida, então muita gente compra a nossa camisa, mas não quer dizer que seja membro da torcida, justifica o diretor de sede da CV, Fernando Fernandes, 23. Criada em 23 de outubro de 1992, a Mancha Azul tem quase 13 anos de vida. Foi fruto da junção das torcidas Força Jovem e Dragões Azulinos. Já a Comando Vermelho, foi fundada em 11 de agosto de 1993 e conta, atualmente, com mais de 3 mil componentes. Cadeado Um dos problemas que os dirigentes das facções apontam em dias de jogos é o esquema de segurança montado pela Polícia Militar. A polícia não está preparada para fazer a segurança em eventos como jogos de futebol, criticou Fernando, tendo a opinião compartilhada por Francisco, da Mancha: Cada jogo é um batalhão diferente trabalhando e cada um com sua forma de atuar. Os policiais não estão preparados, afirmou. Os dois diretores das torcidas citam um fato que ocorreu no jogo CSA x CRB masters. Na reunião realizada na véspera do jogo, ficou acordado que o portão de acesso das grandes arquibancadas para o local onde costumeiramente fica a torcida do CRB seria fechado para impedir o acesso de uma torcida para a outra. Mas isso não foi feito, disse Fernando. Eles [policiais] alegaram que faltou um cadeado para fechar o portão. Mas se faltou o tal cadeado por que não colocaram policiais à frente do portão?, questionou Francisco. Em matéria publicada na Gazeta, há alguns meses, o major PM Walter do Vale já alertava para a falta de um batalhão especializado para trabalhar em jogos de futebol. O ideal era que tivesse, realmente, esse batalhão especializado, mas ainda não foi implantado porque não houve concurso público na PM. Por isso, usamos os batalhões do CPC. Mas todos eles já trabalharam em jogos, pois fazemos um rodízio, explicou o coronel Brito, acrescentando que a alegação das torcidas sobre a falta de esquema de segurança é falsa. Uma torcida tem que sair primeiro que a outra, opinou Francisco, diretor da Mancha. E outra: tem que haver um trabalho preventivo e não repressivo, completou. A CV sempre vai pela Rua Cabo Reis e a Mancha pela Siqueira Campos, mas no sábado isso não aconteceu, reclamou Fernando. Câmeras Mas um dos pontos que mais chamaram a atenção da reportagem foi quando o coronel Brito revelou o número de câmeras no Estádio Rei Pelé. Só tem uma câmera funcionando no estádio. O correto é que tivessem oito, disse. Outro ponto apontado por ele como um dos motivos para a bagunça é a venda de bebidas alcoólicas. Sou contra isso nos estádios, acho que estimula mais violência, frisou, revelando que em 2006 será proibida, cumprindo o Estatuto do Torcedor. WS/FM ### Ônibus é o principal alvo das organizadas em dias de jogo Em quase todos os jogos realizados no Trapichão a média é entre três e quatro ônibus depredados. A denúncia é do funcionário Antônio Alves, que trabalha na empresa de ônibus Veleiro e que expõe o perigo a que estão submetidos motoristas e passageiros em dia de jogos no Estádio Rei Pelé e nas ruas do Centro de Maceió. É prejuízo certo para a empresa, porque os apedrejamentos por parte de integrantes dessas torcidas acontecem sem o menor constrangimento. Isso sem falar que muitos deles só passam por debaixo da roleta e outros entram pelas janelas dos coletivos, completa o funcionário da Veleiro. Mulheres proibidas Os custos no conserto dos pára-brisas e janelas laterais, segundo ele, estão em média entre R$ 1.600 (pára-brisas) de um microônibus e R$ 220 (laterais), parte preferida para a ação dos vândalos. Se for um ônibus maior, o valor pode até dobrar. No último jogo, sábado (24), foram três carros apedrejados. A última medida da empresa foi impedir que as mulheres trabalhem em dia de jogos, conta Antônio Alves. Tudo isso sem contar que os nossos motoristas e cobradores ainda são ameaçados por eles, completa Antônio Alves. Baixo nível Já perdi a conta de quantas vezes tive que suportar os palavrões e os gritos de guerra de baixo nível que esses integrantes de torcidas organizadas promovem dentro dos coletivos, disse um morador do bairro da Serraria e torcedor do CRB, que pediu para não ter o nome revelado. Na empresa Real Alagoas, o apedrejamento de ônibus também foi registrado naquele sábado. Tivemos um carro apedrejado. Quebraram o pára-brisa e três vidros laterais, afirmou um funcionário da empresa, que não quis se identificar. Ele acrescentou que essa foi a primeira vez que ocorreu esse tipo de incidente com o veículo da Real. Mas o pior é que a empresa tem de arcar com as despesas para consertar os vidros. |WS/FM

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