Esportes
Jogadores que o santo futebol salvou
FERNANDA MEDEIROS WELLINGTON SANTOS Repórteres No futebol, não raramente, muitos atletas já sentiram na pele a experiência e a linha tênue que separa o sucesso do fracasso e a alegria da tristeza, muitas vezes levando-os ao fundo do poço. Só para citar alguns exemplos famosos que vivem no imaginário do brasileiro, quem não lembra do anjo das pernas tortas? Para muitos, o melhor jogador que já aportou nos gramados do mundo: Mané Garrincha, ex-Botafogo-RJ e seleção brasileira. Fantástico com a bola nos pés, acabou como um farrapo de gente sem ela (a bola). Motivo: se envolveu desvairadamente com mulheres e se entregou ao álcool. Morreu pobre. Outro exemplo não poupou, ironicamente, nem mesmo o Rei do Futebol: o bem-sucedido Pelé. Seu filho, ex-goleiro do Santos, Edinho, ficou seis meses preso por seu envolvimento com o tráfico de drogas. Casos semelhantes se repetem pelo Brasil e, em Alagoas, a Gazeta ouviu relatos de garotos que o futebol salvou do destino que poderia levá-los ao fundo do poço. ### Drogas, pesadelo e drama: início do inferno em Barueri Rafael Rocha Marques, 18, foi um dos atletas que conheceram de perto o inferno das drogas, do abandono e do vazio que muitos adolescentes da sua idade ainda vivem hoje em dia. Fanático por futebol, desde criança gostava de jogar bola. E foi por essa paixão que seu pai, Israel Marques da Silva, resolveu levá-lo, há três anos, a um peneirão que estava ocorrendo em Maceió, com o objetivo de selecionar garotos para o Flamengo-RJ. Rafael se inscreveu e foi aprovado com mais três garotos. Porém, como era franzino, precisava ganhar corpo e massa muscular, acabou não indo para o Rio de Janeiro. Ficou em Maceió, na Escolinha do Flamengo. Algum tempo depois, despertou o interesse de um empresário que queria levá-lo para o Barueri-SP. Tive que vender o meu carro para custear as despesas da viagem e acompanhá-lo, narra o pai. Chegando em São Paulo, Rafael passou no teste do clube paulista e ficou lá. Aí começou o nosso pesadelo, prossegue Israel Marques. Foi quando, após 15 dias, o pessoal do Barueri ligou para Maceió dizendo: ?Venha buscar o seu filho, senão você vai perdê-lo?. Descobrimos que o dinheiro que tínhamos dado a ele foi gasto com drogas, lembra. Israel conta que foi ao encontro do filho e o levou para o Rio de Janeiro, com destino à Gávea, onde está a concentração do Flamengo. Isso foi em meados de 2003. Levei-o para o juvenil do Fla, treinado, na época, pelo ex-jogador Adílio., recorda o pai do garoto Rafael. |FM e WS ### Flamengo e Rocinha na rota de Rafael No Flamengo, Rafael também foi aprovado, mas o clube não custeava as despesas. Tivemos que gastar mais dinheiro. Lá ele ficou por cerca de 15 dias, mas não deixou as drogas. Chegou a levar maconha para a concentração do Flamengo. Envolvi-me com o pessoal da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, com pessoas erradas, e comecei a comprar drogas. Eu já usava maconha e foi no Rio de Janeiro que passei a usar cocaína também, recorda Rafael, que hoje joga como lateral-esquerdo no Porto Real, clube criado recentemente no futebol de Alagoas. Diante do problema que continuava a rondar a vida do filho, Israel não teve escolha e trouxe o garoto para Maceió. Foi nessa época, início de 2004, que Rafael ficou internado na Associação do Cabo Luiz Pedro. E, paralelo a isso, foi treinar no juvenil do CRB, comandado pelo técnico Guilherme. Depois, foi para o juniores do Galo. Um dia, quando fui visitá-lo na associação do Luiz Pedro, encontrei-o de castigo, com outros internos. Motivo: pegaram ele fumando maconha, lembra Israel. Fugiu de casa O pai de Rafael conta que nessa época o filho fugiu daquela instituição e foi para a casa dos avós, onde foi criado desde que os pais se separaram, quando ainda era bebê. Imaginando que não podíamos fazer mais nada por ele, resolvemos deixá-lo na rua, pois não tínhamos mais forças para controlá-lo com as drogas. Chegou uma época em que ele tirava as coisas de casa para vender e comprar drogas, recorda emocionado. Boa esperança Israel narra que um dia encontrou uma amiga que era policial. Ela me disse que um amigo dela passava pela mesma situação que eu. Ou seja, o filho dele era envolvido com drogas, mas tinha se recuperado porque os pais o levaram para a Fazenda Boa Esperança, instituição da Igreja Católica que cuida de menores drogados, localizada em Lagarto, Sergipe. Sem dinheiro, Israel lembra que teve a ajuda das irmãs - Louzane e Helena -, que lhe deram apoio moral e financeiro para que pudesse levar o filho para Sergipe e custear as despesas na instituição. Lembro-me que pagamos R$ 840 de entrada para internar o Rafael e tínhamos que pagar um salário mínimo mensal. Ele ficaria lá durante um ano, recebendo o tratamento adequado de recuperação. Então eu lhe disse: ?Essa é a sua última oportunidade?. E assim o levamos para lá. Íamos visitá-lo sempre que podíamos, narra. Volta ao futebol Lá Rafael passou um ano e dois meses. Voltou para Maceió no dia 5 de outubro de 2005. E melhor: totalmente recuperado. Graças a Deus ele se recuperou. Mudou como da água para o vinho, diz Israel. E prossegue: Ele falou-me que tinha vontade de voltar a jogar. Eu fui procurar o José Serafim, dirigente do Porto Real, para levá-lo para lá. E tem dado certo. Recuperamos o meu filho, que hoje freqüenta a Igreja Batista, finaliza Israel. |FM e WS ### Relatos de um atleta que escapou do fundo do poço Não sei como eu não morri. Só Deus mesmo para me livrar de tudo o que passei. Deus me deu uma nova chance ao lado da minha família. Esse é o desabafo do jovem Rafael Marques que, depois de se envolver com drogas, desde a adolescência, e até conhecer o abandono e o desprezo dos pais, garante que está recuperado. Quando eu saí do CRB, por causa das drogas, minha família me desprezou. Senti-me completamente abandonado e já estava cansado da vida de erro que eu levava. Havia dias em que eu encostava num canto e chorava, ficava quieto, pedindo a Deus que me livrasse daquela vida, declara. Ele relembra o tempo em que viveu na Fazenda Boa Esperança, em Lagarto-SE, longe da família, durante um ano e dois meses, fazendo tratamento para se livrar das drogas. Sentia muita saudade de casa, das drogas, mas fui me acostumando. Lá eu acordava 5h15 da madrugada e ia trabalhar no jardim, capinava, cuidava das plantas. Quando os pais iam visitá-lo (o pai e a madrasta), foram percebendo uma mudança no filho. E para melhor. Fiquei muito feliz, pois minha família já me olhava de uma outra forma. Meu pai me acolheu e eu agradeço a Deus por isso, diz o jovem lateral do Porto Real, acrescentando que está pronto para dar a volta por cima. Uma nova vida Posso dizer que renasci, pois naquele mundo [das drogas] eu já tinha perdido o sentido de viver. Hoje estou recuperado e vou dar a volta por cima. Vou em busca do meu sonho, que é jogar no São Paulo, meu clube do coração. Estou me dedicando ao futebol, aqui no Porto Real, para um dia alcançá-lo, revela. Ele agradece primeiramente a Deus. Ele me tirou do fundo do poço. E agradeço também à diretoria do Porto Real. Os dirigentes e o técnico Enio me acolheram. Só tenho a agradecê-los por isso, finaliza. Rafael deixa uma mensagem aos jovens viciados: Drogas não levam a nada. É tudo ilusão. Digo isso por experiência própria, por tudo o que passei. Sei que não é fácil se livrar do vício, mas se a pessoa se apegar a Deus consegue, com certeza. O jovem lateral Rafael participou recentemente de um campeonato interestadual (Copa Alagoas) de sua categoria (sub-20) e foi escolhido segundo melhor jogador de sua posição. |FM e WS ### André, 17, cometeu um ato infracional de natureza grave e foi interno no CRM A história de André - nome fictício - é semelhante a de Rafael. Com 17 anos, o garoto, que também joga no Porto Real, viveu momentos de tristeza, medo, arrependimento e castigo. Ele não se envolveu com drogas, mas cometeu um delito considerado grave. Por isso pediu para não ser identificado pela Gazeta, para evitar possíveis retaliações. Ele cumpriu uma medida socioeducativa por ter cometido um ato infracional de natureza grave. Ficou privado de liberdade na Unidade de Internação Provisória e Unidade de Internação Masculina [antigo Centro de Recuperação de Menores (CRM)]. Hoje ele está recuperado, conta o treinador do Porto Real, Enio Oliveira, que acompanhou o drama de André naquela instituição, onde trabalha. O jogador chegou ao clube há cinco meses e se diz arrependido do que fez. Envolvi-me nesse problema, cometi esse crime, mas já paguei pelo meu erro. Hoje quero esquecer o momento de fracasso que vivi. Sou um novo homem, estudo, jogo futebol. Minha vida, atualmente, é de casa para o treino e para a escola. Todos os dias entrego a minha vida a Deus, narra o jovem atleta. Ele é dedicado aos treinamentos, é muito interessado. Assim como o Rafael também é. Ambos estão evoluindo a cada dia, elogia Enio Oliveira. André declara que não tem muito o que dizer. Só quer apagar o passado e pensar daqui para frente. Ter uma nova vida, um futuro melhor. Eu já joguei em alguns clubes amadores e agora estou retomando o que mais gosto de fazer: jogar futebol. Estou reencontrando o meu caminho e essa oportunidade eu vou agarrar com unhas e dentes, diz, revelando o maior sonho: Quero um dia jogar no Palmeiras-SP, o meu clube de coração, finaliza. |FM e WS