Esportes
No futebol, dirigimos a paixão dos outros
WELLINGTON SANTOS FERNANDA MEDEIROS Repórteres O presidente da Federação Alagoana de Futebol (FAF), Raimundo Soares Alexandre, terá pela frente o maior desafio em seus 16 anos de administração do futebol alagoano: gerir o badalado Alagoano 2006 que começa no dia 15. Ex-lateral direito do Comercial de Viçosa, nesta entrevista ele fala, entre outros temas, sobre a competição, as críticas, sobre como a FAF sobrevive, o longo tempo de mandato e diz que não recebe salário para ser o presidente da entidade. Gazeta - A Federação Alagoana de Futebol está preparada para receber a pressão que será o Campeonato Alagoano 2006? Raimundo Soares - A partir da hora que dirigimos a paixão dos outros (dirigentes e torcedores), com pensamentos diferentes, é claro que temos de estar preparados. Mesmo sabendo das dificuldades que encontraremos ao longo da competição, sempre buscaremos por meio do diálogo e da verdade, o caminho para as soluções das situações difíceis que encontrarmos. Então, estamos, sim, preparados para administrar bem a paixão maior do povo de Alagoas, o futebol. Alguns críticos dizem que na área tecnológica a FAF deixa a desejar. Inclusive, um dos auditores do TJD usou a expressão Casa da mãe Joana, referindo-se à FAF, pois segundo ele, não entende como a entidade ainda trabalha com uma máquina de datilografar. Veja bem. Quando se fala em casa da mãe Joana, eu discordo de quem falou, o Betinho [Alberto Jorge]. Ele veio me pedir desculpas, pois disse que havia se portado erroneamente. Toda instituição vai ter de fazer os registros dos jogadores de acordo com os equipamentos que possui. Mas hoje estamos com toda a estrutura de informatização na etapa final, aguardando apenas um programa que vamos receber da CBF. Então, eu discordo porque nem tudo é perfeito na vida. Buscamos a perfeição, mas sempre vai ter alguma falha. O senhor acha que às vezes se precipita em algumas decisões, por exemplo, não consulta a assessoria jurídica da FAF, sobre questionamentos feitos pela imprensa? A gente trabalha com regulamentos e nem sempre estamos com eles na mão ou na mente. Sou uma máquina humana passiva de erros. Mas todas as decisões que temos tomado são de acordo com o regulamento. Tenho cometido algum pecado como dirigente de futebol e devo ter tomado algumas decisões precipitadas, mas temos que contar com a habilidade e a experiência que conquistamos no futebol. O fato de o senhor ser sempre bonzinho com os dirigentes, agindo pela amizade, não tem lhe prejudicado? Não está na hora de deixar a amizade de lado e agir com rigor? A gente tem amizade, mas na hora da decisão e da seriedade ela vai doer em alguém. Infelizmente, temos de deixar a amizade de lado para tomar decisões que às vezes são duras. Principalmente agora com a intervenção do Ministério Público, não é? Antes mesmo de o Ministério Público atuar no futebol, tomamos uma decisão que chocou a torcida do CSA. Aquela de tirar do Mutange o jogo final do campeonato e levá-lo para o Rei Pelé, em 2000. O MP se engajou no futebol. O senhor acha que por isso a FAF rompeu com a história de querer agradar os clubes e está mais profissional? Não podemos deixar de ser amigos dos amigos. Mas é claro que quando vamos tomar alguma decisão temos de separar as coisas. O Ministério Público se aproximou do futebol e o temos como parceiro, no qual fiscaliza o que é certo e o que é errado. Se tiver certo, a FAF continua fazendo. Se tiver errado, o MP tem de tomar as providências. A Polícia Militar foi muito rigorosa nas vistorias dos estádios? Se a PM não tomar as providências em relação à segurança só teremos badernas e vândalos atrapalhando o andamento e a paz nos estádios. Então, temos de contar com o apoio da PM. Discordo de alguns posicionamentos e alguns itens inseridos nas vistorias, mas temos de contar com a polícia, porque sem ela não podemos chegar ao final das competições, com segurança, já que ela é o aparelho de segurança do Estado. Várias denúncias de irregularidades ocorreram na 2ª Divisão do Alagoano em 2005. O senhor não tem medo que isso se repita este ano? Sobre isso, eu tiro a culpa da FAF e do funcionário do Setor de Registros [Walfredo Oliveira]. O que aconteceu com a transferência do atleta Bebeto, ex-Teotônio, foi que o clube a solicitou da Federação Pernambucana. Só que a funcionária que trabalha lá esqueceu de dar baixa e foi solicitada a trasferência também para o Central-PE. Mas a FAF já tinha recebido o primeiro documento. Por isso, o Teotônio não foi punido. E a FAF não tem receio de irregularidades, porque está tomando todas as providências para informatizar o Setor de Registros, que ficará pronto ainda este mês. Em relação ao fato de os clubes terem diversos políticos envolvidos, o senhor não teme a influência que poderá ser exercida? Tenho um bom relacionamento com a maioria dos políticos, mas o campeonato não será gerenciado pela pressão dos políticos, mas pelo regulamento aprovado pelos clubes. E aí temos de ter pulso forte para poder tratar quem quer que seja, de acordo com o regulamento e com a lei que regem o futebol. O patrono do Bom Jesus, Cícero Cavalcante, em entrevista à Gazeta, no ano passado, acusou a FAF de ter feito um arrumadinho para beneficiar o CSA na 2ª Divisão. Como está o seu relacionamento com ele? Foi uma acusação séria, grave, mas se você fala tem de provar. Se houvesse um arrumadinho o CSA não teria sido rebaixado para a Segunda Divisão. E ele só voltou à Primeira Divisão do Alagoano dentro de campo, por méritos próprios. A FAF não fez nenhum arrumadinho. ### FAF recebe ajuda mensal de R$ 30 mil Gazeta - Já houve algum tipo de constrangimento pelo fato de o presidente licenciado da FAF, Raimundo Tavares, ser ligado ao CSA? Ele discorda de alguns posicionamentos do senhor? Raimundo Soares - Todo mundo sabe que o Raimundo é azulino e conselheiro do CSA, mas ele nunca me pediu que gerenciasse algo em favor do CSA ou de qualquer outro clube, pela indoneidade que tem e pelo homem que é. Tenho 13 anos na FAF, ao lado dele na presidência e na vice, e nunca tivemos uma discussão. Toda decisão que tomo, ele tem dado total apoio. Quanto tempo de mandato tem o presidente da FAF? Recebe salário? E as críticas de pessoas que dizem que vão lançar chapa por não concordarem com o grupo de vocês, há tanto tempo na FAF? São quatro anos de mandato, mas de acordo com o Estatuto da FAF quem quiser se reeleger pode se candidatar quantas vezes desejar, com o voto dos clubes filiados. O grupo atual já está no terceiro mandato. Eu tenho 13 anos com o Raimundo Tavares e três anos com Bastinhos. Quanto às críticas, elas são normais, não nos preocupam. Quando você dirige um clube ou qualquer entidade, não agrada a todos. E sabemos que as críticas vêm e os elogios também. Em cima das críticas conseguimos consertar algumas falhas e dos elogios vamos buscar um aperfeiçoamento maior. Vocês recebem salário? Não. A FAF é uma entidade filantrópica sem fins lucrativos. Rege o futebol alagoano com um certo amadorismo porque não recebemos salários. Então, como a FAF se mantém? Recebe algum recurso da CBF? A FAF recebe uma ajuda de custo enviada pela CBF, todos os meses, no valor de R$ 30 mil. Eu revelo porque não tenho o que esconder. E essa ajuda de custo não dá para a gente fazer toda a administração mensal, pois temos uma concentração [Giulite Coutinho], um estádio [Cleto Marques Luz], uma sede, 23 funcionários registrados e pessoas que trabalham como serviço prestado. Então, esses R$ 30 mil não dão para pagar todas as despesas. O complemento vem de algumas rendas dos jogos, quando eles não dão prejuízos. E a Campanha Cidadão Nota 10 será a redenção financeira do campeonato? Conquistamos um espaço jamais visto no futebol alagoano, graças ao apoio da Secretaria Executiva de Esporte e Lazer (Seel). Na primeira edição da campanha não tivemos uma estrutura merecida, mas este ano fizemos o contrato com o governo do Estado de R$ 700 mil para bancar as despesas dos clubes. O governador reclamou ao presenciar um público muito superior ao anunciado no jogo CRB x São Raimundo, no Rei Pelé, no Brasileiro de 2005. E isso sempre foi uma constante no Trapichão. Vai continuar assim este ano? A FAF sempre teve a responsabilidade de administrar os jogos e sempre diziam que havia evasão de renda. Aí o CRB pediu para administrar e administrou. Mas os estádios continuaram lotados e as rendas e os públicos continuaram lá embaixo. Na parceria com a Seel e a Secretaria da Fazenda vamos fazer uma fiscalização para saber onde está o erro. E mostrar ao torcedor quem está cometendo esse erro. Vamos divulgar as rendas e o público com a maior transparência possível. O campeonato corre o risco de ser adiado, caso os estádios sejam vetados? Não. O lançamento da competição será dia 11, e este evento dirá o que será o Estadual 2006. E as torcidas organizadas, o senhor acha que elas voltarão? A Mancha Azul e a Comando Vermelho estão fora de circulação no momento, mas as demais não têm por que deixar de ir a campo. Sou a favor delas, desde que façam um trabalho em prol da paz nos estádios. WS/FM ### QUEM É Nome: Raimundo Soares Alexandre Idade: 48 anos Cargo: Presidente da FAF Profissão: funcionário público federal Formação: engenheiro elétrico Ídolo no futebol: Pelé Hobbies: futebol