Esportes
Xadrez, um novo aliado escolar
FRANCISCO JOSÉ e FERNANDA MEDEIROS Há um mês, o governo federal fez um estudo preliminar que tem por propósito disseminar a prática do xadrez nas escolas de todo o País. Baseados em experiências que mostram que este jogo desenvolve a capacidade intelectual das crianças, melhorando, inclusive, o desempenho em matérias didáticas, os ministros da Educação e do Esporte, respectivamente Cristovam Buarque e Agnelo Queiroz, se reuniram e decidiram que, inicialmente, cinco cidades do País ? ainda indefinidas ? vão passar, em breve, por essa avaliação. O trabalho está sendo feito em conjunto com a Confederação Brasileira de Xadrez (CBX) e a idéia é aproveitar a metodologia aplicada por 800 escolas estaduais do Paraná desde a década de 1980 e, num futuro próximo, fazer com que o xadrez seja incluído na grade curricular desde o Ensino Fundamental. Em Alagoas, a reestruturação do xadrez vem desde1997, quando foi fundada a Federação de Xadrez do Estado de Alagoas (Fexeal). Neste período, quatro parcerias já foram firmadas. A primeira delas, em 2000, foi com o Juvenópolis, instituição filantrópica para menores carentes, localizada no bairro de Bebedouro. Lá, é praticado o xadrez humano, onde as pessoas substituem as peças no tabuleiro. A segunda parceria, em 2001, foi feita com o Centro de Ressocialização de Menores (CRM), por intermédio da Secretaria Estadual de Ação Social. A terceira, com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), por meio do Projeto Cidadela, e, hoje, algumas escolas municipais da capital e mesmo particulares já adotam o xadrez. Algumas como atividade esportiva e outras como curricular. O quarto projeto foi implantado, este ano, na Cruz Vermelha. O detalhe é que o tipo de xadrez também é o humano. ?É uma forma teatral de chamar a atenção da garotada para a prática deste esporte?, ressalta o presidente da Fexeal, Flávio da Costa Silva, à frente da entidade até 2005. Points de xadrez Outros pólos de xadrez em Maceió são o Conjunto Graciliano Ramos, conhecido como ?Bico do Corvo?, onde, em 2002, foi realizado o I Festival de Xadrez daquele conjunto, com diversos torneios, a saber: temáticos; ping; rápido; primeiro torneio de xadrez às cegas, onde os garotos do conjunto mostraram a proeza de jogar sem olhar para o tabuleiro; e, por fim, uma partida de xadrez humano, onde duas equipes vestidas a caráter encenaram um jogo de xadrez. Há também o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) e o Serviço Social do Comércio (Sesc), onde todas as tardes os enxadristas se reúnem para jogar. Há, ainda, outro ponto, localizado na Pajuçara, na Barraca do Richard, também denominado ?Pulo do Cavalo?. ?São nomes adotados pelos próprios praticantes do jogo. Cada ponto tem seu nome específico?, explica o instrutor e vice-presidente da Fexeal, Yuri Miranda. Ainda segundo ele, há o Clube de Xadrez Peão do Rei, na Rua Formosa, em Ponta Grossa, onde os ?feras? do xadrez alagoano jogam. Em cada um desses ?points? de xadrez o número médio de praticantes é de 60 pessoas. Mas não é só em Maceió que o xadrez está presente. No interior do Estado ele também marca presença. A destacar os municípios de Palmeira dos Índios, Murici, Arapiraca, Viçosa e Marechal Deodoro. Segundo Yuri Miranda, apesar de existirem muitos locais onde se pratica o xadrez no Estado, a Fexeal ainda não possui registro de filiação na Confederação Brasileira de Xadrez (CBX). ?Isso por causa dos custos, que são elevados, e da burocracia. Além do mais, os clubes (pontos) não têm efetividade nem são registrados na Fexeal. Eles são informais?, justificou. ?O fato de ainda se encontrar em processo de filiação à CBX não impede que a Fexeal participe de eventos promovidos pela Confederação, bem como de ter alguns de seus enxadristas filiados à mesma?, assegura . Segundo o psicoterapeuta Laerte Leite, o objetivo da aplicação do jogo de xadrez nas escolas é ajudar as crianças com problemas de atenção, agressividade, desorganização das atividades diárias. ?O xadrez tem essa função porque é um jogo de estratégia, onde a pessoa tem de pensar, elaborar um plano. Isso já leva a criança a começar a organizar o pensamento. Depois ela começa a ter noção de espaço, concentração, começa a aprender a trabalhar com o tempo, porque cada jogador de xadrez tem um determinado tempo para executar a jogada, então, precisa ter controle emocional?, explica. Laerte Leite salienta que essas atividades que mexem com o pensamento da criança não aparecem quando ela está pensando, pois a criança está movendo as peças do jogo, mas a vida interior dela está sendo toda remontada, reconstruída. Outro aspecto do xadrez, segundo ele, é que se trata de um jogo de competição. ?A criança agressiva e problemática precisa ter uma motivação maior, ter de vencer alguma coisa?. Como a vida. Assim o psicoterapeuta compara o jogo de xadrez. ?É muito o exemplo da vida, onde a pessoa precisa se organizar, ter metas, saber trabalhar com o tempo, saber perder e ganhar. Essas funções todas são desenvolvidas no xadrez. O que se aprende num tabuleiro de xadrez, a pessoa leva para a vida?, compara. O trabalho de desenvolver o raciocínio, trabalhar a mente, proporcionado pelo jogo de xadrez, não ajuda somente as crianças e adolescentes considerados agressivos. Quem tem problemas de depressão, timidez, desânimo, inibição, etc., também é beneficiado. ?Isso porque a criança vai ser desafiada a desenvolver uma tarefa, num tempo limitado. Os depressivos também precisam organizar o pensamento, porque têm dificuldade de pensar e, à medida que são desafiados a pensar e têm um tempo limitado para fazê-lo, são motivados a reagir à ação do inimigo. Quando a criança é inibida e começa a jogar xadrez, passa a se soltar, porque tem um tempo mais rápido para elaborar e responder. Geralmente o tímido fica pensando nele mesmo, tem dificuldade de feedback. Com o xadrez, esse feedback tem de acontecer, pois a cada ação do inimigo ele precisa criar uma outra ação de defesa?, afirma. A partir dos cinco ou seis anos de idade, explica Laerte, a criança já pode começar a jogar xadrez. ?Nessa idade, ela começa a aprender o movimento da pedra, mas ainda não tem o raciocínio para fazer um jogo mais elaborado?, diz. Ele afirma que a criança e o adolescente respondem mais rapidamente ao trabalho desenvolvido com o xadrez. Nas escolas, principalmente, a atividade é mais praticada. ?No Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo, as escolas municipais já adotaram esse trabalho. Inclusive, em Petrópolis, onde morei, fizemos uma pesquisa com crianças agressivas que tinham dificuldades de aprendizado, que costumavam ser expulsas das salas de aula. Elas foram convidadas a participar de um clube de xadrez criado na escola e os resultados começaram a acontecer. Imediatamente, mudaram de atitude, em termos de aprendizagem e comportamento. Então, temos a comprovação científica, mediante pesquisa, de que o xadrez é um jogo que deveria ser estimulado para todas as idades e em todas as situações?. Com relação aos adultos, Laerte explica que, como são mais resistentes às mudanças de comportamento e conduta, o trabalho se torna mais longo, ao contrário das crianças e adolescentes, que geralmente estão mais abertos aos desafios. ?Por isso, os jovens se adaptam mais facilmente ao jogo de xadrez, pois estão muito mais abertos a desenvolver novas formas de pensar. Sendo assim, funciona melhor em jovens e crianças?, disse, acrescentando que estimula os pais a desenvolver o jogo com os filhos, na comunidade onde vive, com os vizinhos. ?A família pode começar a estimular a criança, por meio da vontade do próprio pai em querer aprender a jogar e passar o hábito para o filho?. ?O xadrez precisaria ser muito mais divulgado, mais compreendido pelos pedagogos, pelos professores, porque é um instrumento de grande utilidade e que já traz a própria motivação da competição?, garante. Lendas sobre a origem do jogo A origem do xadrez é das mais remotas. E misteriosa. Conhece-se, até o momento, cerca de 40 lendas a esse respeito. Uma delas menciona o herói grego Palamedes como o criador do xadrez, durante o cerco de Tróia, com o objetivo de distrair seus guerreiros. A tradição mitológica indicava Palamedes como um personagem de grande criatividade, atribuindo-lhe, entre outras invenções, o alfabeto e os números. Os nomes que o xadrez recebeu são bem estranhos. Na língua portuguesa, surgiu no século XVI com as variantes ajedrez, shatranj (árabe), chatrang (persa antigo), chaturanga (sânscrito), échecs (francês, ano de 1080), scacchi (italiano, século XII), chess (inglês, séculos XII e XIII), schachspiel (alemão)... A grande discussão é para saber se o jogo provém dos árabes, hindus, chineses, romanos, gregos, babilônios, judeus, irlandeses, galeses e outros povos e, quem diria, atribuem a invenção do jogo a Aristóteles e até ao rei Salomão. O que se fala é que este é um esporte hindustão, que tinha o nome de chaturanha. Começou a ser difundido na Índia, Coréia, Japão, Rússia, Escandinávia e Escócia. Outros historiadores preferem dizer que ele entrou, vindo do Hindustão, pela Pérsia, hoje Irã. A verdade é que o xadrez sofreu algumas alterações e a palavra xeque-mate vem do persa shah-mat, rei morto. Surgiram muitas escolas de xadrez, mas o que se joga hoje é o que se jogava nos séculos XV e XVI, com técnicas variáveis. A Escola Espanhola foi muito importante e tem como marco o livro de Ruy López de Sigura, escrito em 1561, que analisa e mostra as regras, técnicas e a evolução do esporte. A Escola Francesa surge nos primeiros anos do século XIX. Depois é a vez dos alemães, a partir de 1830, em Berlim. No Brasil, o xadrez é jogado desde 1808, com seu primeiro torneio oficial disputado em 1880. O órgão que coordena o esporte no País é a Confederação Brasileira de Xadrez (CBX), no Rio de Janeiro. O xadrez, para seus defensores, não é só um jogo, mas uma ciência, proporcionando o mais puro dos prazeres intelectuais. Na Rússia, faz parte dos currículos escolares. Esse esporte é o segundo mais praticado em todo o mundo, abaixo apenas do futebol, e os enxadristas dizem que é parte indispensável na educação, pois impulsiona a imaginação e contribui para o desenvolvimento da memória. É um verdadeiro organizador das faculdades mentais. Leibnitz dizia: ?O xadrez é o único jogo que deve interessar à humanidade?. Segundo Stalda, ?o xadrez não constitui uma simples luta de peças em um tabuleiro de jogo, mas, sim, uma luta de vontades racionais que tendem ao mesmo objetivo?. (Fonte: História dos Esportes, de Orlando Duarte. Makron Books do Brasil Editora Ltda.)