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Ciganos do futebol

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TOTE NUNES (AE) Todos os dias, três jogadores brasileiros deixam o país em busca de fama e dinheiro no exterior. Na sala de desembarque do mesmo aeroporto, outros dois estão de volta e, na maioria dos casos, trazendo na bagagem nada além de histórias e desesperança. Entre os que partem estão craques consagrados ou jovens promessas do futebol cinco vezes campeão do mundo. Entre os que chegam, atletas que grande parte dos torcedores jamais ouviu falar. Um levantamento realizado pela CBF a pedido do portal estadao.com.br confirma que é crescente o número de jogadores que deixam o país todos os anos. E revela também que um número cada vez maior de atletas brasileiros está fazendo o caminho de volta. Até o final de setembro ? quando termina o prazo de inscrições no futebol europeu ? os registros da CBF contabilizavam a saída de 788 jogadores brasileiros para clubes de futebol, nos cinco continentes. Uma média de 88 por mês. No mesmo período, 476 atletas retornaram ao país, o último deles, Leonel Francisco Freitas, o Chiquinho, que no dia 24 de setembro deixou o FC Pforzheim, da Alemanha, e retornou ao Guarani, de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul, de onde havia saído alguns meses antes. Alguns voltam por opção profissional ? caso, por exemplo, do meia Ricardinho, que trocou o Middlesbourough, da Inglaterra, pelo Santos; ou ainda do atacante Luizão, que deixou o Hertha Berlim para jogar no Botafogo, do Rio. Mas essa, infelizmente, não é a realidade para a esmagadora maioria de repatriados. Razões O ex-jogador Jorginho, campeão mundial em 1994 ? que neste ano iniciou (e interrompeu) uma carreira como empresário de jogadores ?, tenta explicar as razões pelas quais tanta gente quer deixar o Brasil, sem a certeza de que vai ganhar um bom dinheiro e conquistar a chamada ?independência econômica?. ?Falta de perspectiva profissional, uma enorme expectativa criada pela família, que sonha em ver resolvidos os seus problemas financeiros, e a ganância dos empresários?, diz. Jorginho continua: junte-se a isso a falta de seriedade da maioria dos clubes brasileiros, que freqüentemente descumprem contratos de trabalho. O desemprego é outro fator. Sem opções aqui, jogadores passaram a apostar até mesmo em destinos pouco comuns. Em São Paulo, o maior mercado do país, com 160 clubes em todas as divisões profissionais, existem 600 jogadores desempregados, o que representa 15% dos 4 mil atletas registrados, segundo o sindicato da categoria. Sem alternativas no mercado interno e estimulados pela atuação de empresários, a saída passa a ser o aeroporto, mesmo que o destino seja pouco glamouroso. Só este ano, 25 jogadores brasileiros estiveram no futebol paraguaio, 15 passaram pela Arábia Saudita, 14 jogaram na Coréia e nove saíram da China. Sete estiveram na Indonésia e no Kuwait, seis na Índia e outros seis em Israel. A maioria sequer alimenta o sonho de ganhar muito dinheiro. Eles querem mesmo é sobreviver. Por conta disso, é comum aceitarem propostas que variam entre 2 e 5 mil dólares por mês de salários. Confira, a seguir, depoimentos de três desses jovens ciganos do futebol e sua história nada glamourosa: do zagueiro Regis, do Cruzeiro, que encarou a aventura de jogar na Rússia; de Fábio Bombardi, que definiu sua passagem de pouco mais de seis meses pelo futebol da China e do Casaquistão como ?do hotel 5 estrelas a uma pensão barata?; e do zagueiro do Ituano, André Leone, cuja passagem pelo futebol italiano terminou na polícia.

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