Esportes
Rendas no Rei Pel� abrem controv�rsias
FERNANDA MEDEIROS WELLINGTON SANTOS Repórteres O torcedor alagoano, principalmente aqueles que freqüentam assiduamente o Estádio Rei Pelé, tem se espantado e questionado, nas últimas partidas, sobre a capacidade real do majestoso Trapichão. Tudo porque, segundo muitos deles - que a reportagem da Gazeta de Alagoas ouviu -, não têm sido raras as partidas em que o campo se encontra quase que completamente tomado por uma multidão de pessoas, mas na hora do famoso ?vamos ver quanto foi que deu?, ou seja, do anúncio da renda, a surpresa é geral para os mais atentos, pois o número de pessoas é infinitamente superior ao anunciado. Segundo o contabilista José Márcio Ferreira, ?ou o Trapichão encolheu ou entra mais gente de graça do que os que pagam?, ironiza o torcedor regatiano, que foi ao jogo entre CRB e Sport (ver informações da renda na seqüência da matéria). O vice-presidente financeiro do CSA, José Wilson de Oliveira, concorda que há algo errado em relação ao público que vai realmente ao Estádio Rei Pelé e aquele que é divulgado oficialmente pela Federação Alagoana de Futebol (FAF). ?O problema é que sempre tem gente que não paga o ingresso. São pessoas que pulam os muros do Estádio Rei Pelé e não há fiscalização para isso?, opinou. No jogo entre CSA e Sete de Setembro, por exemplo, na abertura do Campeonato Alagoano da 2ª Divisão, no dia 1º de maio, o público total divulgado foi de 7.296 torcedores, sendo 6.063 pagantes e 1.233 não-pagantes. A renda foi de R$ 25.426,50. O dirigente expõe, de certa forma, que o Rei Pelé é vulnerável e uma ?mãe? para os que querem uma boquinha sem gastar um tostão. Quem foi ao estádio naquele dia, como o torcedor azulino Rafael Barros, pôde constatar que tinha muito mais gente do que o anunciado. As grandes arquibancadas estavam praticamente tomadas pela torcida azulina. ?O estádio estava cheio e, se tinha apenas esse número de pessoas, onde caberia o restante que completa a capacidade total do Trapichão??, questiona. Levantamento Oficialmente, no Rei Pelé, segundo levantamento do ex-secretário-executivo de Esporte e Lazer (Seel), Eduardo Canuto, se fossem computadas todas as pessoas sentadas, caberiam cerca de 21 mil pessoas, confortavelmente acomodadas. Recentemente, a Revista Placar divulgou matéria afirmando que o Estádio teria capacidade para 25 mil pessoas. ?Então como explicar um estádio praticamente lotado, só com alguns pequenos claros, e o público anunciado ser de 7 mil ou 8 mil torcedores? Há algo estranho?, ironiza novamente José Márcio Ferreira. ?O Trapichão é muito vulnerável. A gente não sabe como essas pessoas conseguem entrar sem pagar. Mas devem ter aquelas privilegiadas que também entram gratuitamente, pela amizade que podem ter com porteiros, seguranças. Não sei, mas que deve haver algo nesse sentido, deve?, sustentou o dirigente José Wilson. A reportagem da Gazeta tentou ouvir várias vezes o atual secretário de Esporte e Lazer, Marlon Batista de Araújo, mas ele não retornou as ligações, para explicar a respeito da estrutura do estádio, bem como se já existe outro estudo sobre a capacidade real do Rei Pelé. Carteiradas Além das pessoas que entram dando as famosas ?carteiradas?, há aqueles torcedores corajosos que se aventuram em pular os muros altos do Estádio Rei Pelé, sem ao menos se importar se vão levar uma queda de lá de cima. ?Eu mesmo já vi muitos torcedores fazendo isso, mas não vou brigar com eles, pois não quero me arriscar a ser xingado ou mesmo agredido fisicamente?, disse José Wilson. ?Muitos conselheiros do CSA já vieram denunciar essas ocorrências, mas, infelizmente, não podemos fazer grandes coisas?, acrescentou. Ele afirma que alguém tem que ser responsável no sentido de coibir as evasões de renda e público no Rei Pelé. ?Não sei se a responsabilidade é da Polícia Militar ou da Seel, mas o fato é que os clubes pagam caro pelo aluguel do estádio, que deveria ser dotado de uma estrutura capaz de evitar as evasões?, declarou. ### Vulnerabilidade é principal causa de evasão O presidente da FAF, Raimundo Soares, concorda com José Wilson, quando cita a vulnerabilidade do Rei Pelé como a principal causa das evasões. ?Estamos fazendo um trabalho com os clubes e a Seel, no sentido de coibir a evasão. É claro que isso não vai ser feito da noite para o dia, mas com o apoio dos dirigentes, vamos contratar mais seguranças para flagrar os ?penetras? nos locais mais vulneráveis?, declarou. Soares explica que esse trabalho não é da Polícia Militar. ?A PM está lá para fazer a segurança pública e não para vigiar quem entra de graça?, disse. De acordo com ele, a polícia só entra na jogada quando é detectado que alguém esteja criando problemas com os seguranças por querer entrar sem pagar ingresso. O dirigente diz que a FAF e os clubes têm fiscalizado os porteiros e o pessoal que fica tomando conta das catracas eletrônicas do estádio. ?Fazemos isso para evitar que eles deixem pessoas amigas entrarem de graça. Essa medida tem surtido efeito, sobretudo após a instalação das catracas eletrônicas?, afirmou. Ele lembra que no jogo da Seleção Brasileira com a Colômbia, no dia 13 de outubro do ano passado, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo/2006, no Trapichão, foram vendidos 20.800 ingressos e o estádio ficou lotado. ?Não houve problema de evasão?, observa. Naquele dia o Rei Pelé ?lotou? para assistir à seleção, mas o que a torcida reclama é que nos jogos do Campeonato Alagoano e, principalmente no Brasileiro da Série B, o Trapichão tem recebido grandes públicos. Não chega a lotar, mas as gerais, arquibancadas e cadeiras ficam cheias. A torcida pergunta: se no jogo do Brasil, que estava lotado, o público foi de mais de 20 mil pessoas, nos jogos de CRB e CSA, por exemplo, que têm os públicos divulgados em cerca de cinco a sete mil torcedores, mas o estádio fica cheio, onde caberia o restante do público para lotar a capacidade? A Gazeta apurou, porém, com pessoas que trabalham no Rei Pelé, que dirigentes de clubes e da própria FAF estariam colocando pessoas para entrar de graça no estádio. No jogo CRB x Santo André, dia 23 de abril, pela Série B, o público oficial foi de 6.559 torcedores, sendo 5.447 pagantes e 1.112 não-pagantes. A renda foi de R$ 38.450,00. Já no confronto contra o Sport-PE, dia 8 deste mês, o público divulgado foi de 9.350 torcedores, sendo 6.767 pagantes e 2.583 não-pagantes. A renda foi de R$ 46.900,00. E um caso inusitado aconteceu nesse jogo. A diretoria do CRB anunciou que teria vendido todos os ingressos da promoção de sócio-torcedor, ao preço de R$ 5, um total de 5 mil colocados à venda. Os ingressos normais (sem a promoção) foram 7 mil. Borderô Mas a Gazeta teve acesso ao borderô da partida divulgado pela CBF e constatou que ao invés de 5 mil como a diretoria havia anunciado, foram vendidos 5.051 para sócios-torcedores. E mais: que não tinham sido 5 mil, como informou a diretoria regatiana, mas, sim, 6 mil. E que foram devolvidos 949 ingressos à FAF. A renda só com os ingressos dos sócios-torcedores somou R$ 25.255,00. Procurado para explicar por que a diretoria anunciou cinco mil e não seis mil ingressos, o vice-presidente de Futebol do CRB, Gustavo Feijó, desconversou e disse que a reportagem procurasse o responsável pela venda dos ingressos antecipados, no caso, Elder Pereira. A Gazeta ligou várias vezes para Elder, mas seus telefones estavam desligados. Para o estudante universitário Lucas Menezes, 23, torcedor do CRB, é uma falta de respeito para com a torcida os públicos anunciados nos jogos do Rei Pelé. ?Com a própria torcida do CRB esse problema já ocorre há anos. Lembro-me que em 2001, no jogo CRB x Caxias, com o Trapichão lotado, o público anunciado foi de apenas 12 mil pessoas?, observa. ?Isso nos leva a crer que a capacidade máxima do Trapichão em jogos do CRB no Brasileiro é na faixa dos 12 mil torcedores. Só que quando o Flamengo joga na Copa dos Campeões, por exemplo, a capacidade do Trapichão chega a 30 mil pessoas. Não dá para entender?, reclama o torcedor. |FM/WS