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Paci�ncia ucraniana para formar atletas

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São Paulo - Exercícios fáceis, repetição exaustiva, afastamento de competições. O que parece uma rotina enfadonha e pouco útil para as jovens ginastas brasileiras é, na realidade, a maior receita para o sucesso futuro da ginástica nacional. Essa é a filosofia dos treinadores ucranianos Oleg Ostapenko, Irina Ilyaschenko e Nadia Ostapenko, que além de se ocuparem de Daiane dos Santos e das outras titulares da seleção, lapidam a nova ?safra? nacional. ?Eles são menos imediatistas do que a gente. São mais preocupados com a postura, com a correção dos movimentos. É uma outra filosofia?, afirma Eliane Martins, supervisora da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Irina Ilyaschenko, encarregada de treinar um grupo de cinco das mais talentosas meninas que ainda não têm idade para competir, concorda com a observação. ?Os brasileiros ensinam tudo muito rápido, querem que a ginasta chegue ao topo o mais cedo possível. O que acaba acontecendo é que a ginasta carrega vários pequenos defeitos. E muitas vezes não consegue chegar em sua maturidade com condição física boa?, diz a ucraniana, que cita o trabalho do colega Oleg Ostapenko com Daiane como exemplo. ?A Daiane ficou dois anos aprendendo e até hoje o Oleg a corrige em pequenos elementos de preparação para as acrobacias?. Jade Fernandes Barbosa, 14, uma das três ginastas em que a CBG mais aposta para a próxima Olimpíada, é um caso emblemático da diferença de filosofia. No ano passado, foi campeã pan-americana juvenil no solo e ganhou notoriedade nacional por ser a mais jovem do mundo a executar o duplo-twist carpado que consagrou Daiane. Integrada à seleção permanente no início deste ano, Jade praticamente não treina mais o elemento. ?Faz quase dois meses que só treinamos o básico. A Irina está polindo nossos movimentos para depois fazer coisas mais difíceis?, diz a ginasta. ?É meio chato porque temos de repetir muitas vezes uns exercícios básicos?, afirmou, em tom de resignação. ?A Jade agora enfrenta dificuldades porque começou a crescer. Aí, os erros dela começam a aparecer mais. É importante que possamos corrigir cada pequena falha, porque a técnica é fundamental para que os árbitros fiquem impressionados com a facilidade com que ela faz coisas difíceis?, diagnostica Irina, que prega paciência. ?Ela tem muito tempo para corrigir tudo, não precisa de pressa. Não precisa mostrar nada agora?. Nas séries Até mesmo ginastas praticamente formadas, como Laís Souza, 16, já veterana de uma Olimpíada, foram ?enquadradas? no esquema paciente dos técnicos da seleção. Apesar de já ter plena capacidade de executar tanto o duplo-twist carpado quanto o duplo mortal estendido, exercícios que já constam nas séries de Daiane dos Santos, Laís apresenta em competições internacionais uma seqüência acrobática muito mais fraca. Por que isso acontece? ?Pergunta para o Oleg?, diz Laís, rindo. ?Eu consigo fazer os saltos, mas se ele acha que não devo apresentar agora, ele está certo?. ?O Oleg vai testando. A cada competição, ela apresenta uma série diferente. Ele vai juntando as informações, sentindo como ela se apresenta, vendo o que é mais seguro?, diz Eliane Martins. ?Até o Mundial, certamente conseguirá fazer com segurança uma série de maior dificuldade?. Além do apego aos detalhes e a paciência na execução de exercícios e apresentação de séries, o método de trabalho dos ucranianos inclui ainda outra diferença: é preciso mostrar serviço nos treinos. ?Não existe ?na hora, faz?. É o contrário, é justamente na hora da competição que aqueles defeitinhos aparecem?, define Irina. Esse aspecto da filosofia ucraniana é um dos pontos que gerou atrito entre Oleg Ostapenko e Daniele Hypólito. A ginasta, que se rebelou contra o técnico no início de abril, é conhecida por ser uma atleta ?de competição?, que consegue mostrar seu melhor quando motivada. O ucraniano discorda e, vendo displicência e índice de acerto baixo nos treinos, veta movimentos mais complexos - e até tira as ginastas de competições. Nova geração é melhor A nova geração de ginastas, preparadas por Irina para o Pan-Americano de 2007 no Rio, é mais promissora do que a ?safra? que tem em Daiane dos Santos e Daniele Hypólito - as responsáveis pelos principais resultados da história da modalidade no País. É o que garantem tanto Irina quanto Eliane. ?O grupo que está vindo é muito melhor do que o de Daiane e de Daniele. A base delas é muito bem feita e também a preparação física evoluiu?, diz Eliane. ?Essas jovens chegaram mais preparadas e mais potentes do que as outras. A Laís de 12 anos dava sustos em todo mundo. Errava tanto no básico que sempre achávamos que ela iria se machucar?, conta a ucraniana. Para incentivar as novas ginastas da seleção permanente, a CBG escolheu três ginastas para receberem patrocínios individuais da Bombril, empresa que apóia a entidade. Laís Souza, 16, Jade Barbosa, 14, e Ana Cláudia Araújo, 13, foram consideradas as mais talentosas de suas idades e, por isso, além da ajuda de custo que todas as ginastas recebem da Confederação Brasileira, ganham ainda uma verba extra mensal.

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