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Esporte como meio de inclus�o social

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MARCOS RODRIGUES Repórter O esporte é a melhor forma de manter o corpo em atividade e garantir uma vida saudável. Mas a prática esportiva pode significar, também, um recomeço e, principalmente, representar a possibilidade de inclusão social das pessoas portadoras de deficiência. Com muita solidariedade e força de vontade os atletas especiais dão uma lição de perseverança e desejo de viver. Um exemplo é um grupo de alunos da Escola de Cegos Ciro Acioly, atualmente lotados no prédio da Escola Diegues Júnior. Com a orientação do professor de Educação Física, Walter Simões, os estudantes aprendem as técnicas do goalball, um esporte criado para portadores de deficiência visual. Mas o seu trabalho vai além das técnicas que envolvem a modalidade. ?É um trabalho diferenciado porque nós somos um pouco psicólogos, conselheiros, mas principalmente amigos. O esporte ocupa um espaço importante na vida deles porque ajuda a quebrar limites e a transpor dificuldades, além de ajudar no desenvolvimento físico?, conta Walter Simões. Lição Para os alunos da escola, o envolvimento com o esporte faz parte do aprendizado. Porém, não são todos que aderiram aos grupos de natação, judô, goalball e futsal. Ao todo estão matriculados 139 alunos, que aprendem além das disciplinas tradicionais técnicas de deslocamento e a leitura em braile. ?Tudo é voltado para que eles conquistem a independência e autonomia. Já o esporte ajuda também na sociabilidade. Muitas vezes o aluno chega calado, tímido, mas a partir da convivência se transforma?, acrescentou o professor Simões. Descoberta Foi assim com Mírian Cardoso Peixoto, 36. Vítima de glaucoma, há dois anos ela é freqüentadora da escola. Encarar a dura realidade da perda da visão, hoje, já é algo que ela faz sem temer. ?Acabei descobrindo um mundo novo, somente agora. Perdi uma coisa, mas ganhei outra?, disse sorridente. A descoberta do esporte só aconteceu depois da perda da visão. Mírian conta que a atividade esportiva ajudou-a a levantar a auto-estima e a ?colocar os pés no chão?. Hoje, duas vezes por semana ela participa das atividades físicas. A ex-vendedora, agora com o primeiro grau, obtido por meio do supletivo, pretende se profissionalizar para ocupar espaço no mercado de trabalho. A confiança para andar sem orientação está sendo conquistada a cada dia. ?Eu vou conseguir?, diz com fé. ### Paraolimpíadas desperta para mudanças A procura pela prática esportiva de pessoas com deficiência ganhou impulso no Estado depois da ampla divulgação das Paraolimpíadas. A história de atletas que superaram dificuldades pessoais e conseguiram brilhar funciona como uma maneira direta de sedução para o envolvimento com as atividades. Foi assim com o goalball, esporte que também valeu medalha nos Jogos de Atenas, ano passado. Praticado em quadra, ele aproveita as dimensões da marcação do vôlei. Os limites onde a bola pode ser jogada são orientados por detalhes em alto-relevo. O objetivo da modalidade, que é praticada com três atletas em cada lado, é o gol. Os jogadores têm dois tempos de sete minutos, com intervalo de três, para conseguir golear o adversário. A bola é fabricada com a presença de um guizo (chocalho), que emite som ao ser rolada. No ano passado uma apresentação de goalball motivou ainda mais os praticantes. A próxima será no dia 26 deste mês, mas a equipe da escola Ciro Acioly não está treinando. Apoio Por conta de uma reforma no prédio, os alunos foram deslocados para uma outra unidade, a Escola Diegues Júnior, na Pajuçara. ?Como aqui não tem um espaço adequado, só estamos trabalhando o condicionamento físico?, lamentou o professor Walter Simões. Ele disse que o esporte pode ser praticado em qualquer ginásio poliesportivo. Como os alunos estão provisoriamente na Pajuçara, o ideal seria um ginásio nas proximidades. O detalhe é que como o deslocamento é uma das maiores dificuldades para os atletas, a maioria acaba ficando o dia inteiro, nos dias de treino, na escola. Na última sexta-feira o grupo de 12 alunos do professor Walter realizou mais uma etapa do trabalho físico. Os exercícios físicos foram realizados na praia. A Gazeta de Alagoas acompanhou os alunos. Os mais velhos ajudam os mais novos e de mãos dadas eles seguem devagar. A rotina se repete duas vezes por semana e é encarada como uma aventura. ?Quando venho para cá esqueço de tudo e fico envolvida com as atividades?, conta Salete Acelino da Silva, 41. Envolvimento O envolvimento com o esporte representa para ela uma maneira de driblar as dificuldades. Vítima de uma retinoplatia, vem perdendo gradativamente a visão. Não bastasse sua luta pessoal, sua filha de 16 anos nasceu com uma paralisia cerebral e também freqüenta a escola especial. A descoberta do esporte só aconteceu depois do surgimento do problema. Antes disso, ela vivia para cuidar das atividades domésticas. ?Quando a gente perde a visão, ou sabe que vai perder é uma tristeza grande. Mas, aqui em grupo, parece que as coisas ficam mais fáceis?, relata Salete, que também pensa em praticar natação. Alegria Se um dia os praticantes do goalball em Alagoas irão ser atletas olímpicos ninguém sabe. Porém, o que não se pode negar é a alegria dos alunos quando o assunto é o esporte. O mais entusiasmado é Valdemar Severo Alves, 34. Ele estuda há dois anos na escola. ?Quando perdi a visão o mundo acabou. Não posso negar que ficava para baixo. Mas, quando tive a chance de conhecer esse trabalho, o que não falta é diversão. O jogo é só uma forma de nos motivar?, disse Valdemar. Apaixonado por rádio, ele não esconde o desejo de também partir para novos desafios, talvez, na comunicação. MR ### Professores são entusiastas para todos O envolvimento dos alunos com o esporte não seria possível se eles não encontrassem orientação especializada. Os professores são verdadeiros entusiastas do potencial que cada um apresenta. A retribuição do esforço de cada um é recompensada com muito carinho e respeito. O professor Walter Simões não esconde o orgulho quando fala do trabalho que desenvolve. Tudo começou há quatro anos, quando foi incentivado por um outro professor. ?Estou aqui por indicação; comecei e não larguei mais. É um trabalho que vai além do esporte, porque nos transforma?, revelou Simões, enquanto era cercado pelos alunos. Ele acredita que com mais apoio alguns talentos poderão ser revelados no Estado. Tanto é assim que em 2006 o objetivo é organizar uma competição com mais estrutura afim de que se possa aferir índices técnicos. No dia 26, quando sua equipe irá fazer um jogo de exibição, no Ginásio do Sesi, ele espera atrair a atenção de outros segmentos do Estado. Já para os alunos a expectativa é voltar a jogar, mesmo que seja sem competição. Inclusão O trabalho com pessoas portadoras de necessidades especiais é uma das especialidades da Educação Física. A profissão, mais do que orientação, serve de referência, no propósito da inclusão. O professor Cláudio José Vilarins, do Departamento Estadual de Educação e Desporto Educacional, não hesita em afirmar os aspectos inclusivos do esporte. ?Somente através do esporte eles irão ampliar e desenvolver o convívio social. Para uma pessoa assim, o mais importante é desenvolver a auto-estima e ter prazer de viver. É se sentir útil?, diz Cláudio, que conhece de perto a realidade dos atletas. Mas o envolvimento dos portadores de necessidades especiais com a escola e o esporte ainda é limitado. Muitos ainda vivem na periferia sem informação e protegidos pelas famílias. A divulgação da escola de cegos ainda acontece de maneira informal. O mais comum é um aluno freqüentador conhecer outro e comentar sobre os avanços que teve. ?Comigo foi assim. Cheguei depois que uma pessoa me indicou?, confirmou Valdemar Severo Alves. |MR

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