Esportes
Consciente e com os p�s no ch�o
MARCOS RODRIGUES Repórter Onde há fumo, há fumaça. Onde há fumaça, há fogo. Nesse caso o Botafogo Futebol e Regatas do Rio de Janeiro, que foi homenageado na ex-capital do fumo do País, a cidade de Arapiraca, emprestando suas cores e estando presente no escudo da Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA). A equipe foi a que mais conquistou títulos nesta década, em Alagoas. De seis competições que participou, ganhou quatro. Antes disso, porém, viveu um jejum de títulos de 50 anos que só foi quebrado em 2000. Essa trajetória de sofrimento de sua torcida é uma outra semelhança com o ?primo rico?, do Rio. Quem confirma é o atual presidente do clube, o dentista Clarindo Lopes, 40. Palmeirense por adoção, em 2002 ele viu o time paulista apanhar em pleno Estádio Coaracy da Mata Fonseca, do clube que torce desde que nasceu. ?Fui todo de verde para o campo. Era uma realização. Quebrei a cara. Mas, já na segunda partida, em São Paulo, torci pelo ASA?, admite. Assim como o time carioca, o ASA também tem uma torcida fanática, que desde 1953, quando conquistou o primeiro título, reconhecido somente em 1998, lota as arquibancadas para vibrar com a equipe. A ligação com o time da estrela solitária data de 1952, quando a extinção do Ferroviário motivou o presidente Antonio Pereira Rocha a fundar uma nova equipe. Como era botafoguense, deixou que as listras, em preto e branco, figurassem no uniforme. Origem O Ferroviário só existiu por conta da determinação de trabalhadores da estrada de ferro que foi construída até a cidade. Com o seu término, o futebol na terra do fumo ficou comprometido. As tardes de domingo perderam a agitação. No final dos anos 40, em 1948, o Botafogo conquistou a Taça Guanabara. Nomes como o do lateral-direito Nílton Santos começavam a brilhar. A campanha impressionava seus admiradores arapiraquenses. As narrações chegavam ao interior de Alagoas pelas ondas do rádio. Com elas, as histórias como a do cachorro biriba, que virou mascote para dar sorte, também ganhavam o Brasil. Mas, o que mais orgulhava os fundadores do ASA era que o time nasceria a partir de uma referência nacional: o Botafogo. Mudança O atual presidente foi empossado em meio a uma crise de diretoria. Clarindo Lopes assumiu o ASA, com a missão de construir o Centro de Treinamento para a equipe e mudar sua imagem administrativa. Outro desafio é o de montar um time que possa repetir as conquistas do Campeonato Alagoano de 2000, 2001, 2003 e 2005. ?Sei que vai ser difícil. Não somos o CSA que tem o deputado federal João Lyra. Nem o CRB que tem o deputado Celso Luiz. Mas, temos grandes parceiros empresários, que juntos ajudam muito o ASA?, confia o presidente, que não tem pretensões políticas. Ele não critica as equipes que têm padrinhos políticos e chega a admitir que gostaria que o seu clube tivesse um. Mas até agora o presidente reconhece que a habilidade dos times montados até aqui conseguiram vencer a pressão financeira. Para que a meta de vencer os grandes torne-se realidade, a equipe será montada com a base da que defendeu o clube este ano. Ainda assim existirá espaço para seis ou oito contratações. Clarindo lembra que o clube já descobriu a fórmula. A primeira regra que ele cumpre à risca é o silêncio. Mesmo cobrado ele não revela nenhum novo reforço. ?Não dá para montar uma equipe cara e totalmente com jogadores de fora. Nossa política é a dos pés no chão?, alerta sem revelar o valor da folha do time para não inflacionar o mercado. O presidente do alvinegro garante que as despesas da equipe são condizentes com a realidade da região e de clubes pequenos. Clarindo não tem salário de executivo para gerir os problemas e projetos do ASA. ?Mas, o que assumimos pagamos. Nossa folha está toda em dia. Acho que isso ajuda o jogador a entrar em campo com a cabeça legal?, revela sem pestanejar, assumindo que os salários são baixos. Equipe Para a próxima temporada, o time será dirigido pelo técnico José Carlos Amaral, que deverá dispor de 27 atletas para tentar disputar o título. Esse número não lembra em nada os 49, que chegaram a figurar no elenco total do time. Desse total, 19 jogadores ficam sem aproveitamento nas partidas. Base Mas, assim como as grandes equipes do futebol alagoano, o ASA sofre com a falta das categorias de base. As vitórias do time em quatro campeonatos não se traduziram em recursos para os cofres do alvinegro. ?Para se ter uma idéia, o primeiro jogador que tentaremos ganhar algo com o passe dele é o Jota, que foi para o futebol baiano?, observou o dirigente. Ele confia que ao longo de sua gestão possa deixar as condições criadas para que o ASA também seja revelador de talentos. O objetivo é gerar caixa, além dos apoios da prefeitura e da bilheteria dos seus jogos. Hoje, apenas 300 ou 400 torcedores contribuem religiosamente com os custos do clube. Esse número costuma aumentar em períodos de boa campanha ou quando a torcida é convocada para ajudar. Nessas ocasiões a cidade veste as cores do time. O comércio reage bem e a camisa do clube se transforma numa espécie de roupa padrão. Projeto Para criar atletas com condições de serem negociados, o ASA vai ter que levar adiante o projeto de construção de seu Centro de Treinamento. O terreno já foi conseguido, mas ainda faltam os elementos para pedir ajuda a torcida. ?São nossos torcedores que irão nos ajudar a concretizar isso. Quem apoiar o projeto terá, inclusive, o nome exposto na mídia?, garante Clarindo. Indagado sobre se não interessaria ao clube a aquisição do estádio municipal, ele disse que os custos de manutenção inviabilizariam a administração do espaço. O campo foi construído para abrigar as partidas do Alvinegro. A idéia foi do então prefeito, Coracy da Mata Fonseca, e culminou com o processo de organização do time que anos mais tarde se tornaria a paixão do torcedor da cidade. Tanto que hoje é impossível não lembrar de Arapiraca sem associá-la ao ASA - o matuto campeão. Sócio torcedor Hoje o ASA já conta, inclusive, com a ONG ASA Gigante, que pretende criar o projeto sócio torcedor, afim de garantir uma renda fixa com o objetivo claro e definido: investir recursos nas categorias de base. Clarindo acredita que os problemas financeiros, oriundos de causas trabalhistas, que comprometem o patrimônio do clube, não serão impedimentos para as novas perspectivas. Em sua avaliação os resultados positivos com as últimas equipes montadas superam o ?lado negativo?. A própria palavra crise ele evita em seu vocabulário. Em breve as campanhas de ajuda ao clube serão lançadas. Como o torcedor do ASA é fanático pela equipe, o sonho irá superar os pesadelos do passado. ?Ter torcida fanática é bom, mas também há suas cobranças. Quando ganha é tudo bem, tem até o reconhecimento. Mas quando perde, entram até fatores da nossa vida pessoal?, confessou Clarindo. Futuro Mas a principal característica do torcedor alvinegro é vontade de ver o time vencer. Tanto que eles pressionaram para o clube ter uma equipe com condições de disputar a Alagipe, que reuniu equipes do Alagoas e de Sergipe. A trajetória vitoriosa do ASA, nesta década, é interpretada pelo presidente como uma ?onda? que precisa representar organização e perspectiva de futuro. Clarindo não acredita, por exemplo, que o clube possa chegar tão rapidamente à série B do Brasileiro, como acreditam alguns. Ele avalia que um salto como esse não pode ser dado sem planejamento, para evitar frustrações e/ou prejuízos. ?Agora só pensamos em montar uma equipe para disputar o título de 2006?, finalizou. ### QUEM É Nome: Clarindo Lopes Idade: 40 anos Cargo: presidente do ASA Profissão: dentista É torcedor: Alvinegro arapiraquense e do Pameiras paulista Meta no ASA: conquistar o título alagoano de 2006 e construir um centro de treinamento para o clube.