Esportes
Guus Hiddink, agora um semideus
Seul - Guus Hiddink, o holandês errante que já trabalhou como técnico em vários países e levou a Coréia do Sul às quartas-de-final da Copa de 2002, se transformou em objeto de veneração, de herói nacional em um semideus que serve de exemplo no país asiático em que trabalha. Ele garantiu cerveja de graça para o resto de sua vida, tem passagens aéreas internacionais em primeira classe também gratuitas pelos próximos quatro anos, será nome de rua, terá um busto erguido em praça pública, ganhou 400 mil dólares pela classificação e receberá oferta de renovação de contrato por mais quatro anos por valores bem superiores ao milhão de dólares anuais que recebe atualmente. Há algum país no qual um treinador estrangeiro recebe aplausos muito mais fortes do que os jogadores da seleção ao ser apresentados? A resposta é sim. Isso ocorre na Coréia do Sul, entregue de corpo e alma ao novo encantador de serpentes. A vitória sobre a Itália extenue a Hiddink um cheque em branco no qual ele pode escrever a cifra que quiser para renovar o seu contrato. O governo sul-coreano pensa até em mudar as leis se ele desejar adquirir de imediato a nacionalidade coreana. Mas nem sempre foi assim. Hiddink assumiu como técnico da seleção em janeiro de 2000 e teve de passar por maus momentos antes de converter-se na encarnação de um semideus solicitado por políticos e empresários. Há dois meses Hiddink não era na Coréia um nome popular. Os meios de comunicação passaram a chamá-lo de ?mister 5 a 0?, pelo fato de a sua seleção ter sido goleada pela França na Copa das Confederações. Os cronistas o acusaram de cometer erros na seleção de jogadores. A multinacional Samsung retirou-o de uma campanha publicitária depois do 5 a 0 porque ?ele transmitia más sensações?. Hiddink não desanimou e começou a empregar o método de ?mesão?. Ele verificou que durante as refeições os jogadores se utilizavam de três mesas separadas: a dos veteranos, a dos intermediários e a dos novatos e o grupo não trocava idéias entre si. Daí a sua opção por reunir todos em uma única mesa. ?Nós novatos nunca nos atrevíamos em falar com os veteranos, mas desde que o treinador nos pediu para que compartilhássemos a mesma mesa, todos nós passamos a nos conhecer um pouco melhor?, confessou o atacante Chun-soo Lee. O preparador físico, seu compatriota Raymund Verheijen, se ocupou de melhorar a velocidade e a constituição física dos jogadores até capacitá-los a manter um alto rendimento durante os 90 minutos. As críticas a Hiddink foram desaparecendo na mesma medida em que germinava o culto à sua personalidade. Os resultados deram razão ao treinador e validaram seu método. Na fase de preparação para a Copa de 2002 (a Coréia não participou de eliminatórias por ser anfitriã), ganhou sete jogos, empatou outros sete e perdeu outros tantos, mas os maiores êxitos se produziram ao aproximar-se o Mundial. O dia 4 de junho foi histórico para o futebol coreano. A seleção conseguiu sua primeira vitória em uma Copa: 2 a 0 sobre a Polônia em 15 jogos de Mundiais. Seis dias após os coreanos empataram com os Estados Unidos (1 a 1) e dias depois fecharam a série de jogos pela primeira fase eliminando Portugal (1 a 0). Mas o máximo acabou sendo a vitória sobre a Itália por 2 a 1 nas oitavas-de-final.