Coluna do Marlon Araújo
... A era do futebol engessado ...
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Quem não se lembra de um “campo-torrão” na infância? Ou do joelho ralado após uma queda no “racha”? E aquele dedão do pé machucado depois de chutar o chão duro ao invés da bola? Se essas perguntas causam estranhamento para quem nasceu nos tempos atuais, não é por acaso. Hoje, as crianças têm o primeiro contato com o futebol em escolinhas, nos confortáveis gramados sintéticos, sem nunca terem experimentado a realidade árida dos campos de terra. E, quando se observa com mais atenção, é possível perceber que, a falta dessas vivências está fazendo o futebol perder a capacidade de improviso e arte.
Os tempos modernos trouxeram a expansão imobiliária desenfreada. Não é de se espantar que os antigos campos de futebol se tornaram terrenos cobiçados para empreendimentos imobiliários. Em Jacarecica, onde vivi minhas primeiras experiências com a bola, o campo de terra já não existe mais.
E o que acontece quando esse pedaço de terra desaparece? A resposta é clara: o impacto é enorme. O talento genuíno, aquele que nasce da improvisação, da necessidade de se virar com pouco, começa a desaparecer.
O talento “formado” em escolinhas e campos sintéticos é mais previsível, automatizado. A habilidade apurada nas ruas, nos campos de terra batida, é substituída pela técnica pré-fabricada, quase engessada. Hoje, ao invés de dominar a bola e improvisar, o jovem jogador é treinado a dar o passe, seguir um roteiro de jogo e “não inventar moda”. O futebol tornou-se um produto e os jogadores, meros operários de um processo de formação que, ironicamente, visa à “melhora”, mas que acaba retirando a essência.
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O resultado não poderia ser outro: a geração de jogadores mais mecanizados, sem a naturalidade que antes se conquistava jogando descalço em campos de terra, com o improviso como regra e não exceção.
É urgente repensarmos a formação dos jogadores. Mostrar aos jovens a beleza do jogo livre, do drible e da malícia de um bom passe.