COLUNA DO MARLON
O futebol se cala, o medo comanda
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Recife está ensinando ao País que, no futebol, há uma lei que não passa pelo Código Penal. Uma justiça paralela onde quem tem ficha criminal se sente mais à vontade que o jogador no campo.
No início do ano, bairros viraram zona de guerra antes de um clássico. Espancamentos, bombas caseiras, comércio depredado.
Pouco tempo depois, o centro de treinamento do Sport foi invadido. Um jogador agredido, atletas intimidados, tudo filmado.
No meio da tensão, o técnico Daniel Paulista tentou apelar ao bom senso: “Vocês acham que isso resolve?”.
O invasor respondeu sem hesitar: “Resolve sim”.
E outro completou, como se fosse carteirada: “Aqui todo mundo tem antecedente criminal”.
Ali não era mais uma invasão. Era um desfile de currículo da violência. Um portfólio do crime, apresentado como credencial para fiscalizar treino.
E o pior: isso está virando rotina.
A barbárie virou ferramenta de cobrança. O medo virou tática. O silêncio institucional, cumplicidade.
Futebol não é bolha. É reflexo. E o que se vê em Recife é o retrato de uma sociedade que se acostumou com o intolerável.
Quando a covardia vira método, a paixão morre. Aos poucos, mas morre.
O jogo continua, mas o respeito já saiu de campo faz tempo.