FALA, TREINADOR!
Professor Roberval Davino
Técnico mais velho em atividade no Brasil, alagoano de 71 anos reflete sobre paixão pelo futebol e formação de jogadores
Há quem diga que o futebol não é mais o mesmo, que funciona quase como uma linha de produção que passa por revelar talentos para exportar para a Europa. Pode ser que isso seja verdade, mas se há alguém capaz de falar com propriedade sobre o futebol de ontem e o de hoje, essa pessoa é Roberval Davino. Aos 71 anos, o alagoano é o técnico mais velho em atividade no Brasil. Ele atravessou essas mudanças de dentro do campo e do banco de reservas. Viu o futebol deixar de ser um esporte quase artesanal para se tornar um negócio profissionalizado, recheado de números, estatísticas e análises em tempo real.
Da beira do gramado, ele guarda lembranças de uma época em que a intuição pesava mais que a tecnologia e a relação com os atletas se construía olho no olho. Ao mesmo tempo, acompanha com curiosidade e analisa os rumos do futebol atual, refletindo sobre ganhos, perdas e o que ainda pode ser resgatado. Sua visão ajuda a entender não só o que ficou no passado, mas também o que ainda pode ser o futuro do esporte mais popular do Brasil.
Atualmente no Comercial de Ribeirão Preto, que disputa a Série A2 do Paulista, — em sua terceira passagem — Davino viu de perto mais uma novidade no esporte. O empate de 1 a 1 entre Comercial e XV de Piracicaba, pela semifinal da Copa Paulista, foi marcado pela estreia da tecnologia de desafio de vídeo, implantada de forma experimental na competição. Foi nesse cenário, cercado por novidades e pela discussão sobre até onde a modernidade deve ir, que o treinador refletiu:
“Essas mudanças fazem parte do esporte, é normal haver a modernização e claro que eu sou a favor da tecnologia no sentido de deixar as coisas mais justas. É algo que já existe no basquete e no vôlei e funciona bem para esses formatos, são esportes com mais pausas, mas acho que por ser experimental foi algo que prejudicou o ritmo do jogo. Ao fim da análise que, além de prolongar a partida, acabou por “esfriar” o jogo. Acho que assim como acontece com o VAR, precisa de um aperfeiçoamento para que não se perca o ritmo”.
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Com a mesma naturalidade com que analisa os efeitos da tecnologia, o alagoano também observa como o futebol atual trata o trabalho dos treinadores. Enquanto nomes como Abel Ferreira e Filipe Luís ganham espaço, ele reflete sobre os técnicos mais experientes.
“Vejo muito potencial nessa nova safra, gosto do Filipe (Luís), do (Fernando) Seabra e do Rogério Ceni, que ainda gostaria de ver na Seleção um dia. É importante haver essa troca de experiências entre novos e veteranos, mas, acima de tudo, dar autonomia ao treinador. O Ancelotti dispensa apresentações e fico feliz que esteja tendo a liberdade necessária para gerir a Seleção. Existe uma pressão grande por conta da torcida e dos próprios dirigentes e não são em todos os trabalhos que essa autonomia é oferecida”, analisa.
Com a mesma clareza com que avalia Abel, Filipe Luís e Ancelotti, Roberval Davino volta os olhos para quem toma decisões fora das quatro linhas: os gestores. Ele avalia que há um abismo entre aqueles que enxergam o clube como negócio passageiro e os que plantam para colher no futuro. Um exemplo que ele cita com admiração é o Mirassol, clube que treinou em 1998, 2008, 2009 e 2014:
“Vejo que, hoje em dia, muitos dirigentes esquecem que é preciso gostar do clube. O futebol se tornou muito comercial, mas a paixão é fundamental para tomar boas decisões. Tenho muito carinho pelo Mirassol, que tive a oportunidade de treinar em algumas ocasiões, e eles merecem o momento atual, com chance de chegar à Libertadores logo na estreia na Série A. Um exemplo é a gestão do Edson (Ermenegildo): na venda do Luiz Araújo ao Lille, o valor recebido foi investido no CT, que hoje é um dos melhores do Brasil. É uma prova de que a paixão e o cuidado pelo clube fazem a diferença”, opina.
Davino também reflete sobre a forma como os atletas são formados e sobre a extinção de certas posições que, no passado, foram fundamentais para o estilo brasileiro de jogar futebol.
“É algo que difere bastante de antigamente. A influência da Europa mudou a forma como formamos os nossos jogadores. Um menino da base que rapidamente se destaca por ser bom driblador e passador passa imediatamente para a beirada. O “camisa 10 clássico” tá cada vez mais escasso por exemplo. É uma posição que raramente é trabalhada na Europa, os meias hoje são mais intensos e físicos. Antigamente, formávamos jogadores para que se destacassem e jogassem aqui e hoje o objetivo principal é vendê-los muito novos para a Europa”.
O técnico frisa que existe uma pressão, segundo ele, natural, porque o torcedor é muito passional e quer ver o time desempenhando. “No Comercial, conseguimos resultados importantes, como vencer o rival Botafogo-SP duas vezes no ano, algo que não acontecia há 11 anos. Mas quando as oscilações aparecem, a cobrança surge e isso não acontece só no interior, mas também em grandes clubes como Flamengo e Palmeiras”.
* Sob supervisão da Editoria