COLUNA DO MARLON
O jogo que não passa na TV
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O futebol brasileiro vive uma crise silenciosa, mais perigosa que qualquer derrota em campo. Tomei conhecimento de relatos que expõem um problema grave que muita gente prefere ignorar: jogadores viciados em apostas a ponto de transformarem o próprio time em oportunidade financeira.
A mecânica é simples e perversa. O clube paga prêmio pela vitória, o atleta, tomado pelo vício, aposta na derrota. Se vence, recebe do clube. Se perde, ganha da casa de apostas. É o lucro garantido. Esse é o ponto que precisa incomodar dirigentes, torcedores e autoridades de saúde e segurança: quando o vício fala mais alto que o esporte, a pergunta já não é sobre quem paga mais e, sim, sobre quanto vale a deterioração moral e emocional de quem está em campo.
A Operação Penalidade Máxima já mostrou como isso deixou de ser “suspeita” e virou sistema. Jogadores suspensos, intermediários detidos, investigações abertas. Um dos réus confessou ter lucrado algo em torno de R$ 300 milhões manipulando resultados. Não é impulso de jovem. É indústria bilionária.
Mas existe uma parte do problema que não vira manchete. Atletas jovens pressionados por agiotas, endividados, jogando sob ameaça. A aposta deixa de ser vício e vira sobrevivência. Há quem entre em campo carregando mais que a camisa. Carrega medo, dívida e silêncio. As operações policiais deram um recado do tipo “se liga malandro”, mas falta continuidade. A engrenagem não para porque meia dúzia caiu. Ela só troca de peça. E, enquanto isso, o torcedor acha que o maior erro do jogo foi um cruzamento torto.
Porque por mais que a gente tente acreditar na pureza da bola, existe um outro jogo rolando em paralelo, um jogo sem torcida, sem bandeirinha, sem VAR. É um campeonato onde cartão, pênalti e derrota têm preço, onde o placar não aparece na tela do estádio, mas no aplicativo. Nesse jogo ninguém vibra com gol bonito, vibra com depósito. E enquanto esse campeonato subterrâneo seguir valendo mais do que o suor em campo, o futebol vai continuar lindo, mas não dá mais para fingir que está limpo.
