COLUNA DO MARLON
Na arquibancada, o País se enxerga
....
No futebol brasileiro, a bola nem sempre é a protagonista. Em muitos momentos, o que domina a cena é o impulso de julgar.
Basta um lance polêmico, uma falha ou uma provocação para que a arquibancada se transforme em tribunal — onde a sentença costuma vir antes do replay, a indignação antecede a reflexão e a condenação dispensa contexto. Todos pedem justiça, mas, na maioria das vezes, trata-se de uma justiça que veste a camisa do próprio lado. Quando o erro favorece, ele é relativizado; quando prejudica, transforma-se em escândalo. Nesse aspecto, o futebol não cria nada — apenas revela.
Revela o torcedor, o dirigente, o comentarista e o cidadão. Expõe o quanto se perdeu a medida entre rivalidade e desumanização. A provocação sempre fez parte do jogo: a resenha inteligente, a ironia bem colocada, o humor que termina em riso. Esse é um patrimônio legítimo da arquibancada. O problema surge quando o riso dá lugar ao prazer de humilhar, quando vencer já não basta e aparece a necessidade de esmagar, expor e reduzir o outro a meme, alvo ou caricatura.
Nesse ponto, o futebol reflete um comportamento recorrente: aquilo que incomoda em si mesmo encontra no outro um alvo conveniente. Isso facilita o julgamento apressado, alimenta a hostilidade e abre espaço para a desumanização.
As redes sociais ampliaram esse cenário, acelerando julgamentos, dando visibilidade ao exagero e funcionando como megafone da crueldade. Já não se trata de compreender o lance, mas de vencer a discussão — lacrar, recortar, distorcer e acumular a aprovação do próprio grupo. O jogo dura noventa minutos; o tribunal parece não ter fim.
Por isso, o futebol incomoda tanto: porque traz à tona aspetcos como vaidade, pressa, intolerância e moralismo de ocasião. No estádio, no sofá ou na tela do celular, cada reação revela menos sobre o lance e mais sobre quem reage.