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COLUNA DO MARLON

A lição de Eliseu

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Eliseu não virou casaca
Eliseu não virou casaca | Foto: — Divulgação

A noite de quarta-feira tinha tudo para ser apenas mais um jogo de público baixo no Rei Pelé. CRB x Sousa, fase ruim, desconfiança, arquibancada fria e aquela sensação de que o torcedor resolveu esperar o time reagir para depois decidir se voltava.

Mas o futebol, quando quer ensinar, não pede licença.

Durante a jornada, o repórter Iverson Fernandes, do Timaço na Gazeta, trouxe um detalhe que parecia pequeno, mas virou o maior fato da noite. Em média, 15 a 20 crianças são escolhidas para entrar em campo com os jogadores. Naquele jogo, só uma foi inscrita.

Eliseu, 9 anos, estava ali. Sozinho no gramado.

O diretor Lucas Ramires percebeu a cena, mandou buscar uma camisa, presenteou o garoto e ainda garantiu prioridade para ele nos próximos jogos. Um gesto bonito, humano, daqueles que mostram que o futebol também se faz no detalhe fora das quatro linhas.

Mas o melhor ainda viria.

Na entrevista, com a timidez própria de uma criança e a sinceridade de quem não ensaiou frase para agradar a ninguém, Eliseu resumiu tudo: “Só é o CRB perder que ninguém vem. Eu sou CRB e não viro casaca não”.

Pronto. O menino escreveu a crônica da noite.

Eliseu não falou de esquema tático, não cobrou reforço, não discutiu linha de cinco, intensidade, transição ou bola parada. Ele tocou no ponto mais simples e mais difícil do futebol: pertencimento.

O torcedor tem direito de cobrar. Tem direito de se irritar, protestar, vaiar e exigir resposta. O futebol profissional vive de resultado, e ninguém está obrigado a fingir alegria quando o time não entrega. Mas existe uma distância entre cobrança e abandono. Eliseu, aos 9 anos, pareceu entender isso melhor do que muito adulto de arquibancada, microfone e rede social.

A frase dele carrega uma verdade incômoda: é fácil ser torcedor na volta olímpica, na foto bonita, no jogo cheio, no gol que viraliza. Difícil é permanecer quando o time perde, quando a fase pesa e quando a arquibancada fica grande demais para pouca gente.

Naquela noite, o CRB venceu o Sousa. Mas, antes do placar, já havia uma vitória simbólica no gramado. Um menino sozinho, com uma camisa no corpo e uma convicção no peito, lembrou que o esporte também ensina sobre fidelidade, coragem e presença.

Eliseu não virou casaca. Talvez tenha sido ele quem melhor vestiu a camisa.

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