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COLUNA DO MARLON

O camisa 10 acabou… ou foi silenciado?

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No Brasil talvez nenhum jogador represente tanto essa discussão quanto Neymar
No Brasil talvez nenhum jogador represente tanto essa discussão quanto Neymar | Foto: Reprodução/Instagram

O futebol passou anos tentando convencer o torcedor de que o camisa 10 clássico morreu. Que o jogo moderno, intenso, físico e cada vez mais coletivo, não teria mais espaço para o jogador que pensa antes de a bola chegar.

O articulador. O homem da pausa. O jogador capaz de enxergar um passe onde ninguém mais enxergava nada.

Mas talvez a pergunta correta seja outra: o camisa 10 acabou ou os treinadores passaram a ter medo de protegê-lo?

O futebol evoluiu. Pressão alta, compactação, transições rápidas, ocupação racional dos espaços. Tudo isso elevou o nível competitivo. O problema começa quando o coletivo deixa de servir ao talento e passa a sufocá-lo.

Hoje, muitos sistemas parecem montados apenas para evitar o erro. E, junto com o erro, desaparece também a ousadia. O jogador criativo virou quase um risco tático. Precisa correr como volante, recompor como lateral e pressionar como atacante. No fim, sobra pouco espaço para fazer justamente aquilo que o tornou diferente: decidir jogos.

E aí nasce uma provocação inevitável. Será que o futebol moderno eliminou o camisa 10… ou apenas perdeu coragem para conviver com ele?

Porque os grandes times continuam dependendo dos seus protagonistas. Bellingham no Real Madrid, Musiala no Bayern, Pedri no Barcelona, Lucho Acosta no Fluminense, Arrascaeta no Flamengo. O nome muda. A essência continua a mesma: jogadores capazes de romper padrões em um jogo cada vez mais mecanizado.

E no Brasil talvez nenhum jogador represente tanto essa discussão quanto Neymar.

Amado por uns, criticado por outros, Neymar talvez seja o último brasileiro capaz de carregar no corpo e no jogo o peso simbólico do antigo camisa 10: o jogador que improvisa, desacata a lógica, prende a bola, desequilibra e obriga o sistema a jogar ao seu redor.

O curioso é que o futebol moderno vive tentando controlar justamente aquilo que durante décadas transformou o futebol brasileiro em referência mundial: a criatividade.

Talvez o talento nunca tenha sido o problema. O problema sempre foi o medo de perder. Talvez por isso o futebol produza hoje tantos atletas organizados e tão poucos inesquecíveis.

Telê Santana dizia que futebol era arte com disciplina. Nunca defendeu desorganização. Mas também jamais aceitaria um jogo onde a disciplina virasse prisão criativa.

O futebol continua precisando de protagonistas. De jogadores que improvisam, desequilibram e transformam um lance comum em memória.

Porque, no fim, nenhuma estratégia resiste sem alguém capaz de enxergar o jogo um segundo antes dos outros.

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