COLUNA DO MARLON
Quando o debate perde para a torcida
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Há um hábito que vem empobrecendo a discussão sobre futebol. Em vez de ampliar o debate, as redes sociais transformam qualquer bom momento em uma disputa de versões. O futebol alagoano oferece um exemplo claro desse fenômeno.
Os números são incontestáveis. Mikael, do CRB, lidera a artilharia do futebol brasileiro. Alex Bruno, do ASA, aparece logo atrás. Na Série D, Rian Santana é o principal goleador da competição pelo CSA. ASA e CSA chegam às decisões pelo acesso à Série C, enquanto o CRB reencontra a regularidade, vence como mandante e visitante e recoloca o G-6 da Série B no horizonte.
Esse deveria ser o centro da discussão. Bastaram, porém, algumas horas para que a análise cedesse espaço à velha necessidade de cada torcida defender a própria versão dos fatos. A pergunta deixou de ser como esses atacantes alcançaram esse rendimento. O assunto passou a ser quem deveria ter seus gols reconhecidos e quem merecia ser diminuído.
Foi assim que surgiram argumentos curiosos. Houve quem tentasse retirar da conta os gols marcados na Copa Alagoas, como se uma competição oficial pudesse perder valor apenas porque o resultado da comparação não agradasse. O detalhe é que muitos dos que hoje questionam esses números foram os mesmos que narraram, transmitiram e repercutiram essas partidas. A estatística não muda conforme a conveniência.
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Depois reapareceu outro velho conhecido do futebol alagoano: a falsa oposição entre capital e interior. Um discurso que insiste em sobreviver, embora os fatos caminhem na direção contrária.
O ASA não construiu a reputação de Gigante por acaso. É um patrimônio esportivo de Alagoas, sustentado por tradição, torcida e, principalmente, por um trabalho que hoje recoloca o clube entre os protagonistas. Reconhecer esse momento não diminui o CRB. Da mesma forma, destacar Mikael não reduz a importância de Alex Bruno ou de Rian Santana.
Aliás, o futebol costuma rir das certezas absolutas. Nos bastidores do mercado, o nome de Alex Bruno já foi associado ao CRB como uma das possibilidades para uma eventual reposição caso Mikael seja negociado. Quem hoje tenta desqualificar o atacante do ASA pode, amanhã, ser um dos primeiros a comemorar um gol dele.
A história recente também recomenda cautela. Mikael foi recebido por muitos com desconfiança. Houve quem afirmasse que o CRB não poderia ser SPA de jogador. Ari Barros, um dos responsáveis por apostar no atacante, deixou o clube sob forte pressão. Pouco tempo depois, Mikael respondeu em campo, transformou a aposta em desempenho e assumiu a liderança da artilharia nacional.
O futebol tem pouca paciência com verdades definitivas. O que hoje parece uma certeza inabalável costuma ser desmentido pelo próximo campeonato, pela próxima janela de transferências ou pelo próximo gol. A memória das redes sociais, porém, continua seletiva: guarda o que confirma convicções e esquece, com a mesma rapidez, tudo aquilo que as desmente.
Enquanto isso, Alagoas vive um momento raro. Três dos principais artilheiros do país vestem as camisas de clubes do Estado. ASA, CSA e CRB chegam à reta decisiva da temporada como protagonistas em suas competições. Em vez de celebrar esse cenário, parte da discussão prefere desperdiçar energia tentando diminuir o mérito alheio.
O futebol sempre será movido pela paixão. Mas evolui quando a paixão convive com os fatos, e não quando tenta substituí-los. Afinal, rivalidade faz parte do futebol. Mas os fatos precisam continuar sendo maiores do que as paixões.