COLUNA DO MARLON
Quando o placar apaga o jogo
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O futebol encontrou uma maneira cômoda de dispensar a análise: olhar o placar. Venceu, foi competente. Perdeu, ninguém presta. Empatou, começou a crise. É simples, rápido e quase sempre raso.
Foi contra essa lógica que Abel Ferreira reagiu depois da classificação do Palmeiras diante do Cerro Porteño. Após o empate em casa, ouviu que o time havia perdido qualidade, repertório e capacidade competitiva. Venceu no Paraguai e resumiu o ambiente: o futebol está doente.
A doença tem nome: resultadismo. Valorizar a vitória é natural. Resultadismo é outra coisa. É permitir que o resultado reescreva tudo o que aconteceu antes dele. Uma equipe pode ser dominada, passar o jogo inteiro sendo bombardeada, encontrar uma bola e vencer. A conclusão vem pronta: “soube sofrer”. Se a bola não entrar, o mesmo desempenho vira covardia e incompetência.
O placar virou uma borracha. Apaga o contexto, o planejamento e até aquilo que os olhos acabaram de enxergar
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A imprensa tem responsabilidade central nisso. Quando a análise começa no resultado e termina nele, deixa de explicar o jogo para apenas escolher heróis e culpados. Curiosamente, o mesmo público que aceita qualquer atuação por três pontos aparece na Copa do Mundo exigindo uma Seleção Brasileira dominante, competitiva e capaz de jogar bonito. Coerência também anda precisando de departamento médico.
Em Alagoas, o ASA recebeu dois golpes duros: a eliminação em casa em 2025 e a perda do título estadual para o CRB, novamente diante de sua torcida. Poderia desmontar tudo. Preferiu manter a direção do trabalho, corrigir o elenco, contratar um goleiro experiente e buscar peças pontuais. O acesso não nasceu nos pênaltis. Começou quando o clube decidiu corrigir sem destruir.
No CSA, bastou perder a invencibilidade no Rei Pelé para surgirem as condenações. Mas o time continua a dois jogos do acesso. Se conseguir, muitos voltarão para a fila dos elogios. Se não conseguir, pedirão outra reconstrução imediata.
Continuidade não significa insistir no erro. Significa ter capacidade para separar aquilo que precisa ser corrigido daquilo que merece ser preservado.
Abel tem razão: o futebol está doente. Não pela vontade de vencer, mas pela incapacidade de compreender o caminho. Quem só consegue enxergar o jogo depois do placar, provavelmente não enxergou o jogo.