COLUNA DO MARLON
O campo é neutro. A conta, não
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A CBF decidiu que a final da Copa do Brasil de 2026 será disputada em jogo único, em Brasília. A mudança chega embalada pelo discurso da modernização: valorização da competição, novas receitas, exploração de direitos comerciais e um espetáculo maior para a televisão. Não há problema em o futebol evoluir e encontrar novas formas de valorizar seu produto. A questão é saber quem pagará a conta dessa transformação.
A contradição ganha ainda mais peso quando se trata da Copa do Brasil, tradicionalmente celebrada como a competição mais democrática do país. É um torneio no qual clubes de diferentes regiões, tamanhos e realidades entram em campo com o direito de sonhar com o título. Na hora da grande festa, porém, essa democracia corre o risco de terminar no portão do estádio.
Brasília está no centro do mapa brasileiro, mas isso não significa que seja igualmente acessível para todas as torcidas. Dependendo dos finalistas, haverá diferenças significativas de distância, oferta de voos, opções de transporte e, principalmente, custos de deslocamento e hospedagem.
E os programas de sócio-torcedor, construídos durante anos sobre fidelidade e presença, como ficam? Quem paga mensalmente, acompanha a campanha e ajuda a sustentar o clube terá qual prioridade quando a partida mais importante da temporada for disputada longe de sua cidade?
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A final em jogo único pode, sim, ser comercialmente poderosa sem transformar o pertencimento em privilégio. Para isso, porém, a CBF precisará estabelecer regras claras para os sócios, garantir ingressos a preços acessíveis e criar alternativas de transporte que reduzam a desigualdade entre as torcidas.
Modernizar é legítimo. Transformar a modernização em elitização, não.
Se a Copa do Brasil pretende preservar a condição de competição mais democrática do país, sua maior festa também precisa refletir essa identidade. É possível conciliar interesse comercial, espetáculo e geração de receitas com o acesso de quem acompanhou o clube durante toda a caminhada até a decisão.
Porque o campo pode até ser neutro. A conta, no Brasil, quase nunca é.