FINANÇAS
Fim das bets causa impacto direto nos clubes alagoanos
Enquanto dirigentes cobram estudo do governo, especialistas pedem ação conjunta
No fim de setembro, o Governo Federal publicou a Medida Provisória nº 1.394/2026. O texto ficou conhecido popularmente como a MP das Bets e proibiu “a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de apostas de quota fixa no território nacional”. A repercussão do fim das apostas eletrônicas no país foi imediata. Ao mesmo tempo, apoiadores e críticos da medida levantaram questões pertinentes ao debate público.
Enquanto alguns concordaram com a medida para conter o endividamento e os problemas financeiros causados pelo vício, outros defenderam uma decisão mais equilibrada, principalmente no que diz respeito aos recursos aportados por casas de apostas em clubes e federações de todo o país, que superam R$ 1 bilhão por ano.
A Gazeta de Alagoas procurou ouvir dirigentes de clubes e estudiosos do Estado para saber o que pensam sobre o assunto. Os entrevistados foram unânimes em apontar a necessidade de buscar equilíbrio e realizar uma análise mais aprofundada do caso. Eles também defenderam que o Governo Federal intervenha em todas as frentes.
A diretoria do CSA foi procurada, mas não respondeu aos questionamentos. A Federação Alagoana de Futebol (FAF) informou que não se manifestaria sobre o tema.
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Questão complexa
O presidente do ASA, Rogério Siqueira, afirmou que o tema é muito sensível e que a discussão deve ser conduzida com cautela para contemplar todos os envolvidos.
“O governo teve a oportunidade de controlar tudo o que acontece e ainda arrecadar os impostos devidos sobre a exploração do jogo. O vício é uma causa muito complicada, uma questão social que precisa de acompanhamento médico e psicológico, porque o vício está em qualquer coisa”, disse.
“Temos o problema social, mas existem pessoas trabalhando, muitos envolvidos no processo. Não falo só do futebol. O futebol é uma das situações porque é um patrocínio. O problema é mais abrangente e não adianta tapar o sol com a peneira”, explicou Rogério.
"Atestado de óbito"
Em fevereiro, o CRB anunciou um contrato de patrocínio máster com uma casa de apostas, considerado o maior acordo privado da história do clube.
Ao comentar a situação, o presidente do Galo, Mário Marroquim, afirmou que o impacto é imediato no planejamento de todas as equipes, uma vez que os aportes das casas de apostas são um dos pilares do orçamento financeiro dos clubes e da capacidade de ampliar os investimentos. O dirigente defendeu a realização de um estudo detalhado sobre a situação.
“Todas as competições são financiadas com patrocínios provenientes das bets. É necessário normatizar, fazer um estudo e definir de que forma a gente pode lidar com a situação. O impacto não é só no patrocínio na camisa, é o que a gente vai receber das cotas”, disse.
Marroquim defendeu a realização de um estudo detalhado para evitar a clandestinidade e avaliar os danos causados às famílias brasileiras pelo endividamento. Ao mesmo tempo, segundo ele, é necessário oferecer alternativas às instituições esportivas para que possam arrecadar recursos sem comprometer os orçamentos dos próximos anos.
“Eu não sou contra a normatização das bets. Tem muitas famílias perdendo dinheiro, muitos jovens viciados, isso é péssimo. Defendo que a gente faça de forma equilibrada, calma, que revogue a medida provisória para encontrar alternativas. O que está posto hoje é um atestado de óbito para o futebol brasileiro”, afirmou.
Mudança geral
O professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Anderson Santos, avalia que, diante da dimensão do problema, é necessário considerar os impactos para o governo, os clubes e a sociedade. Ele considera a medida um acerto para a população, mas destaca as mudanças no planejamento dos clubes e ações do governo.
“As bets pagaram valores que nenhum setor econômico se dispunha. Porém, isso aumentou os custos porque todo mundo sabia que tinha receita extra. Foi mais dinheiro para gastar e errar. A proibição é uma opção válida para dirimir um problema que se tornou grave em diferentes aspectos. Ao mesmo tempo, deixa uma demanda para a União indicar alguma alternativa em curto prazo aos clubes, algo que não aconteceu porque a reunião que poderia iniciar um diálogo foi cancelada”, explicou.