COLUNA DO MARLON
A solidariedade ficou no banco de reservas
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No futebol, a rivalidade faz parte do espetáculo. Um clássico divide a cidade, provoca discussões e rende uma semana de resenha. Um comemora, o outro reclama. Mas ambos podem dividir o mesmo sofá, a mesma mesa e a mesma amizade.
Como comentarista, conheço a força dessa rivalidade. Sei que uma camisa desperta paixões, mas nenhuma deveria ser mais importante do que o respeito por quem veste outra.
O problema começa quando levamos para a vida uma intolerância que nem o futebol deveria aceitar.
Tenho ouvido relatos que entristecem: casamentos abalados, amizades antigas desfeitas e irmãos que já não se falam. Pessoas que compartilharam tantos momentos passaram a se tratar como inimigas por causa do candidato em quem cada uma votou.
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Quem dividiu alegrias, dificuldades e experiências ao longo da vida passou a ser reduzido a um voto. Mais grave ainda, há quem tenha deixado de participar de ações de caridade ou de prestar ajuda a alguém por ressentimento eleitoral.
Desde quando é preciso torcer pelo mesmo time para estender a mão?
No futebol, podemos discordar da escalação, reclamar do árbitro e provocar o adversário. Faz parte do jogo. Mas, quando a rivalidade se transforma em hostilidade, todos perdem. Na política, não deveria ser diferente.
Defender convicções não exige romper amizades. Discordar não dá o direito de humilhar. E a solidariedade não pode depender de afinidade eleitoral. Quando isso acontece, cabe perguntar se ela foi, de fato, motivada por um sentimento genuíno de humanidade.
Também precisamos olhar para nós mesmos. É fácil apontar a intolerância alheia. Difícil é reconhecer os próprios excessos, rever o tom de voz e admitir que certas palavras foram ditas apenas para ferir.
Encerrada a eleição, talvez seja hora de tirar o orgulho de campo e colocar o respeito para jogar. É hora de procurar quem ficou pelo caminho, ouvir mais e reconhecer quando ultrapassamos os limites.
Seu candidato ganhou ou perdeu. Mas como ficaram as pessoas ao seu redor?
No futebol, sempre haverá outro clássico, outra rodada e uma nova oportunidade de comemorar. Na vida, porém, nem sempre haverá uma segunda chance para recuperar uma amizade, reconstruir uma relação ou voltar a ocupar a cadeira que ficou vazia no almoço de domingo.
Que a rivalidade continue no estádio e nas rodas de resenha. Que a solidariedade nunca mais fique no banco de reservas.
Porque nenhuma vitória eleitoral ou futebolística compensa a derrota da nossa humanidade.