Internacional
Bush ganha guerra, mas perde politicamente
Londres ? As tempestades de areia, milicianos iraquianos e erros estratégicos à parte, poucos especialistas em assuntos militares acreditam que os Estados Unidos possam perder a guerra, mesmo que de um modo bem mais difícil do que imaginavam os falcões do Pentágono. Porém, analistas de política internacional garantem que, em outro front, a derrota americana é absoluta: a batalha pela opinião pública internacional foi irremediavelmente perdida. Milhões de pessoas têm saído às ruas e o caráter pacifista das manifestações cada vez mais dão lugar às maiores passeatas antiamericanas da História, com a bandeira americana alimentando fogueiras em locais tão distantes quanto Brasil, França, Paquistão, África do Sul, Jordânia, China e Austrália. O fato de a onda de antiamericanismo estar acontecendo apenas um ano e meio depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 só agrava o abismo entre o que pensa a Casa Branca e o resto do planeta, já que a onda de solidariedade pró-EUA que varreu o mundo se transformou em revolta em poucos meses. ?O governo americano perdeu a guerra contra o Iraque na importante frente da opinião pública mundial antes mesmo de o primeiro tiro ser disparado?, afirma ao Globo Paul Findley, que durante 22 anos foi congressista e integrante da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA. Fora dos Estados Unidos, o público sabe muito bem que uma justificativa para esta guerra jamais foi apresentada. O país teria desperdiçado uma excelente oportunidade de angariar apoios até mesmo de países que não eram tradicionais aliados de Washington. ?Nos dias que se seguiram ao 11 de Setembro, grande parte do mundo se solidarizou com os EUA, da mesma forma que apoiou a liderança do país na guerra contra o terrorismo. E grande parte do mundo compartilhava a visão de que o Iraque representava uma ameaça?, diz Bruce Jentleson, diretor do Instituto de Politicas Públicas Terry Sanford da Universidade Duke, nos EUA. ?Mas pelo fato de ter insistido no unilateralismo, o governo Bush desistiu do apoio e deste sentimento de solidariedade. Jentleson lembra que o unilateralismo do governo Bush não surgiu apenas depois do 11 de Setembro, mas envolve decisões tão diferentes entre si como a retirada do país do Protocolo de Kioto ? sobre emissão de gases poluentes ?, o abandono do Tratado de Mísseis Antibalísticos, aumento de taxas de exportação de aço e os subsídios para a agricultura. Teme-se também que a nova onda de antiamericanismo provocada pela Casa Branca acabe prejudicando a luta contra o terrorismo. Segundo João Pontes Nogueira, professor de relações internacionais da PUC-RJ, a estrutura para se enfrentar o terror foi prejudicada, devido às discordâncias com Rússia, França e países árabes, como pode representar um estímulo para o aumento dos grupos radicais. Para Nogueira, os EUA erraram nos campos diplomático e político.