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Uma na��o apavorada em busca de ref�gio

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Nova Iorque ? Os soldados são grandes e as sirenes que anunciam os bombardeios são mais altas do que as da ambulância de brinquedo. Vem então o esconde-esconde de verdade. É hora de acompanhar os pais apavorados em busca de refúgio. Roberto Benigni ? diretor do premiado A Vida é Bela, em que o pai faz, aos olhos do filho, o campo de concentração da Segunda Guerra parecer uma brincadeira ? não conseguiria tornar lúdico este cenário. E o mais grave: o sofrimento não decorre apenas da guerra, ele faz parte do dia-a-dia da maioria das crianças iraquianas. Em 11 dias de combates, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) denunciava que centenas de milhares de crianças apresentam perturbações mentais, alta incidência de diarréia, grave desnutrição e, claro, ferimentos. Antes mesmo do conflito, a situação já era crítica. ?O Iraque tinha a maior taxa de mortalidade de crianças com até 5 anos de idade?, revela Alfred Ironside, porta-voz do Unicef, em entrevista ao Popular, por telefone, de Nova Iorque. O jornalista explica que o caos humanitário foi deflagrado pelas guerras entre Irã e Iraque e do Golfo. ?A situação se deteriorou com as sanções impostas pela ONU, após 1991. Somam-se a isso as desastrosas decisões econômicas do governo iraquiano sobre o uso de seus recursos naturais?, afirma. Todos esses fatores contribuíram com a morte de 500 mil crianças nos últimos 12 anos. Na semana passada, os EUA denunciaram que o Iraque tem forçado meninos a lutar, sob pena de serem executados. Alfred Ironside admite que o Unicef ainda não foi capaz de confirmar essa denúncia ? os americanos não apresentaram provas. No entanto, o porta-voz da entidade lembra que, no passado, o Iraque recrutou crianças de menos de 18 anos para o seu Exército, uma clara violação das leis da Convenção de Genebra. ?Isso aconteceu durante a guerra entre Irã e Iraque, mas não creio que as tropas de Saddam Hussein ainda tenham crianças.? Uma das maiores preocupações de Ironside diz respeito às notícias ? ainda não confirmadas por fontes independentes ? sobre mortes de crianças durante o atual confronto. ?Estamos tentando obter mais dados do regime de Saddam.? Enquanto números oficiais de baixas entre crianças não são divulgados, o Unicef apressa-se em conter o agravamento do quadro social. Na sexta-feira da semana passada, pediu US$ 166 milhões (cerca de R$ 561 milhões) à ONU para aplicar em alimentos e medicamentos destinados às crianças do Iraque. Desnutrição Atualmente, 200 profissionais do Unicef estão no território iraquiano; 50 abandonaram o país e outros 75 se refugiaram em nações vizinhas. Geoffrey Keele, porta-voz do Unicef em Bagdá, disse ao POPULAR que os médicos temem a alta incidência de desnutrição, doenças e traumas pós-guerra. ?Estamos muito preocupados com o bem-estar das crianças?, disse. Os massivos bombardeios anglo-america-nos danificaram o sistema de saneamento das cidades ? que já era precário ? e fizeram com que a diarréia se tornasse a doença mais comum. ?Apesar de a diarréia ser de fácil prevenção, os iraquianos não sabem como preveni-la. Isso pode levar a muitas mortes.? A médica canadense Samantha Nutt, diretora-executiva da ONG War Child, conhece bem a realidade dos fronts de batalha. Por mais de seis anos ela atendeu crianças afetadas pela guerra. Retornou do Iraque em janeiro passado, quando integrou uma equipe multinacional de médicos de 20 organizações não-governamentais e realizou estudos sobre o impacto da Guerra do Golfo em 12 milhões de crianças. Naquela época, ficou assustada com o impacto psicológico da guerra sobre os pequenos iraquianos. Samantha e sua equipe avaliaram um grupo de 300 crianças do sul e do centro do Iraque. ?Cerca de 40% das crianças disseram sentir muito medo e afirmaram que não sabiam o que aconteceria quando as bombas começassem a cair?, explica. ?Muitas delas apresentavam distúrbios e pelo menos 500 mil estavam internadas em hospitais da região.? Pesadelos recorrentes e problemas de concentração também foram constatados pelos profissionais. Em uma avaliação recente, o Unicef previu que 570 mil crianças terão de receber cuidados psicológicos no pós-guerra. Samantha Nutt sabe que a realidade da guerra realmente assusta. ?Na segunda semana do conflito, começaremos a testemunhar crianças com fome?, prevê. A médica canadense explica que o Iraque tem estoque de alimentos suficiente para entre 3 a 6 semanas. ?O país necessita de 450 toneladas de alimentos todos os meses. Na sexta-feira, o Exército britânico descarregou no porto de Umm Qasr cerca de 220 toneladas, o que representa a metade das necessidades.?

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