Internacional
Tropas dos EUA assumem controle de Bagd�
Bagdá ? Um dos regimes mais longevos e brutais do Oriente Médio entrou em colapso na capital do Iraque, ontem, 21 dias depois de os Estados Unidos terem decidido destituir Saddam Hussein com uma guerra que, até agora, matou mais de 1.250 civis. Os militares dos EUA disseram que o regime iraquiano havia chegado ao fim mas afirmaram ser prematuro dizer que a guerra terminou. Algumas áreas de Bagdá ainda estavam sob controle de milícias e paramilitares leais ao ditador. Após semanas de bombardeios e batalhas por terra, Bagdá amanheceu ontem emitindo sinais de um vácuo de poder sem precedentes no Iraque ? 24 anos após Saddam ter estabelecido um violento Estado policial. Cenas de celebração se misturavam às de distúrbios. Centenas de pessoas saíram às ruas em vários pontos da capital, rasgando pôsteres do ditador, invadindo prédios do governo, de onde levavam qualquer coisa que pudessem carregar. Multidões em júbilo jogavam flores e saudavam fuzileiros navais até mesmo na Cidade de Saddam, distrito a nordeste da capital habitado por cerca de dois milhões de xiitas pobres. A população xiita ? maioria no Iraque ? foi brutalmente reprimida pelo ditador, que pertence à minoria sunita. Escritórios da ONU foram invadidos e saqueados. O prédio do Comitê Olímpico, quartel-general do filho mais velho de Saddam, Uday ? um dos homens mais temidos e odiados do Iraque ? foi incendiado. Durante a madrugada, soldados americanos esvaziaram cadeias da cidade, libertando prisioneiros. No fim da tarde (horário de Bagdá), foi reproduzida no centro da capital uma cena típica da queda de regimes ditatoriais: a derrubada de uma das centenas de estátuas gigantescas do ditador que povoam o Iraque. Um grupo de mais de cem iraquianos se reuniu em torno da escultura, momentos depois de fuzileiros navais americanos terem chegado ao local, a bordo de tanques. Sob os olhos da imprensa internacional ? abrigada em massa no Hotel Palestina à frente da praça ? os militares americanos ajudaram iraquianos a derrubar a estrutura. Aos gritos de ?Morte a Saddam!?, os iraquianos bateram na estátua com pedras e chinelos e pularam sobre ela. No local onde estava o boneco do ditador, prenderam uma bandeira do Iraque. Uma nota constrangedora, no entanto, marcou o episódio: um fuzileiro naval chegou a amarrar uma bandeira americana no rosto da estátua, num gesto que prometia despertar críticas da imprensa e de países árabes. Momentos depois, o soldado retirou a bandeira, provavelmente advertido por seus superiores. No Norte do país, na cidade de Arbil, região controlada pela minoria curda, uma multidão saiu às ruas para comemorar a queda do regime em Bagdá. Saddam é odiado pelos curdos iraquianos desde que o regime usou armas químicas contra a cidade de Halabja, em 1988, matando milhares de pessoas, e esmagou uma revolta da etnia após a Guerra do Golfo de 1991. Havia outros sinais de que o regime havia entrado em colapso. Pela primeira vez desde o início da guerra, o ministro da Informação iraquiano, Mohammed Saeed al-Sahaf, não apareceu para seu briefing diário a jornalistas. Al-Sahaf foi o rosto público do regime de Saddam Hussein durante a guerra. Os guarda-costas do governo, sombra dos jornalistas estrangeiros nos últimos 21 dias, também não estavam no Hotel Palestina. /// Batalha final será em Tikrit, na cidade natal de Saddam Bagdá e Washington ? As Forças Armadas dos EUA disseram que a batalha final deverá ser para controlar Tikrit, cidade natal do presidente iraquiano, Saddam Hussein, onde os ataques não serão diferentes dos que ocorreram em Bagdá, que eles já afirma está sob seu domínio. Oficiais dos EUA declararam ser cedo para falar sobre uma deposição de Saddam, apesar das cenas de comemoração em áreas de Bagdá enquanto as forças norte-americanas entravam na cidade. O brigadeiro-general norte-americano Vincent Brooks afirmou que os EUA haviam notado uma concentração de forças ao redor da cidade natal de Saddam, Tikrit, possivelmente como resultado do avanço das forças invasoras rumo à capital do país. ?Vimos algumas unidades militares estacionadas dentro e ao redor de Tikrit. Muitas delas chegaram à região enquanto avançávamos no sudoeste e no sudeste de Bagdá? declarou. ?Parece haver algumas tentativas para reforçar as defesas iniciais da cidade. Ainda não sabemos exatamente qual a quantidade de soldados ainda presentes em Tikrit. Prevemos que qualquer combate travado ali, caso ocorra, seja similar aos que vimos em outras áreas do país?. Em Washington, o secretário da Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, disse que a Síria pode estar ajudando os partidários de Saddam Hussein a fugir do Iraque. No mesmo pronunciamento, feito no Pentágono, ele afirmou que os soldados dos EUA ainda precisam encontrar o ditador iraquiano. ?Estamos obtendo informações da inteligência dizendo que a Síria tem cooperado facilitando a movimentação de pessoas para fora do Iraque e para dentro da Síria?, disse ele em uma entrevista coletiva. Rumsfeld havia sido questionado onde os partidários do governo de Saddam estavam se abrigando. Anteriormente, ele acusou a Síria de permitir o envio de carregamentos de equipamentos militares para o Iraque, desafiando uma advertência dos EUA. A Síria desmentiu as acusações. Para Rumsfeld, as imagens de iraquianos celebrando nas ruas de Bagdá ao lado das forças americanas lembram a queda do muro de Berlim. ?Este é um grande dia para o povo iraquiano?, afirmou. ?As cenas dos iraquianos livres celebrando nas ruas e montando nos tanques de guerra americanos, derrubando as estátuas de Saddam Hussein no centro de Bagdá, são de prender a respiração?, acrescentou.