Internacional
Documento que justifica guerra � falso, diz Blix
Nova Iorque ? O chefe dos inspetores de desarmamento da ONU, Hans Blix, que se reuniu ontem com o Conselho de Segurança para falar do eventual retorno de sua equipe ao Iraque, denunciou a falsificação de documentos para justificar a guerra no Iraque, em uma entrevista antecipada parcialmente pela BBC. ?Era surpreendente ver que uma parte tão importante dos documentos em que se basearam as capitais (Washington e Londres) para construir seu informe (contra o Iraque) não era sólida?, declarou Blix . ?Há exemplos flagrantes?, acrescentou Blix no âmbito do documentário apresentado pela rede de televisão BBC2 intitulado ?O caminho da guerra: a história secreta?. ?Ouvimos falar de um contrato entre o Iraque e Níger, da importação de 500 toneladas de urânio. Entretanto, quando a AIEA (Agência Internacional da Energia Atômica) conseguiu obter o contrato, não lhe foi muito difícil descobrir que era falso, que foi simplesmente falsificado?, explicou Blix. E continuou: ?É muito preocupante. Quem o falsificou? Não é inquietante ver que os serviços de inteligência (americanos e britânicos), que deveriam ter todos os meios técnicos à sua disposição, não descobriram que se tratava de uma falsificação?. Interrogado sobre se estava acusando esses serviços de inteligência de ter falsificado documentos por ordem de Was-hington e Londres, Blix respondeu que não ia ?tão longe?. Quanto ao papel do secretário de Estado norte-americano, Colin Powell ? que em um pronunciamento ante o Conselho de Segurança antes do conflito, antecipou umas ?provas? contra o Iraque, que o próprio Blix qualificou de infundadas ?, o chefe dos inspetores também mostrou prudência. ?Quando alguém está acima (da hierarquia) e recebe documentos, não pode comprovar tudo?, disse. O que intriga Blix é que os serviços de inteligência envolvidos não o fizeram. O futuro dos inspetores das ONU foi objeto de divergências durante a reunião do Conselho de Segurança com Hans Blix. A questão está estreitamente ligada à suspensão das sanções impostas ao Iraque depois da invasão do Kuait (1990). A França propôs ontem a suspensão imediata de algumas dessas sanções, aquelas que atingem a população civil. Autoridades da Casa Branca deixaram claro sua vontade de evitar qualquer tipo de acordo que ligue uma suspensão das sanções da ONU contra o Iraque ao retorno dos inspetores ao país. Desarmamento Washington e Londres já ?assumiram a responsabilidade de desarmar o Iraque?, disse o embaixador norte-americano na ONU, John Negroponte. ?No momento, e num futuro iminente, vemos isto como uma atividade da coalizão (anglo-americana que invadiu o Iraque)?, acrescentou, depois de um encontro a portas fechadas. Negroponte pediu novamente a suspensão das sanções ?na medida do possível?, enquanto em Washington o Departamento de Estado descartava a proposta francesa de suspender apenas as sanções civis. O embaixador russo, Sergei Lavrov, disse aos jornalistas que só os inspetores da ONU têm autoridade legal para determinar se o Iraque possui armas de destruição em massa, condição para a suspensão das sanções. ?Tudo o que queremos saber é que não há armas de destruição em massa no Iraque, e o único modo de verificá-lo é manter inspetores no Iraque que comprovem por si mesmos e façam notificações ao Conselho de Segurança?, afirmou o embaixador russo, Sergei Lavrov. Blix, por sua vez, declarou que não é possível por enquanto retomar as inspeções por razões de segurança, mas afirmou que ?o mundo e o Conselho de Segurança (da ONU)? desejam que (as inspeções) continuem. As reuniões de ontem aconteceram depois da difusão de uma entrevista na BBC.