Internacional
Papa fica na história como maior defensor da paz
Após meses de agonia pública, Karol Jozef Wojtyla, feito em 1978 Papa João Paulo II, morreu, em seus aposentos no Vaticano. O Santo Padre que entrou para a História como o Papa peregrino e ferrenho defensor da paz, tinha 84 anos. Seu pontificado, o terceiro maior da História da Igreja Católica Romana, durou 26 anos e cinco meses. Debilitado, ainda assim ele tinha forças para pregar contra o que chamava de cultura da morte. Cansado, mantinha a rotina de viagens, levando a sua mensagem - inflexível e estranha à sensibilidade moderna - a todos os continentes. Criticado, continuava a defender posturas consideradas rígidas demais, defasadas demais, conservadoras demais. Nada disso o abalava - não a ponto de interromper o que julgava ser a sua missão, para a qual tinha sido escolhido pelo Espírito Santo: a de manter unida a Igreja Católica, denunciando ao mundo o que entendia como crimes contra a Humanidade. Entre eles, o aborto, a falta de liberdade religiosa e a alienação da espiritualidade, a exploração do homem pelos sistemas econômicos, o ódio entre indivíduos feitos pelo mesmo Deus ao qual devotou a vida. Paradoxalmente, foi um grande sucesso de público embora falasse coisas que a princípio a maioria não queria ouvir. Dono de um enorme carisma, o Papa João Paulo II deixou uma marca indelével na instituição que governou. Mas quem foi esse homem cujas idéias foram saudadas e rejeitadas com igual veemência? A visão de mundo de João Paulo II, aquela que implantou no Vaticano e à qual exigiu obediência de seus bispos e padres, tomou forma a partir dos horrores de quem, entre a juventude e a maturidade, viveu sob duas ditaduras - a nazista e a comunista. Para ele, que viu seu povo ser massacrado pelas tropas de Adolf Hitler e depois novamente amordaçado por um regime stalinista, o século XX foi, como disse certa vez, o mais terrível da História. Nos dois totalitarismos, em que presenciou a morte em todas as suas maneiras, Karol Wojtyla só encontrou exceção na Igreja. Em sua opinião, ela era a única a perservar em favor da vida. Isso ajuda a entender, por exemplo, sua argumentação radical pela vida e contra a interrupção da gravidez. A morte de um inocente lhe lembrava ditadura e a Igreja tinha como dever intervir nessa batalha. Um conflito que ele, um sobrevivente dos autoritarismos, esteve disposto a enfrentar. A história de João Paulo II foi, sob diversos aspectos - o político, o moral, o sexual, o cultural, o econômico, o religioso - a história de um homem em guerra com o século XX. Embaixador da paz, o Papa foi o único dos grandes líderes mundiais a se bater contra a Guerra do Golfo, em 1990, enviando cartas aos presidentes George Bush e Saddam Hussein e reunindo seus bispos para avaliar a situação. Ele criticou duramente os bombardeios americanos à população civil iraquiana e também o embargo econômico, cujos efeitos resultaram na morte de milhares de crianças. A fratricida guerra da Bósnia fez João Paulo II reviver os temores da Segunda Guerra e planejar uma visita à dilacerada Sarajevo em 1994, no auge dos conflitos - uma viagem que no último minuto foi cancelada pela burocracia da Santa Sé. Ele imaginava que sua autoridade de Papa poria fim ao conflito. Por isso comprou briga com Israel ao se proclamar favorável à criação de um estado palestino, lamentando a violência contra os muçulmanos na Terra Santa. Na América do Sul teve êxito ao conseguir mediar uma solução pacífica para a disputa entre Argentina e Chile pelo canal de Beagle, que por pouco não levou os dois países a uma guerra. Campeão dos direitos humanos, foi contra a pena de morte, condenou severamente a tortura e a exploração dos trabalhadores. Apesar disso, suas teses sobre as mulheres - aquilo que muitas feministas identificaram como intolerância com o feminino - causaram frustrações. João Paulo II se negou a discutir a ordenação de mulheres e enquadrou freiras que dele discordaram. Silenciou teólogos e arrefeceu os ímpetos progressistas de bispos e padres. Mas sorriu para os jovens, os recebeu no Vaticano junto com roqueiros e trocou o uso do plural majestático com que os antecessores demonstravam sua intimidade com Deus por outra fórmula - nós, por eu, o Papa. Apesar das inovações, recorreu a rituais medievais, como em 2000, quando exorcizou uma jovem italiana de 19 anos que aparentava estar possuída. Popular, o Papa arrastou e fascinou multidões, levando a cifras jamais imaginadas suas voltas pelo mundo. Mesmo contrariando vozes poderosas dentro da Cúria Romana, que viam suas viagens como encenações de baixo nível, indignas e meras exibições teatrais de poder, além de representarem um prejuízo para as finanças vaticanas, ele foi ao encontro de seu povo como nenhum outro jamais havia feito. Com um sentido preciso de ator teatral, do uso do microfone, das câmeras de televisão, uma firme e movimentada presença no altar e falando sete idiomas (polonês, inglês, espanhol, alemão, francês, italiano e português), João Paulo II arrebatou, supreendeu e atraiu milhões. Nos Estados Unidos, freiras que passaram 25 anos na clausura deixaram momentaneamente o claustro para vê-lo de perto, em 1979. A visita ao país teve a maior cobertura de TV desde o assassinato de John Kennedy e foi acompanhada por cerca de 14 mil jornalistas. O sucesso fez com que a revista Time o chamasse de John Paul, Superstar. A mesma publicação o escolheu Homem do Ano de 1994. Ele foi o primeiro pontífice romano que escreveu um livro, Cruzando o limiar da esperança, em 1994, uma obra que bateu recordes de vendagem. E também o primeiro a gravar um disco (Canções do Papa), lançado em 1979 na Alemanha e que apenas em sete dias vendeu 60 mil cópias. O vinil incluiu seis músicas folclóricas polonesas e obras sinfônicas com a voz de João Paulo II. Com seu toque de Midas, o pontífice deu grande audiência à rede americana NBC em 1981, quando teve sua biografia transformada no longa-metragem De um país distante: Papa João Paulo II, em que o personagem principal foi interpretado pelo ator polonês Cezary Morawski. Um outro filme, este baseado na peça teatral A oficina do ourives, escrita por João Paulo II em 1960, foi produzido e exibido em 1988. Tanto sucesso levou o Vaticano a criar, em 1989, o serviço Disque Papa, pelo qual, por dois minutos, o usuário ouvia conselhos pastorais e comentários sobre o Evangelho feitos por Wojtyla. O êxito se repetiu quando o site do Vaticano, lançado de forma experimental em 1995, teve que ser retirado do ar por excesso de mensagens natalinas enviadas a João Paulo II - a página só voltou a funcionar três anos depois. O Papa se foi lamentando não ter visitado a Rússia (crucial para o seu desejo de uma reaproximação, ou mesmo reunificação, com a Igreja Ortodoxa), a China (onde há sérios problemas a resolver com o governo comunista, que sustenta uma igreja própria e persegue os católicos que se mantêm fiéis ao Vaticano) e o Iraque (para conhecer a antiga cidade de Ur, de onde saiu Abraão). Embora dinâmico e incansável, o Papa aceitou o fato de seu corpo ter se tornado, nos últimos anos, um fardo devido ao mal de Parkinson. Uma situação que deveria incomodar, sobretudo num homem que passou grande parte da vida em atividades físicas. Mas ele encarava o sofrimento de uma maneira bastante diferente do homem de hoje, com sua mentalidade hedonista. O jesuíta Giuseppe Pittau, amigo do pontífice, disse que para João Paulo II uma vida fácil não levava à profundidade: - Ele dizia que por meio do sofrimento podemos ser pessoas melhores e ajudar aos outros. Para os cristãos, esse é o significado da cruz. Ele temia que, sem sofrimento, o homem não crescesse. Esse pensamento o orientou e simboliza a sua trajetória como homem da Igreja. (Globo Online)