Internacional
Em sua primeira missa, Bento XVI prega diálogo
| Igor Gielow Agência Folha Em sua primeira missa celebrada como papa Bento XVI, o alemão Joseph Ratzinger (pronuncia-se rátzingah??), tentou suavizar sua imagem de radical da ultra-ortodoxia católica e emitiu uma série de mensagens de diálogo e até conciliação. Falou de união na igreja, poder aos bispos, incentivo à pesquisa teológica, defesa do flexibilizante Concílio Vaticano II e até pregou o ecumenismo com outras denominações católicas, algo antes impensável durante seus 23 anos como guardião da doutrina da Igreja Católica em Roma. Não parecia o mesmo Ratzinger que, na missa que antecedeu o conclave, na segunda-feira passada, fez uma defesa veemente do que chamou de fé adulta??, inflexível às tentações do relativismo do mundo moderno e às mutações da vida globalizada. O discurso, de tão duro, foi visto como uma peça paradoxal de campanha, já que poderia tanto ganhar votos como afastar cardeais eleitores indecisos. Prevaleceu a primeira opção. A quantidade de sinais impressionou até os cardeais derrotados no conclave. Devemos dar um voto de confiança ao novo papa??, disse o cardeal dom Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo que era visto como uma alternativa latino-americana para o trono de São Pedro. O papa poderá surpreender??, disse. Dom Cláudio Hummes foi rebatido por um cardeal explicitamente pró-candidatura Ratzinger, o arcebispo do Rio, dom Eusébio Oscar Scheid: Quem o critica não o conhece??. Não tenha medo? Os recados de Bento XVI, que será entronizado durante uma missa na manhã do próximo domingo, vieram em forma de sua homilia, lida como de praxe em latim na primeira missa como papa, realizada em frente aos 114 cardeais que participaram de sua eleição na terça. Como confirmou o cardeal brasileiro dom Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foram quatro as votações que levaram à escolha. A missa foi rezada na capela Sistina, um dos maiores tesouros artísticos do Vaticano, onde ocorreu a votação que escolheu Joseph Ratzinger para ser o novo papa. /// Escolha deixa em cada fiel uma esperança O bispo de Palmeira dos Índios, dom Fernando Iório, afirma que tem muita esperança na eleição do cardeal Joseph Ratzinger para o cargo de sumo pontífice da Igreja Católica. Segundo dom Fernando, a escolha deixa em cada fiel cristão uma grande esperança. Para dom Fernando, Joseph Ratzinger, que adotou o nome de Bento XVI, é bem preparado. Ele acompanhou o papa João Paulo II de perto, salienta o bispo. Joseph Ratzinger foi nomeado em 1981, pelo então papa João Paulo II, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Ratzinger também presidiu as comissões bíblica e pontifícia internacional teológica e para dom Fernando possui três grandes virtudes: Primeiro ele é um homem de fé; segundo é um pastoralista e é um grande teólogo. Com relação às críticas de que o novo papa é um homem reacionário, tradicionista e contra a teologia da libertação, o bispo de Palmeira dos Índios afirma que as funções que Ratzinger exerceu na Igreja Católica exigiam que ele tivesse certeza e cuidasse da doutrina da Igreja. Reacionário é quem tem uma doutrina a ser seguida? Então todo mundo é reacionário, argumenta. Eu me congratulo com a Igreja pela escolha dos cardeais, que foram inspirados pela luz do Espírito do Santo de Deus, afirma dom Fernando. Precisão Conforme antecipou a Gazeta, na edição da última terça-feira, dia 19, em entrevista com o bispo de Penedo, dom Valério Breda, o conclave - reunião de cardeais para eleger o novo papa - duraria no máximo dois dias. Bento XVI foi eleito no segundo dia de conclave, após quatro votações. A precisão foi uma surpresa para mim. Mas havia na Igreja um sentimento de muita comunhão e união e os cardeais escolheram um colaborador de João Paulo II, diz dom Valério Breda. /// Papa atribui a João Paulo II sua eleição Na primeira missa realizada como sumo pontífice, Bento XVI fez vários elogios ao seu predecessor, João Paulo II, de quem foi braço direito como responsável pela defesa da doutrina da igreja. Atribuiu a ele sua eleição: Parece que sinto sua mão forte apertar a minha, vejo seus olhos sorridentes e ouço suas palavras, dirigidas a mim neste momento especial: Não tenha medo??. Disse também que sentia o peso de sua incompetência?? para a missão, mas que se apoiava no exemplo de Karol Wojtyla para continuar. Insistindo na imagem de humildade da primeira fala como papa ontem, no balcão da basílica de São Pedro, disse que falava com simplicidade e afeto??. E desfiou um rosário de temas. O mais surpreendente foi a defesa do ecumenismo cristão. O sucessor de Pedro assume com o compromisso primário de trabalhar sem economizar energias na reconstituição plena e visível da unidade dos seguidores de Cristo e promover os contatos e entendimentos com os representantes das diferentes igrejas e comunidades eclesiásticas.?? João Paulo II também foi um grande defensor do ecumenismo, promovendo encontros inter-religiosos. Mas, longe das fotos do papa em sinagogas ou mesquitas, era justamente Ratzinger quem defendia a Igreja Católica como única herdeira real de Jesus Cristo - e mãe?? de todas as outras igrejas, e não irmã??, como escreveu em 2000, para causar até um constrangimento público a Wojtyla, que foi cobrado pelo patriarca grego de Damasco sobre sua real intenção no ano seguinte. Além disso, em tese, Bento XVI se abre ao que os cardeais chamam de seitas??, ou seja, as denominações evangélicas pentecostais que disputam espaço com a igreja de Roma em lugares como o Brasil. O que de fato irá acontecer, só o tempo dirá. Mas causou surpresa, ainda mais após sua eleição em estilo trator??, ver Ratzinger fazer um apelo àqueles que seguem outras religiões??. Outro ponto de surpresa foi a defesa da aplicação dos princípios do Concílio Vaticano II, encontro da igreja na década de 60 que fez várias adaptações de liturgia e doutrina visando adaptar o catolicismo à atualidade - deu cabo da liturgia obrigatória em latim, por exemplo, e ampliou o espaço de mulheres e leigos nos assuntos da igreja. Os documentos conciliares não perderam a atualidade??, disse. /// Papa já sofreu hemorragia cerebral | AGÊNCIA FOLHA Quando era cardeal em 1991, Joseph Ratzinger sofreu uma hemorragia cerebral que o deixou em repouso por um tempo, mas ele conseguiu se recuperar??, afirmou ontem à rede de televisão CNN o vaticanista John Allen. O cardeal de 78 anos, escolhido ontem para ser o novo papa, agora aparenta estar em ótimo estado de saúde??, mas também está ciente que seu pontificado poderá não durar muito tempo??, disse Allen, autor da biografia Cardeal Ratzinger: o Defensor da Fé do Vaticano??. Há dois anos, ele aparentava cansaço.?? Em uma idade que se aproxima dos 80, não é garantido que a pessoa possa trabalhar e levantar no dia seguinte.?? Allen disse que a saúde do papa é boa?? e todos que trabalharam com ele e o viram nos últimos meses diriam que sua saúde parecia estar em boa condição.?? Por outro lado, não vamos nos iludir??, disse Allen. Aos 78 anos, é improvável que vejamos um outro pontificado que dure 26 anos, como o de João Paulo II??. Quando Ratzinger disse aos cardeais por que gostaria de ser chamado de Bento XVI, uma das razões de sua escolha foi o fato de Bento XV ter tido um dos mais curtos pontificados do século XX.