Internacional
G-8 exclui proposta de fundo contra a fome
Evian (França) ? Os chefes de Estado e de governo do G-8 (sete países mais industrializados e a Rússia) não incluíram na declaração final do grupo a proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de criar um fundo mundial contra a fome. A declaração foi apresentada ontem em Evian (França), ao final do encontro anual do G-8. A idéia de um fundo contra a fome que seria em parte financiada por uma taxa do comércio internacional de armas foi proposta por Lula no domingo passado (1º de junho), quando discursou na reunião ampliada do G-8. O restante do fundo seria constituído por uma parcela do serviço da dívida dos países pobres. A proposta de Lula foi inicialmente lançada no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), e previa financiamento do fundo contra a miséria e a fome por parte de grandes investidores internacionais. As cinco páginas do documento final da cúpula do G-8 foram dedicadas às questões econômicas, à luta contra o terrorismo e a conflitos regionais, como os do Oriente Médio. Apenas quatro linhas falavam da fome, classificando-a como ?risco a milhares de pessoas?, e que afetaria principalmente a África. O G-8 se comprometeu a ?responder às necessidades alimentícias mais urgentes?. Lula havia classificado o problema como ?realidade intolerável?. ?Minha resposta [à fome] é a criação de um fundo mundial capaz de dar de comer a quem tem fome e, ao mesmo tempo, criar condições para acabar com as causas estruturais da fome?, afirmou em seu discurso. O presidente da França, Jacques Chirac, foi o único a dar declarações de apoio à proposta. Saúde sacrificada Cerca de 14 milhões de pessoas morrem anualmente pela falta de acesso a medicamentos existentes no mundo, segundo informações da Organização Internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). ?Apesar dos apelos e propostas de várias organizações, a cúpula do G-8 (os sete países mais ricos do mundo e a Rússia) fracassa em garantir melhores condições de saúde a pessoas de países em desenvolvimento?, diz a MSF. A organização criticou o Plano de Ação em Saúde aprovado durante reunião de cúpula do G-8, em Evian, na França, que sacrifica deliberadamente soluções para um maior acesso a medicamentos essenciais em nome de interesses políticos e comerciais. ?Só para receber um tapinha nas costas do Bush, Chirac [Jacques, presidente da França] abandonou o seu compromisso público de melhorar o acesso das pessoas a medicamentos essenciais, e o resto do G-8 seguiu feliz?, disse Jean-Hervé Bradol, presidente de MSF na França. Medidas A versão do Plano de Ação em Saúde preparada pela França incluía medidas concretas tais como: garantir o acesso a medicamentos genéricos por meio da implementação do acordo de Doha, onde as questões de saúde deveriam estar acima de interesses comerciais; estabelecer preços diferenciados de medicamentos para países em desenvolvimento; estimular a produção local e a transferência de tecnologia; e criar financiamentos de longo prazo para o Fundo Global de Combate a Aids, Malária e Tuberculose. De acordo com a MSF, após aprovação do plano, a única seção que mostra determinação é a referente à Sars (síndrome respiratória aguda grave). ?Este plano inerte é uma pílula difícil de engolir, já que, por trás dos panos, o G-8 está impedindo o acesso de medicamentos por pessoas em países em desenvolvimento. Por isso, os financiamentos para saúde irão diretamente para os bolsos das indústrias farmacêuticas do ocidente, em vez de contribuírem, em longo prazo, para a oferta de drogas acessíveis?, disse Bernard Pécoul, diretor da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais da MSF.