Tensão
UE congela acordo comerciais com EUA após ameaças de Trump
Parlamento reage às tarifas e à pressão pela anexação da Groenlândia


A crise diplomática entre os Estados Unidos e a Europa se aprofundou ontem com novas ameaças do presidente americano, Donald Trump, e uma reação dura do Parlamento Europeu, com sede em Estrasburgo, na França, que anunciou a suspensão da ratificação do acordo comercial firmado com Washington em julho do ano passado. O impasse tem como pano de fundo a ofensiva de Trump para anexar a Groenlândia, território semiautônomo ligado à Dinamarca.
O acordo, que previa a remoção de tarifas sobre produtos industriais dos EUA e deveria entrar em vigor entre março e abril, dependia da aprovação do Parlamento Europeu e dos governos nacionais do bloco. Com a suspensão, parlamentares europeus afirmam querer enviar um sinal claro de descontentamento diante das pressões americanas.
“É uma alavanca extremamente poderosa. Não creio que as empresas concordariam em desistir do mercado europeu”, afirmou a eurodeputada Valerie Hayer, presidente do grupo centrista Renovação, em Bruxelas.
Nos últimos dias, Trump anunciou a imposição de tarifas de 10% sobre exportações de oito países europeus — Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia — a partir de 1º de fevereiro de 2026, com possibilidade de aumento para 25% em junho, caso esses países continuem se opondo à anexação da Groenlândia. A medida provocou forte reação no continente.
Além de congelar o acordo comercial, a União Europeia discute a adoção de tarifas retaliatórias contra os EUA que podem chegar a 93 bilhões de euros (cerca de R$ 580 bilhões), além de possíveis restrições ao acesso de empresas americanas ao mercado europeu.
PROVOCAÇÃO
Às vésperas de sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Trump intensificou o tom provocativo. Em publicações nas redes sociais, divulgou montagens com a bandeira americana sobre a Groenlândia e afirmou que os líderes europeus “não oferecerão muita resistência” aos seus planos.
O presidente voltou a defender que a ilha é “imprescindível para a segurança nacional e mundial” e reiterou que os Estados Unidos garantem a paz global “por meio da força”.
Trump confirmou que se reunirá com líderes europeus durante o fórum, mas deixou claro que não pretende negociar. “Temos que conseguir. Eles têm que aceitar”, disse a jornalistas antes de embarcar para a Suíça.
As declarações provocaram reações imediatas em Davos. O presidente francês, Emmanuel Macron, acusou os EUA de tentar subordinar a Europa por meio de uma política tarifária “inaceitável” e classificou as medidas como uma forma de pressão sobre a soberania territorial europeia. A França está entre os países atingidos pelas tarifas após enviar militares à Groenlândia em apoio à Dinamarca.
Também ontem, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a resposta do bloco será “firme, unida e proporcional”. Ela alertou que uma escalada tarifária seria um erro estratégico e anunciou planos para ampliar os investimentos europeus na Groenlândia, defendendo cooperação com os EUA na segurança do Ártico.
RESPOSTA
No Parlamento Europeu, líderes políticos indicaram consenso para formalizar a suspensão do acordo comercial nesta quarta-feira. A presidente do grupo dos Socialistas e Democratas, Iratxe García Pérez, classificou a medida como resposta direta às ameaças de Trump. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, foi além e chamou a estratégia americana de “chantagem”.
A crise também teve reflexos na segurança regional. Países europeus anunciaram o envio de pequenos contingentes militares à Groenlândia, a pedido da Dinamarca.
