Mediação de conflitos
Trump lança ‘Conselho da Paz’ em Davos com críticas à ONU
Iniciativa enfrenta resistência de aliados europeus e só atrai 19 países no lançamento


Com adesão abaixo do esperado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou oficialmente ontem o chamado “Conselho da Paz”, iniciativa americana voltada à mediação de conflitos internacionais.
O anúncio foi feito à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, no contexto das negociações entre Israel e Hamas sobre a Faixa de Gaza. A proposta, no entanto, provocou críticas e desconfiança entre aliados tradicionais dos EUA e analistas, que veem no novo órgão uma tentativa de esvaziar e rivalizar com o sistema das Nações Unidas (ONU).
Idealizado inicialmente para atuar em Gaza, o conselho terá escopo ampliado e não deve se restringir ao Oriente Médio. Trump afirmou que a iniciativa poderá operar globalmente e declarou que o órgão seria mais eficiente do que a ONU na resolução de conflitos.
O presidente americano voltou a criticar abertamente as Nações Unidas, afirmando que encerrou conflitos recentes sem qualquer participação do organismo internacional e sugerindo que o novo conselho poderia substituí-lo. Segundo Trump, a ONU teria “grande potencial”, mas falharia por falta de efetividade.
Apesar dessas declarações, o governo americano tentou minimizar as críticas, sustentando que o conselho atuaria de forma complementar à ONU. Ainda assim, uma minuta do estatuto da organização, com mandato amplo para garantir “paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”, reforçou temores de parceiros ocidentais de que o órgão busque minar a autoridade da ONU, especialmente do Conselho de Segurança.
Trump será o presidente do Conselho da Paz, que exigirá uma contribuição de US$ 1 bilhão para países que desejarem participação permanente. No lançamento, apenas 19 países aderiram formalmente: Argentina, Arábia Saudita, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Bulgária, Catar, Cazaquistão, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Indonésia, Jordânia, Kosovo, Marrocos, Mongólia, Paquistão, Paraguai, Turquia e Uzbequistão. A expectativa inicial do governo dos EUA era de cerca de 35 adesões.
A principal ausência foi a de aliados europeus da Otan. França, Reino Unido, Alemanha, Suécia, Holanda e Canadá rejeitaram o convite, citando preocupações jurídicas, o alcance global do conselho e a inclusão de líderes considerados antidemocráticos, como o presidente russo, Vladimir Putin, e o líder da Bielorrússia, Alexander Lukashenko. A chanceler britânica, Yvette Cooper, afirmou que causa preocupação a participação de Putin em um órgão dedicado à paz enquanto a Rússia mantém a guerra na Ucrânia.
O Kremlin informou que ainda avalia o convite e condicionou uma eventual participação ao descongelamento de ativos russos retidos nos Estados Unidos desde a invasão da Ucrânia, em 2022.
Segundo Moscou, esses recursos poderiam ser direcionados à reconstrução de Gaza. O tema entrou na agenda de uma reunião entre representantes russos e do governo americano.
Apesar das críticas, os países participantes assinaram uma resolução inaugural sobre Gaza, alinhada a uma decisão do Conselho de Segurança da ONU para o fim da guerra. Trump afirmou que o novo conselho terá papel central na reconstrução do território palestino.
Seu genro, Jared Kushner, indicado para ajudar a gerir o órgão, apresentou projeções de um amplo plano de reconstrução, estimando investimentos de pelo menos US$ 25 bilhões, incluindo a reabertura da passagem de Rafah e a criação de um comitê de tecnocratas palestinos para administrar Gaza.
