Instabilidade
Congresso do Peru destitui José Jerí, presidente interino
Decisão ocorreu após a aprovação de uma moção de censura por má conduta


O Congresso do Peru destituiu ontem o presidente interino José Jerí, após a aprovação de uma moção de censura por má conduta e inadequação ao cargo. A decisão foi tomada com 75 votos favoráveis, 24 contrários e três abstenções, superando o mínimo exigido para a medida.
Jerí estava na Presidência havia quatro meses. Ele assumiu o cargo em outubro, após a destituição de Dina Boluarte, em meio a protestos contra corrupção e ao agravamento da violência ligada ao crime organizado. Constitucionalmente, ele não poderia disputar as eleições marcadas para 12 de abril, que definirão o presidente para o novo mandato a partir de julho.
O anúncio da vacância foi feito pelo presidente interino do Congresso, Fernando Rospigliosi. O Parlamento deverá eleger um novo presidente da Casa na quarta-feira; quem for escolhido assumirá automaticamente a Presidência da República até 28 de julho. Até lá, o país ficará por mais de 24 horas sem chefe de Estado, situação considerada inédita na história recente peruana.
A destituição ocorre em meio a duas investigações do Ministério Público contra Jerí. A primeira apura suspeita de tráfico de influência e patrocínio ilegal de interesses após a revelação de um encontro reservado com um empresário chinês que mantém negócios com o governo. A segunda investiga possível interferência do então presidente na contratação de nove mulheres para cargos na administração pública. No domingo, Jerí declarou à televisão local que não cometeu crimes.
As denúncias vieram à tona após reportagens do programa investigativo “Cuarto Poder”, que apontou que parte das nomeações teria ocorrido depois de reuniões no gabinete presidencial. As suspeitas provocaram forte reação política e impulsionaram a moção de censura, mecanismo mais célere que o impeachment no sistema peruano.
Do lado de fora do Congresso, manifestantes pediram a saída imediata do presidente. Durante o debate parlamentar, deputados da oposição afirmaram que a escolha de Jerí foi um erro e que a Casa estava corrigindo a decisão.
A crise reforça a instabilidade política que marca o Peru desde 2016, período em que o país teve sete presidentes — apenas um concluiu o mandato. Após iniciar o governo com cerca de 60% de aprovação, impulsionado por promessas de combate ao crime organizado, Jerí viu sua popularidade cair para 37% em fevereiro, segundo pesquisas locais.
Organizações internacionais também manifestaram preocupação com o cenário institucional. Para a diretora para as Américas da Human Rights Watch, Juanita Goebertus, as sucessivas trocas de presidentes refletem o enfraquecimento da democracia e o avanço de interesses criminosos no país.
Com a nova mudança no comando do Executivo, o Congresso busca conduzir a transição até a posse do presidente eleito em julho, em mais um capítulo da crise política peruana..
