Impasse
Incertezas marcam nova rodada de negociações entre Estados Unidos e Irã
Chanceler iraniano diz que houve “bom progresso”, embora ainda sem acordo em questão nuclear


Os Estados Unidos e o Irã concluíram ontem mais uma rodada de negociações sobre o programa nuclear iraniano, realizada em Genebra, na Suíça. Foi o terceiro encontro deste ano e o oitavo desde 2025, em meio a um impasse que se arrasta há quase uma década.
As conversas ocorrem sob tensão. O presidente norte-americano, Donald Trump, afirma que não permitirá que o Irã desenvolva armas nucleares. Já o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, nega qualquer intenção militar e sustenta que o país tem direito ao uso pacífico da tecnologia nuclear.
Ao fim da reunião, o chanceler iraniano Seyed Abbas Araghchi declarou que houve “bom progresso” tanto na questão nuclear quanto na discussão sobre o levantamento de sanções econômicas impostas por Washington. Segundo ele, há pontos de convergência, mas divergências persistem.
Novas análises técnicas serão realizadas na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em Viena, na próxima semana. O diretor-geral da agência, Rafael Grossi, participou das discussões.
O enriquecimento de urânio segue como principal obstáculo. De acordo com a AIEA, o Irã possui cerca de 400 quilos de urânio enriquecido a 60% — nível acima do necessário para fins civis e próximo do grau de 90% exigido para armamentos nucleares. Teerã admite que pode reduzir o percentual como gesto de compromisso, mas rejeita a exigência dos EUA de encerrar totalmente o processo.
Outro ponto sensível é o programa de mísseis balísticos iraniano. Washington considera que o desenvolvimento desses artefatos representa ameaça direta a seus aliados e a bases militares no exterior. O tema ganhou força após reunião entre Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no início do mês. O governo iraniano nega possuir mísseis com alcance intercontinental.
DESCONFIANÇA
O histórico recente amplia a desconfiança entre as partes. Em 2015, Irã e potências ocidentais firmaram um acordo nuclear durante o governo de Barack Obama, prevendo limites ao programa iraniano em troca do alívio de sanções. Três anos depois, Trump retirou os EUA do pacto, alegando descumprimento por parte de Teerã, e restabeleceu restrições econômicas.
As negociações também foram impactadas por confrontos indiretos. No ano passado, tratativas foram suspensas após um “ataque preventivo” de Israel contra instalações ligadas ao programa nuclear iraniano, com participação norte-americana.
Enquanto diplomatas tentam avançar em Genebra, os EUA mantêm reforço militar no Oriente Médio. Os porta-aviões USS Abraham Lincoln e USS Gerald R. Ford permanecem mobilizados na região, acompanhados por caças e fuzileiros. Trump chegou a afirmar que poderá recorrer à “paz por meio da força” caso não haja acordo.
Apesar do discurso firme de ambos os lados, o chanceler iraniano avaliou que há maior disposição política para uma solução negociada. Até o momento, o governo norte-americano não comentou oficialmente os resultados da rodada mais recente.
