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Maré

O ‘NOVO NORMAL’ E AS MULHERES

“Existe um mito de que a mulher tem vocação e pode administrar muitas coisas ao mesmo tempo”, afirma psicóloga

Por DA EDITORIA DA REVISTA MARÉ | Edição do dia 29/05/2021 - Matéria atualizada em 28/05/2021 às 21h51

O ano está na metade, seguimos dentro da pandemia e o “novo normal” se instalou em nossas vidas, forçando uma série de novos comportamentos e preocupações. Uma coisa que segue a mesma é que, muito provavelmente, implantar e supervisionar essas novas atribuições está a cargo das mulheres. Afinal, elas são multitarefas e conseguem dar conta da casa, do trabalho, dos filhos, do corpo e da família tudo ao mesmo tempo. Este modelo de comportamento gera uma grande carga mental sobre essas mulheres, fazendo com que elas estejam em grupos de risco para vários sofrimentos e transtornos mentais. Segundo Camila Carnaúba, psicóloga e professora do Centro Universitário Tiradentes (Unit/AL), este comportamento é meramente cultural e foi ensinado através do tempo a meninas e meninos, continuado por homens e mulheres na vida adulta e internalizado como “é assim que as coisas são”. O grande problema deste modelo “engessado” que a sociedade impõe à mulher é que ele não contempla os diferentes tipos de pessoas e suas vontades. “Cada uma é única e, a bem da verdade, não é esperado nada dela, somente que seja como quer ser. Infelizmente essas expectativas sociais acabam gerando nessas mulheres, no âmbito individual, um desejo, uma ideia de vida que não é dela, mas dos outros e de suas expectativas, e isso as coloca em uma maior vulnerabilidade de sofrimento”, explica.

Divisão desigual A desigualdade de gênero nas tarefas domésticas se agravou durante a pandemia, segundo especialistas. Muitas tiveram que deixar o trabalho para ficar com as crianças, já que as aulas foram suspensas durante boa parte do ano de 2020, ou se desdobrar para conseguir conciliar tudo. Isso reforça a crença comum de que “as mulheres são insubstituíveis”, especialmente na criação dos filhos e nos cuidados com o lar. A psicóloga alerta que isso pode ser uma forma de prisão, pois a mulher começa a acreditar que é realmente insubstituível ou que outra pessoa não conseguiria realizar as atividades da mesma maneira que ela. E isso se torna ainda mais palpável na hora da divisão das tarefas do lar. “Uma expressão muito comum de se falar sobre os homens é que eles ‘ajudam’ nas atividades domésticas. Temos que tirar essa palavra do nosso vocabulário. O marido não ajuda, ele faz a parte dele e todos ganham quando se dividem tarefas. É importante que os homens tenham essa experiência com as atividades domésticas, com o gerenciamento dos cuidados com os filhos e das atividades educativas também, não somente para promover um melhor bem-estar dentro de casa, mas sobretudo para que seus filhos e filhas cresçam vendo seus pais sendo participativos em casa. E aí podemos prever que futuramente essas crianças serão mais conscientes das responsabilidades coletivas, com mais saúde mental e menos sobrecarregados em casa”, defende Camila Carnaúba.

Estabelecer limites Outra armadilha muito comum é o papel culturalmente atrelado à mulher de cuidado com o outro. Saber como estão de saúde os pais, parentes e o marido acaba recaindo sobre as mulheres, o que pode levar à exaustão. “Nesses casos, é preciso estabelecer o limite e reivindicar pela divisão de tarefas com seus outros familiares. Inclusive, é interessante que a mulher tenha muito cuidado para não se culpar por estar cansada. É muito comum que elas não aceitem que não estão dando conta de tudo e, na verdade, isso é esperado, tendo em vista que não há como assumir tantas responsabilidades e ao mesmo tempo, garantir uma saúde mental boa”, comenta Camila. O processo de reconhecimento do cansaço e de traçar limites não é fácil, mas a psicóloga lista algumas maneiras de identificar esses problemas: Quando os seus assuntos ou as atividades que você gosta e te fazem bem ficam para trás à medida que se está fazendo mais pelos outros do que por você mesma é um grande sinal de que é preciso uma pausa; Reconheça os sinais de cansaço físico e psicológico para que nem mesmo seja necessário chegar a esse ponto; Delegue atividades para outras pessoas e seja firme quanto ao cumprimento; Se for o caso, flexibilize sua exigência, porque muitas vezes há uma dificuldade enorme em delegar atividades justamente por não conseguir aceitar outro padrão. “Enquanto a mulher não fizer isso, infelizmente as atividades vão acabar sendo atribuídas totalmente para ela, que cairá naquela prisão de se achar indispensável e insubstituível”, finaliza Camila Carnaúba. Afinal, estamos apenas na metade do ano, a tempo de fazer mudanças para terminar 2021 de modo mais saudável para todas.

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