Maré
Paternidade real e fora da caixinha
Pais contam como a chegada dos filhos mudou a vida deles, que, mesmo sozinhos, resolveram encarar esse desafio
Dividir funções dentro de casa, ser presente nas festividades e na rotina escolar, acompanhar a saúde física e emocional dos filhos, conversar. Ser pai é muito mais do que prover financeiramente. Papais alagoanos se desdobram para cumprir o papel sem se limitar ao que muitos entendem como trabalho de pai e de mão. Boas-vindas à paternidade real e fora da caixinha.
Criar vínculos, ter uma rotina de afeto, laços de confiança, respeito e carinho, é dessa forma que nasce a paternidade ativa. De acordo com estudos realizados pela National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, com a participação ativa da figura paterna as crianças crescem com um melhor desenvolvimento cognitivo, socioemocional e autoestima.
O psicólogo João Paulo Alves (CRP - 15/6139), explica que a vivência entre pai e filho traz um benefício mútuo, sendo importante para auxiliar na manutenção de uma boa saúde mental e familiar.
“A paternidade, a depender da quantidade de horas vivenciadas ao lado da criança, reduz os níveis de agressividade, aumenta a produção do hormônio prolactina, que o sensibiliza ao choro como apelo para o suprimento das necessidades, além de aumentar a produção de ocitocina, o hormônio produzido pelo contato que reforça os elos afetivos”, explica o especialista.
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“Para a criança, a presença paterna saudável garante a construção de uma identidade segura pelas influências que recebeu da base durante o seu desenvolvimento, contribuindo para o êxito em diversas situações da vida”, continua. “Um pai participativo cria novas conexões neuronais e o mesmo ocorre com a criança. Brincar com a criança, estar junto nas atividades escolares, visitar lugares novos, incentivar conversas, estar presente em eventos em que ela esteja inserida são alguns dos exercícios que podem reforçar o vínculo entre as partes”, completou.
Pai da Sophia, o designer gráfico Tom Carvalho é um dos pais alagoanos que se permitem vivenciar a paternidade ativa. Há 9 anos seguindo o lema “seja o pai que você gostaria de ter”, Tom conta que a chegada dela em sua vida foi programada e que, desde então, ele está buscando ser “o melhor pai”.
“Minha filha chegou de forma muito programada, com isso eu consegui me preparar de todas as formas possíveis para sua chegada, tanto psicologicamente quanto na questão de saúde também. Comecei a correr na praia todos os dias, para melhorar minha saúde, sistema cardiovascular, para prolongar ao máximo minha vida junto com ela, passei a me preocupar mais comigo devido a ela. Desde o início sempre tentei ser um pai muito presente, fazia questão de dar o banho todos os dias antes de dormir, trocar fraldas, participar desde o comecinho”, relembrou ele.
“Eu faço questão de tá presente em tudo que é importante para ela. Já desmarquei muita reunião importante para assistir uma apresentação de São João ou Carnaval. Eu tive uma infância sem ter muito a presença dos meus pais, e sei o quanto de falta isso fez pra mim, principalmente ao ver meus amigos terem os pais mais presentes, então, hoje, como pai, tenho como prioridade total proporcionar para ela tudo que faltou pra mim”, contou Tom.
Segundo o psicólogo João Paulo, a ausência paterna influência na crença de abandono, tornando a criança suscetível a situações de baixa autoestima, dificuldade de relacionamento ou dependência emocional devido à privação afetiva.
PRESENÇA
“A ausência paterna é um fenômeno que ocorre em duas vertentes: a primeira quando a pessoa se exime de seu dever enquanto provedor, a segunda é quando somente se atém a tal compromisso, se isentando de uma participação afetiva. Esse segundo é resultado de uma construção sócio-histórica que impõe à figura paterna a ação de garantir o sustento e a formação moral”, explicou.
“Para a mãe, os cuidados domésticos e afetivos foram lidos como seu campo de ação. O afeto paterno é uma réplica do afeto masculino. Na sociedade onde vivemos, diz-se ser da natureza do homem ser menos ou quase nada afetivo, o que não é uma verdade. Se assim fosse, não teríamos a capacidade de produzir hormônios que nos aproxima afetivamente de nossas crias”, completou João Paulo.
De acordo com Tom Carvalho, estar presente nos momentos importantes da filha é sua prioridade. Além disso, o designer faz questão de incluir Sophia em seus hobbies e compartilhar com ela momentos de lazer.
“Apesar de eu ter uma rotina de trabalho muito puxada, eu consigo trazê-la pra minha vida com as coisas que eu gosto e participar muito da rotina dela também, com as coisas que ela gosta. Possuímos hobbies e muito gostos em comum, o que faz a nossa ligação ser muito forte, já que quase sempre brincamos juntos, fazemos maquetes juntos, assistimos os mesmos seriados e filmes juntos, vamos ao estádio ver nosso CSA juntos, gostamos de documentários e história das coisas e assistimos juntos. Achei uma parceirinha ideal para todos os meus devaneios e acredito que ela pense o mesmo para comigo em ter um parceiro, além de pai, para os diversos experimentos dela”, disse ele.
APRENDIZADO DIÁRIO
Sem romantizar a paternidade e aprendendo diariamente a lidar com a rotina de um bebê, Jorge Fernando, pai do Otto de 10 meses, conta que sempre desejou ser pai e que o filho era muito esperado.
“Estávamos na fila de adoção desde 2017. Otto chegou em abril de 2022, trabalhamos muito a nossa mente para não adoecermos com a ansiedade. O exercício da paternidade sempre fez parte do nosso relacionamento, planejamos ter filhos desde o início do relacionamento, em 2010”, contou ele. Iniciando a vivência de ser pai e dividindo o papel da paternidade com o esposo, Jorge afirma que o pequeno Otto será criado a partir das ausências que teve na infância.
“Nosso filho terá a base de 02 homens gays, terá a visão do mundo a partir da nossa ótica. Passaremos os valores a partir do que não tivemos enquanto criança. Ser pai LGBTI+ é um desafio dobrado. Há uma mudança de rotina, de visão de mundo, e são adicionados os planos do futuro, não há subtração, apenas somatório”, finalizou ele.
* Sob supervisão da editoria da Revista Maré