PROTAGONISTAS
Mulheres artistas contam como utilizam a arte para empoderar
Artistas contam como fazem da sua arte uma ferramenta de diálogo e combate ao machismo
Lidando diariamente com as tentativas de silenciamento, atitudes machistas e resistindo para ocupar os espaços, a chegada do mês de março, considerado como o Mês das Mulheres devido ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8, é para muitas um momento de reflexão e pedido de respeito.
Buscando alternativas para driblar obstáculos e assumir seus lugares na sociedade, diversas mulheres utilizam da arte para dar voz aos corpos femininos. Dentro das mais variadas áreas, artistas se destacam fazendo ecoar as dores, vitórias e rotina das mulheres.
Seja na música, no teatro, na escrita ou no audiovisual, elas encontram ideais e desejos que entrelaçam suas histórias para além das artes. Com toda “romantização” existente em cima do 8 de março e as palavras de empoderamento das mulheres, muitas vezes vindas dos homens, que se perdem no final do dia, elas sonham com uma sociedade mais livre, respeitosa e com equidade.
Apaixonada pelo mundo percussivo desde a adolescência, a artista e percussionista Manu Preta é uma das alagoanas que precisa ir de encontro aos ideais machistas enraizados no cotidiano. Desde nova, quando conheceu, em épocas diferentes, a bateria e os tambores, mesmo sem ter referências femininas que tocavam os instrumentos e vendo apenas homens dominando o espaço, Manu insistiu em aprender e resistir, tornando-se hoje uma referência para novas gerações de meninas percussionistas.
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A artista conta que adentrou o universo artístico e busca sempre trazer para perto e incentivar meninas que têm vontade de fazer parte do mundo da música, principalmente com o recorte da percussão.
“Meu objetivo é mostrar a elas que é possível chegar lá, mesmo estando em um Estado onde é nítido que o universo percussivo musical ainda é muito patriarcal e machista. Quando eu comecei a me interessar pela percussão, eu não tive nenhuma mulher em que eu pudesse me espelhar, ter como referência, fui construindo meu caminho, me tornando a minha referência. Hoje, que já conquistei alguns espaços, eu posso ver esse cenário mudar e ser a referência para as mais novas”, conta Manu.
A atriz, arte-educadora e “artivista”, Ticiane Simões utiliza sua arte como ferramenta de “diálogo, de guerra e de ponte”, tudo para driblar os obstáculos do machismo e dar voz às mulheres.
“A arte pode tudo, embora não seja seu papel poder. Acho que eu a uso como ponte para a abertura de diálogo, acho que é o diálogo que conscientiza, a arte que pratico, é mera ferramenta para ele, é como eu sei fazer, é o que tenho para usar e uso demasiadamente sempre que posso”, diz ela.
Ticiane acredita que sua arte sempre esteve atrelada a suas vontades, a busca por um lugar melhor para si e para seus pares. Cultivando em si mesma o poder trazido pela força da ancestralidade, a artista revela que lê sobre mulheres que a antecederam e, mesmo conseguindo sentir as angústias e violências sofridas, também consegue enxergar avanços e se apegar às possibilidades de entregar para próxima geração um passo mais adiante.
Quem também vive os desafios de ser uma mulher transfeminista é a atriz e escritora Isis Florescer. Ela tem semeado ensinamentos sobre letramento de gênero, visando educar e conscientizar para o respeito, a cidadania e a equidade, emancipando a sociedade para uma convivência pacífica.
De acordo com Isis, mesmo lidando com lutas constantes, felizmente as novas pesquisas têm incentivado e mostrado que muitas mulheres artistas contribuem historicamente no desenvolvimento das artes.
“Presenciamos, no último século 20 e agora no século 21, uma expansão das questões de gênero sendo debatida nas artes, pois a mulher passou a protagonizar os processos e os meios de criação. Deixou de ser apenas uma ‘musa inspiradora’ e passou a se engajar em todo o sistema da criação. Quando uma mulher ocupa um papel de relevância no segmento artístico, ela, por si só, já abre caminhos para que as questões de gênero venham para o centro do debate”, destacou.
Fundadora do Ateliê Ambrosina, artista visual e realizadora audiovisual, Bruca Teixeira vem através da arte proporcionando ações artísticas que vão além do cunho estético e promovem reflexões a partir das perspectivas de mulheres e pessoas LBTs.
“Minha arte vem de um ‘artivismo’, que é uma arte que movimenta o pensamento crítico, que de alguma maneira é atravessada por uma vontade de uma equidade de gênero e de visibilidade de questões que são muito caras para gente, que atravessam nossos corpos, como, por exemplo, a gordofobia, a lesbofoia, a questão das mulheres idosas e muito mais”, explicou.
Bruca afirma que a arte é uma revolução em sua vida e que, por meio dela, é possível desconstruir as corporalidades, os gêneros e construir novas narrativas, além de apresentar um novo modelo de mulher, gênero e sexualidade dentro do debate contemporâneo.
“Os espaços já são e estão sendo ocupados pela rebeldia de todas as mulheres que, durante muito tempo, ficaram fora da história da arte e dos espaços públicos de poder. A equidade de gênero dentro das artes, principalmente das visuais, que sempre tiveram como destaque os homens brancos e da elite, é algo que sempre nos foi silenciado e que nos importa, além de ser um grande vetor de mudança”, continua Bruca ela.
“Todo homem deve estar envolvido na quebra do machismo no nosso cotidiano, mas falar sobre isso em um lugar de poder e visibilidade, não. Esses lugares de fala devem ser ocupados por nós!”, conclui.
*Sob supervisão da editoria da revista Maré