MODA AFRO
Vestir é resistência
Marca alagoana celebra a ancestralidade e o protagonismo negro, fortalecendo a autoestima através da moda


Há roupas que transmitem mensagens, e nada é mais poderoso do que se identificar com peças que dialogam com as próprias raízes. Ao celebrar a ancestralidade e o protagonismo negro, a marca afrocentrada Divinas Pretas preenche uma lacuna no mercado. Com uma comunicação positiva e livre de estereótipos, seu maior objetivo é elevar a autoestima de quem a veste.
A Divinas Pretas (@divinaspretas.mcz) nasceu em 2017, originalmente voltada à maquiagem para pele negra. Em 2021, o negócio se expandiu e tornou-se uma marca de moda. Da mesma forma que ocorria no mercado da maquiagem, faltava destaque para a moda afro no estado.
Para a empreendedora, as roupas comunicam quem somos antes mesmo da fala. As peças, que unem identidade e elegância, homenageiam com orgulho as mulheres pretas alagoanas e suas raízes. “Quando a população negra se vê representada de forma positiva, sofisticada e respeitosa, isso impacta diretamente na autoestima e na construção da identidade”, explica a idealizadora Rosilea Viana.
Rosilea se define como “uma mulher que carrega histórias, desafios e conquistas comuns a muitas mulheres negras brasileiras”. Ela compreendeu que poderia ressignificar e transformar essa trajetória em um negócio que acolhesse pessoas que compartilham das mesmas vivências. Assim, a marca é fruto de uma força coletiva, construída a partir do diálogo constante com outras mulheres negras que inspiram, consomem e fortalecem a Divinas Pretas.

Moda é comunicação, e há marcas que não se dão conta da força que carregam quando atendem a esses chamados sociais, de transmitir mensagens de orgulho e valorização cultural. Já a Divinas Pretas entende a moda como uma ferramenta de cura simbólica.
A influenciadora e consultora de letramento racial e gênero, Tainara Ferreira (@intelectual_influencer), explica que o modo de se vestir é um posicionamento. Por meio da moda, é possível promover uma abordagem decolonial e contribuir para o fortalecimento da identidade negra.
Em seu projeto “Descolonizar o olhar na moda e estéticas negras”, Tainara troca conhecimentos com estilistas de Moçambique e Guiné-Bissau, discutindo a moda como linguagem política: “É importante que, dentro desse processo criativo, sabendo que a colonialidade nos permeia e deturpou as nossas narrativas , os estilistas busquem o resgate desses símbolos e desses signos”, diz.
Alagoas é África. Mesmo diante do apagamento estrutural, os elementos herdados da presença africana estão em toda parte, e não é preciso ser muito observador para sentir essa conexão, na linguagem, no artesanato, na música ou na culinária.

Rosilea conta que cada vestimenta carrega esse encontro entre Alagoas, a África e a contemporaneidade. O resultado é uma moda que é, ao mesmo tempo, local e universal: “Ela se encontra com a estética afro na valorização do feito à mão, nas texturas, nas cores, nos ritmos e na força do nosso povo. Referências como o artesanato local, o litoral, os terreiros, as manifestações populares e a musicalidade dialogam com elementos da ancestralidade africana”.
As cores quentes, vibrantes e os padrões geométricos são verdadeiras histórias estampadas que nos convidam a uma viagem pelo continente africano. Símbolos de resistência, as estampas representam saberes ancestrais. Entre as mais conhecidas e presentes nas peças da Divinas Pretas estão os Adinkra: um conjunto de ideogramas que representam provérbios africanos, como o Sankofa — pássaro que volta a cabeça à cauda, simbolizando o ato de retornar ao passado para resgatar o que é essencial e construir um futuro melhor.
Já o tecido Samakaka, patrimônio de Angola, carrega significados em suas cores fortes, como o vermelho, que simboliza o sangue e a luta do povo. Além das estampas, o diferencial também está nos modelos, fluidos e longos e assimétricos, que também remetem à tradição ancestral.
Na 45ª edição da Noite da Beleza Negra — concurso do Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil — Tainara Ferreira usou um look da marca Divinas Pretas e refletiu sobre como o senso de pertencimento é reforçado por peças que valorizam sua ancestralidade.

“A partir desse movimento, e como a arte é um processo que reverbera de dentro para fora, é importante que a gente não apenas nomeie a moda afro, mas que estejamos apropriados das nossas insígnias”.
Além da falta de visibilidade e das dificuldades de acesso a investimentos, a moda afrocentrada ainda é vista com estranhamento ou de forma exótica, não ocupando espaço nas grandes lojas de fast fashion.
Como marca consciente e slow fashion, Rosileia conta que os planos para o futuro são o crescimento sustentável da Divinas Pretas, com a ampliação de coleções, o fortalecimento do e-commerce e a presença em outros mercados.
“Consolidar a Divinas Pretas como referência em moda afrocentrada de alto valor agregado, promovendo experiências, eventos e colaborações que celebrem a cultura negra. O futuro da marca é coletivo, próspero e profundamente conectado com nossas raízes”.
A empreendedora esclarece: a moda afrocentrada não é nicho, é potência econômica e cultural. “Cada desafio reforça a importância do nosso trabalho e a necessidade de fortalecer redes, narrativas e negócios liderados por mulheres negras em Alagoas”, finaliza.
