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VOLUNTARIADO

Muito além do dinheiro: o poder de se doar

Histórias de quem doa revelam o poder do cuidado, da escuta e da presença

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Imagem ilustrativa da imagem Muito além do dinheiro: o poder de se doar
| Foto: Cortesia

“Terças do Amor”. É assim que os voluntários apelidaram o dia de preparar e entregar refeições para pessoas em situação de rua. O nome já diz tudo: tal gesto é um ato de amor recíproco. Abrir um espaço na agenda para doar tempo, presença e escuta contribui tanto quanto o apoio financeiro. Existe uma ideia limitada sobre o que é doação, mas não são necessárias quantias extravagantes de dinheiro; na verdade, não faltam formas de colaborar — o que não pode faltar é a vontade de fazer a diferença.

“Para mim, nós recebemos muito mais do que doamos”, relata a assistente administrativa Rafaela Leão, de 41 anos, voluntária na Casa Tuca. Ela conheceu o projeto por meio de uma amiga e, desde então, comparece a todas as “Terças do Amor” para o preparo e a entrega de alimentos. Rafaela reforça que muitas pessoas ainda acreditam que doar envolve unicamente dinheiro, sem perceber que essa é apenas uma pequena parte do significado.

“Quando participamos de trabalhos voluntários, não estamos apenas doando nosso tempo. Estamos oferecendo conforto, atenção, carinho e presença. É uma forma de dizer: ‘estamos aqui, vemos você’”, conclui.

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| Foto: Cortesia

Atendendo cerca de 300 famílias, o propósito da Casa Tuca é transformar realidades. A associação beneficente, localizada no bairro do Vergel, valoriza a prática do voluntariado ativo. Para o coordenador da instituição, Sérgio Timóteo Gomes, de 56 anos, a presença do voluntário é fundamental para que o trabalho social aconteça de forma mais humana. “O voluntário não apenas ajuda nas atividades, mas também contribui para fortalecer a missão da Casa Tuca: apoiar as famílias e crianças da comunidade”, conta.

Além do preparo de refeições, os colaboradores podem doar algo de valor inestimável: o conhecimento; orientando crianças da comunidade em aulas de reforço escolar, inglês, judô, jiu jitsu, capoeira, futebol e tênis.

Desde maio de 2024, João Vitor Cavalcante ministra aulas de judô na instituição. O esporte teve um papel importante em sua vida, e o ajudou a superar momentos delicados. Hoje, na Casa Tuca, ele vê a oportunidade de mudar outros destinos, retribuindo o que outras pessoas fizeram por ele anos atrás. “Eu sinto uma sensação de dever cumprido e de que o que estou fazendo está fazendo uma diferença, não só para determinada criança, mas para a família dela como um todo. Se eu fizer diferença na vida de uma só criança, pra mim já vale, porque eu mudei todo o mundo dela, por mais que eu não vá mudar todo o mundo”, relata.

A psicóloga Ana Maria Santos Barbosa, de 62 anos, também é voluntária nas “Terças do Amor”. Aposentada, ela incluiu o voluntariado em sua rotina há três anos e observa benefícios tanto para si quanto para a comunidade. Além de desenvolver novas habilidades e aumentar a autoestima, a prática de ajudar o próximo atribui um novo significado à vida.

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| Foto: Cortesia

“Eu acho isso muito importante. Quando chegamos lá, às vezes encontramos crianças que já vêm logo nos abraçando. Nesse abraço e no acolhimento, vemos a necessidade de atenção que elas têm; por isso é tão valioso”, destaca.

Muitos ainda têm uma visão pequena sobre o que é doar, mas há muitas maneiras de ajudar. Ana reforça que para começar é simples: “A gente sempre tem uma horinha disponível na nossa agenda que dá para encaixar o trabalho voluntário. Às vezes, eu acho que a dificuldade para algumas pessoas é achar que tem que já começar doando muito, Uma quantia maior ou uma hora mais prolongada, mas não é assim”, fala.

Sobre a rotina das terças-feiras, ela explica que os colaboradores chegam às 15h para o preparo, que segue até as 17h30. A entrega dos alimentos ocorre das 18h30 às 21h, em ruas e praças da cidade. “Pode ser feito uma vez por semana. Muita gente diz que não vai por falta de tempo, mas há tarefas que levam apenas duas ou três horas, como o preparo, por exemplo”, conta.

Embora a falta de tempo seja a justificativa de muitos, compartilhar informações, doar itens ou participar de eventos pontuais de arrecadação são alternativas eficazes para promover a cultura da doação.

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| Foto: Cortesia

Assim como Ana mencionou, o voluntariado ativo gera impactos psicológicos positivos para quem doa — ou melhor, para quem se doa. O psicólogo Carlos Gonçalves explica que a atividade estimula a construção de um propósito de vida ao permitir que o indivíduo enxergue o impacto direto de suas ações e se conecte a algo maior que seus interesses individuais.

“Eu faço a diferença na vida de alguém. Essa frase tem um efeito muito poderoso na construção de pessoas que buscam, por meio dessa ajuda ao outro, uma forma de autoajuda”, explica.

O voluntariado tem muito mais coisas positivas do que negativas, mas algumas questões negativas também devem ser pontuadas: os voluntários que atuam em casos mais emergentes podem se sentir sobrecarregados emocionalmente e impotentes ao lidar com o sofrimento alheio.

Ao doar presença e escuta, conceitos como justiça, cuidado e solidariedade deixam de ser abstratos. Ouvir alguém ou doar sangue pode impactar mais a saúde mental do que a contribuição financeira, pois o contato físico proporciona conexão humana real e resposta emocional direta.

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| Foto: Cortesia

SANGUE

A doação de sangue é outra iniciativa vital. Mesmo sendo um procedimento rápido e simples, os hemocentros sofrem com a escassez de estoque. Casos diários de pacientes que necessitam de bolsas para cirurgias ou hemodiálise sensibilizam voluntários a abraçar a causa.

Wellington Cavalcante doa sangue ao menos duas vezes por ano, mas planeja aumentar a frequência para quatro. Sempre que pode, ele realiza o procedimento, divulga a importância e estimula outras pessoas. Para ele, é um gesto de empatia. “Na minha visão, é de extrema importância. Tenho consciência social da necessidade de sangue e plaquetas para procedimentos cirúrgicos e emergências pós-acidentes”, afirma.

Em quadros de ansiedade e depressão, o voluntariado pode auxiliar ao gerar sensação de bem-estar, senso de justiça e empatia, além de estabelecer uma rotina saudável. O psicólogo explica que essa é uma forma de tirar o foco do sofrimento interno e olhar para a dor do outro. Pequenas conquistas como ajudar, conversar e acolher aumentam o senso de utilidade, estimulam a interação e combatem o isolamento. No entanto, é fundamental ressaltar que nenhuma dessas ações substitui o acompanhamento de psicólogos e psiquiatras, funcionando apenas como uma alternativa que contribui para a melhoria do quadro.

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| Foto: Cortesia

Blandine Godoy é professora de reforço na instituição, ao saber que precisavam de voluntários para essa atividade, percebeu que seria a oportunidade ideal de doar seu tempo, já que tinha experiência em ensinar seu filho em casa.

A experiência como voluntária mudou a vida dela, que entendeu que pequenas ações podem produzir grandes resultados. O mais importante é plantar a semente: “Fico muito feliz assim de ver que uma gotinha no oceano pode fazer uma grande diferença”.

No início, ao ministrar as aulas de matemática, se sentia insegura, não sabia se estava realmente causando melhorias. No entanto, esse sentimento se transformou em felicidade quando recebeu a notícia que os alunos melhoraram o desempenho escolar: “Meu coração se encheu de alegria”.

Muito mais que uma voluntária, ela reforça que, nesse elo, torna-se uma figura de apoio. Trabalhar a autoestima e a autoconfiança de crianças, especialmente as mais vulneráveis, é fundamental para o progresso nos estudos. “Acredito que o simples fato de saberem que têm um apoio, caso precisem, já é um ganho imenso”, afirma.

Na doação do saber a recompensa é algo indescritível: o carinho genuíno dos alunos. “Eu percebo que eles recebem a ajuda que ofereço com o coração muito aberto e com os olhinhos sempre curiosos querendo entender um pouquinho mais”, finaliza Blandine.

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