loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 11/04/2026 | Ano | Nº 6201
Maceió, AL
26° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Maré

SEM TEMPO LIVRE

Pequenos, mas esgotados

Burnout infantil tem afetado crianças e adolescentes com rotinas intensas e pressão escolar; especialistas alertam para que pais e educadores fiquem alertas aos sinais

Ouvir
Compartilhar
Imagem ilustrativa da imagem Pequenos, mas esgotados
| Foto: Freepik

Ainda é comum a percepção de que o esgotamento extremo é um problema restrito à vida adulta, ligado a rotinas de trabalho intensas e à pressão profissional. No entanto, especialistas têm alertado para uma realidade cada vez mais presente no Brasil: crianças e adolescentes também vêm apresentando sinais associados ao Burnout.

O fenômeno, que antes parecia distante da infância, ganha força em um contexto marcado pelo uso excessivo de telas, agendas cheias e estímulos constantes, sem tempo para o ócio ou a brincadeira livre. Irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e desinteresse por atividades antes prazerosas estão entre os sinais que mais chamam a atenção de pais, educadores e profissionais da saúde.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que uma em cada sete crianças no mundo enfrenta algum transtorno mental relacionado à tecnologia e é fato que o excesso de estímulos digitais tem interferido diretamente no desenvolvimento emocional de menores de idade, criando um estado contínuo de alerta e fadiga mental. A ausência de pausas adequadas, somada à pressão por desempenho escolar e social, muitas vezes reforçada pelas redes sociais, contribui para esse cenário. Especialistas destacam que o problema não está apenas no tempo de tela, mas na falta de equilíbrio entre atividades online e experiências essenciais, reais, como brincar ao ar livre, ter contato com a natureza, desfrutar de momentos em família e descansar de forma adequada.

Imagem ilustrativa da imagem Pequenos, mas esgotados
| Foto: Freepik

Apesar do cenário preocupante, o burnout infantil tem tratamento e pode ser revertido com acompanhamento adequado. O primeiro passo é observar mudanças no comportamento e buscar orientação com profissionais como psicólogos, pediatras e psiquiatras infantis.

A intervenção costuma envolver reorganização da rotina, redução do tempo de tela, fortalecimento dos vínculos familiares e, quando necessário, acompanhamento terapêutico. Quanto mais cedo os sinais forem identificados, maiores são as chances de recuperação e de desenvolvimento saudável.

A IMPORTÂNCIA DA ROTINA

A psicóloga clínica e escolar Fabíola Freitas destaca que a rotina é essencial para que a criança tenha previsibilidade, mas isso não significa que tem que ter todos os horários preenchidos com atividades direcionadas. “A criança precisa de tempo para brincar livremente, tempo para o ócio e também para as obrigações correspondentes a cada faixa etária. O esgotamento vem justamente do excesso”, pontua.

Ela diz que, de uma maneira geral, as telas são utilizadas com o objetivo de fazer com que a criança fique ‘quieta’, mas a verdade é que o cérebro dela continua em pleno funcionamento. Diante disso, o uso excessivo das telas pode acabar sobrecarregando a função cerebral, culminando em um esgotamento.

Psicóloga alerta para os riscos de uma rotina cheia, sem descansos
Psicóloga alerta para os riscos de uma rotina cheia, sem descansos | Foto: Freepik

Os pais devem ficar atentos aos pequenos sinais. A falta de interesse pelas brincadeiras livres e pelos parquinhos já deve acender um alerta. “A desorganização emocional relacionada ao período em que pausa o uso das telas também é sinal de alerta. Pelo fato de o problema afetar crianças das mais diferentes idades, o olhar também deve estar voltado para a forma como as telas estão sendo utilizadas”, completa.

Após identificados os sinais de alerta, é fundamental que os pais ou responsáveis procurem ajuda profissional, dialogando com o pediatra da criança e buscando o apoio de psicólogos. Sempre que se fizer necessário, também é importante buscar a avaliação de um psiquiatra e de um neurologista infantil.

“Toda criança necessita de previsibilidade, então um primeiro passo importante é criar uma rotina para ela, lembrando que, aqueles que têm mais de um filho devem criar uma rotina para cada um deles, tendo em vista que são pessoas diferentes e com necessidade diferentes também. Após a criação da rotina, é fundamental considerar o que é preconizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria no que diz respeito à necessidade do brincar livremente e ao tempo máximo de exposição a telas, para que essas atividades sejam inseridas respeitando o processo de desenvolvimento da criança. Por fim, os pais devem lembrar que as crianças precisam de carinho e firmeza para, assim, encontrarem o equilíbrio no processo de educação”, afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Pequenos, mas esgotados
| Foto: Freepik

O psiquiatra Wilson Zielak explica que o Burnout infantil é, na verdade, uma adaptação do conceito de Burnout adulto, caracterizado por exaustão emocional e física devido a estresse crônico prolongado. Ele ressalta que a doença não possui reconhecimento formal como diagnóstico médico específico pela OMS ou CID-11, que classifica o Burnout clássico como ocupacional (QD85).

A cronicidade é uma das características dessa versão da doença, ou seja, o comportamento marcado pela irritabilidade e por outros sintomas persiste mesmo após o descanso e os momentos de pausa.

“Os principais sinais incluem cansaço extremo persistente, irritabilidade, choro frequente, desinteresse em brincadeiras, dificuldades de concentração, problemas de sono, dores de cabeça ou barriga, isolamento social e alterações no apetite. Diferencia-se de cansaço comum ou estresse passageiro pela cronicidade, intensidade desproporcional e presença de sintomas emocionais densos que persistem mesmo após repouso”, afirma.

Como consequência dos sintomas, estão a interferência no sono e a dificuldade de socialização e equilíbrio emocional. “Esses elementos criam sobrecarga crônica, agravada pela falta de tempo para brincar e descanso”, diz o psiquiatra.

Segundo o especialista, esse tipo de problema pode aparecer em qualquer fase da infância, mas é mais relatado em crianças do ensino fundamental e adolescentes, devido à pressão acadêmica crescente. Por isso é importante que pais e educadores estejam de olho no comportamento dos pequenos, acendendo o alerta a qualquer mudança mais brusca.

Imagem ilustrativa da imagem Pequenos, mas esgotados
| Foto: Freepik

“Pais e professores podem notar falta de energia para atividades diárias, queda no rendimento escolar, mudanças de humor bruscas e queixas físicas recorrentes, observando se persistem apesar de pausas. Diálogo aberto e monitoramento de rotinas ajudam a detectar sinais silenciosos precocemente”, destaca o psiquiatra Wilson Zielak.

Ele diz ainda que o Burnout infantil afeta emocionalmente as crianças e adolescentes com baixa autoestima e ansiedade; socialmente com isolamento; e cognitivamente com dificuldades de concentração e queda no aprendizado. Tudo isso pode comprometer vínculos familiares e habilidades futuras de regulação emocional.

A abordagem principal para tratamento é a psicoterapia, como cognitivo-comportamental ou psicoeducação, com redução de demandas e suporte familiar. “A medicação, como ansiolíticos, é rara e só deve ocorrer em casos com comorbidades graves, sempre combinada com terapia”, esclarece.

Ele completa falando sobre a importância de estabelecer rotinas equilibradas com pausas, sono adequado, de 9 a 12 horas por dia, atividades físicas, limite de telas, 1 a 2 horas por dia, e priorização de brincadeiras livres sobre extras. “Um limite saudável é uma a duas atividades extracurriculares por semana, garantindo tempo offline e familiar. Além disso, é fundamental incentivar a escuta emocional e valorizar o esforço sobre resultados”, conclui.

Relacionadas