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DE VILÃS A ALIADAS

Como as novas dinâmicas familiares têm mudado a relação com as sogras

Respeito, limites e parceria redefinem o convívio entre elas e os filhos, noras e genros atualmente

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Francisca fala sobre o bom convívio que tem com Igor e Izabelle, que são companheiros dos filhos dela
Francisca fala sobre o bom convívio que tem com Igor e Izabelle, que são companheiros dos filhos dela | Foto: Arquivo pessoal

Durante décadas, a figura da sogra foi retratada como sinônimo de conflito, controle e intromissão. Um estereótipo reforçado pelo humor popular, filmes e novelas que ajudaram a fortalecer essa imagem no imaginário coletivo. Mas, fora da ficção, essa caricatura começa a perder espaço. Em um contexto de famílias mais diversas, relações menos hierárquicas e maior autonomia das mulheres e dos casais, o papel da sogra vem sendo ressignificado, deixando para trás o pensamento da disputa para dar lugar a vínculos equilibrados.

Hoje, é comum encontrar histórias em que sogras, noras e genros constroem relações baseadas em respeito, parceria e até amizade. Em muitos casos, elas se tornam figuras fundamentais na rede de apoio familiar, seja no cuidado com os netos, no suporte emocional ou na colaboração com a rotina da casa. Longe do estigma da rivalidade, essas relações revelam um novo arranjo afetivo, em que o convívio é marcado menos por tensão e mais por diálogo e cooperação.

Essa mudança também passa por transformações no perfil dessas mulheres, que hoje chegam à posição de sogra com trajetórias marcadas por independência financeira, vida profissional ativa e maior abertura ao diálogo. As sogras de hoje trabalham - ou já se aposentaram -, estudam, frequentqam a academia, gerem negócios. No pouco tempo livre que encontram, querem usufruir em harmonia com a família.

A aposentada Francisca Araújo, de 61 anos, mãe de Anísio Lima, de 31 anos, que é casado com Igor, e João Victor, de 26, casado com Izabelle, é um exemplo de como a relação entre sogra, noras e genros pode se construir de forma leve e colaborativa.

“Temos uma relação muito boa, de conversa, de sairmos juntos e de muito respeito”, conta.

Segundo ela, o vínculo de confiança não surgiu de forma imediata, mas foi resultado de uma convivência contínua. “A confiança e o vínculo são construídos dia após dia e pequenos gestos são determinantes para que a relação se estreite e fique mais forte”, diz

Ela lembra que, quando conheceu os parceiros dos filhos, suas preocupações não estavam ligadas à convivência familiar em si, mas a fatores externos. No caso do filho mais velho, Anísio, casado com Igor, o receio era o preconceito. “Nosso país ainda é muito conservador e nenhuma mãe quer ver seu filho sofrer. Graças a Deus, nunca experienciamos isso” diz.

A convivência com os companheiros dos filhos trouxe muitas surpresas positivas e Francisca destaca a admiração que tem pelo genro e pela nora. “Notei que tanto o Igor quanto a Izabelle são parceiros que somam, que impulsionam e têm a mesma mentalidade dos meus filhos, que sempre se dedicaram muito ao trabalho e aos estudos”, destaca.

Francisca conta que ama recebê-los em casa para almoçar e se sente completa e realizada quando isso acontece. Para Francisca, o papel de sogra vai além do estereótipo tradicional e assume contornos mais flexíveis.

“Às vezes me torno conselheira, por já ter vivido mais, mas sempre respeitando o espaço de cada um. Ser sogra é ser amiga, é saber respeitar os limites. Espero estar bem distante daquele estereótipo da sogra controladora”, afirma, com bom humor.

Na avaliação dela, relações como a que tem com a nora e o genro contribuem diretamente para mudar a imagem cultural da sogra. “Já se foi o tempo em que a sogra era mal vista, era alguém que incomodava ou se metia demais. Com respeito e educação, as coisas se ajeitam. Estou presente quando eles me procuram para conversar ou pedir opinião”, pontua.

Flávia tem Carol como filha e mantém uma relação com ela independentemente do relacionamento com Hugo
Flávia tem Carol como filha e mantém uma relação com ela independentemente do relacionamento com Hugo | Foto: Arquivo pessoal

Outra história que reforça essa mudança de perspectiva é a da contadora Flávia Porfírio, de 46 anos, mãe de Hugo, de 26, e sogra de Carol, de 27 anos. Para ela, a relação construída ao longo do tempo ultrapassa qualquer formalidade tradicional.

“Hoje, eu descreveria nossa relação como sendo de muito amor, respeito e parceria. Pra mim, ela é como uma filha”, afirma, ao falar da Carol. Flávia destaca que esse vínculo foi sendo construído com cuidado e autonomia. “A gente respeitou o espaço uma da outra e, principalmente, construiu uma relação independentemente do Hugo”.

O fortalecimento da confiança, segundo ela, aconteceu de forma natural, a partir da troca genuína. “Começamos a dividir assuntos pessoais que não tinham nada a ver com o relacionamento dela com meu filho. Foi algo dos dois lados”, afirma.

Assim como em outras famílias, o respeito aos limites é apontado como essencial para o bom convívio. “Eu sou mãe, ela é namorada. Não existe competição, pelo contrário. Isso só fortalece a união. Não me intrometo no relacionamento deles. Dou opinião apenas quando sou solicitada e procuro sempre ver os dois lados. Não existe isso de meu filho ter sempre razão”, explica.

A convivência entre ela e Carol vai além das datas comemorativas e se estende ao cotidiano. “Aniversários, Dia das Mães e Natal passamos juntos, mas o dia a dia é ainda mais importante. A gente sai, vai à praia, algo que nós duas amamos e o Hugo não. E fazemos programas só nós duas, às vezes até com a mãe dela, que é sogra do meu filho e se tornou uma amiga”, revela.

Para Flávia, essa relação rompe com o modelo tradicional de sogra. “Construímos uma amizade, com carinho de verdade. Temos interesses parecidos, conversamos muito. Eu me interesso por ela como pessoa, não só como parceira do meu filho. Não tive boas experiências com sogras, mas sempre quis ser diferente. Só que isso também depende dos dois lados. Minha nora é maravilhosa, sempre me respeitou e me tratou bem. Essa relação foi construída juntas”, fala.

Ao refletir sobre o significado de ser sogra hoje, Flávia resume de forma direta: “É como ganhar mais uma filha. É saber que meu filho vai construir a família dele e que eu estarei presente para os dois. A ideia é somar”, conclui.

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