MODA
Sertão em alta: quando tradição vira estilo
Peças em couro, cores vibrantes e elementos da caatinga mostram a força da estética sertaneja
No mês em que se comemora o Dia do Sertanejo (3 de maio), a estética que carrega a essência do interior nordestino ganha ainda mais visibilidade e ocupa espaços que vão além das tradições. Dos coletes de couro às sandálias inspiradas no universo do “Xô boi”, a chamada moda sertaneja se fortalece como expressão cultural e identidade viva. Em Arapiraca, o ateliê Savana é um dos exemplos de como essa tendência vem sendo ressignificada por meio do trabalho artesanal.
À frente do espaço, a empreendedora Preysla Savana transforma referências do Sertão em peças únicas, marcadas por cores vibrantes, traços autorais e narrativas afetivas. Para ela, a influência do Nordeste não é uma escolha estética, mas parte de quem ela é.
“O Nordeste é muito rico em cultura, em histórias e em jeito de viver. A gente gosta de festa, de comida boa, de cor, de movimento… e tem muito essa capacidade de transformar o que poderia ser difícil em algo bonito, leve e cheio de significado. Acho que, por ser nordestina, isso já vem comigo de forma muito natural, sabe? Já tá entranhado mesmo (risos). E, querendo ou não, a gente acaba levando isso pra tudo que faz. É como se a alegria e a força do nosso povo sempre encontrassem um jeito de aparecer”, afirma.
A relação dela com o Sertão e o povo sertanejo se aprofundou durante os anos em que viveu em Delmiro Gouveia, no interior de Alagoas, experiência que marcou o início da sua trajetória criativa. “O Sertão representa muito pra mim. Morei por seis anos em Delmiro Gouveia, onde fiz faculdade, e foi um período muito marcante. Eu amava tudo por lá. A simplicidade das coisas, os passeios pequenos, mas cheios de significado. De repente, você olhava ao redor e tinha o Rio São Francisco te acompanhando no meio da caatinga, mesmo com o sol de rachar, eu amava aquela energia”, fala.
E foi em meio a esse cenário que surgiram suas primeiras criações. “Fui muito nova, cheia de sonhos, e foi a primeira vez que me vi sozinha, me descobrindo de verdade. E foi lá também que tudo começou: as primeiras camisetas que pintei, os sapatos que eu fazia intervenções, os colares de corda…pequenos começos que foram abrindo caminho. Por isso, o Sertão, pra mim, tem esse gostinho de início, de descoberta e de afeto”, conta.
No ateliê, elementos do cotidiano sertanejo aparecem de forma recorrente e ganham novas leituras. São peças de couro que remetem aos trajes sertanejos misturadas a pinturas feitas a mão, trazendo elementos que fazem referência à caatinga e ao Sertão.
“Do cotidiano sertanejo, eu destacaria muito as peças de couro, que têm uma presença forte na nossa cultura, junto com as pinturas que trazem elementos do bioma da caatinga. São referências que carregam história, identidade e traduzem bem a essência do lugar”, explica.
Mesmo com a associação frequente entre Sertão e seca, as criações de Savana são marcadas pelo uso de cores intensas. Para ela, isso reflete diretamente o modo de viver da região. “Traduzir o Sertão, pra mim, é algo muito natural. Porque, mesmo diante das dificuldades, as pessoas são acolhedoras, carinhosas e têm uma generosidade linda de dividir o pouco que têm com quem chega”, diz.
“O colorido vem justamente daí: dessa alegria simples, verdadeira. De fazer festa só pela chegada, de sentar para um cafezinho olhando o terreiro de casa. É uma leveza que não tem explicação, só se sente”, completa a artista e empreendedora.
As inspirações para as peças produzidas no ateliê vêm dos mais variados aspectos da cultura nordestina, da cultura à natureza. “Temos muitos artistas incríveis, cheios de história e identidade. Então é ir olhando, pesquisando, se permitindo conhecer, e ir extraindo o que tem de mais bonito: uma frase, uma cor, um elemento, as nossas festas, principalmente a de São João. E quando entra a natureza, então, nem se fala… é uma riqueza que parece não ter fim”, pontua Savana.
Entre as peças que mais representam essa identidade sertaneja estão as jaquetas de couro e os “Xô Touros”, que fazem referência direta à vida no Sertão. “É a identidade da lida do sertanejo, que precisa estar protegido, paramentado, para entrar na caatinga sem se machucar. E, pra mim, as jaquetas e as ‘xô touros’ [que são as xô bois com salto criadas pela Savana] trazem exatamente essa mesma referência. É como vestir uma armadura para enfrentar a lida do dia a dia”, fala.
O público que mais se identifica com o trabalho feito por Savana é formado por pessoas que valorizam o artesanal e a cultura regional, mas o alcance tem crescido, em um movimento que acompanha uma valorização cada vez maior da moda nordestina. “Percebo esse movimento na moda, principalmente valorizando quem faz o feito à mão. Ainda tem muito a melhorar, claro, mas acredito que estamos caminhando na direção certa”, diz.
Para Savana, a moda é também uma ferramenta de preservação cultural e, mais do que estética, o objetivo é provocar sentimentos.
“A moda é muito mais do que vestir uma roupa. É movimento, expressão, movimento e identidade. Eu quero que a pessoa se sinta feliz, que consiga externar a sua alegria só de estar vestida. Quero que ela se sinta mais forte, encorajada, mais autoconfiante, como se estivesse vestindo não só uma peça, mas um pouco de quem ela é”, diz Savana.
E, ao resumir o Sertão em forma de roupa, ela sintetiza sua própria proposta criativa:
“Seria uma peça carregada de história, força, perseverança e resistência. Vestir-se de si, ou melhor ainda, vestir-se de quem você é”, conclui.