SUPERAÇÃO
Negócios que nascem da dor: quando empreender é um recomeço
Mulheres transformam momentos de crise em novos caminhos profissionais em Alagoas
Quando percebeu que precisaria abandonar a rotina de eventos e começar hemodiálise imediatamente, Aline Frazão, de 49 anos, poderia achar que estava enterrando a própria carreira, mas ela decidiu se reinventar e, meses depois, começou a vender canetas pela internet, sem imaginar que aquele ato se transformaria em um símbolo de recomeço.
O que teve início como uma tentativa silenciosa de reorganizar a própria vida acabou se transformando em negócio. Histórias como a de Aline têm se repetido em diferentes lugares, onde o empreendedorismo surge menos como planejamento e mais como resposta a rupturas profundas. Em Alagoas, muitos são os pequenos negócios que nasceram com esse propósito e foram expandindo com o trabalho e a dedicação de quem está por trás deles.
Nos últimos cinco anos, período marcado pela pandemia e pelo pós-Covid, cerca de 15 mil pequenos negócios foram abertos em Alagoas, de acordo com dados do Sebrae. Entre eles, estão empreendimentos criados por pessoas que encontraram no empreendedorismo uma forma de reconstruir a vida, garantir renda e recomeçar após períodos de perda, adoecimento ou instabilidade.
Natural de Salvador, formada em matemática computacional e hoje morando em Maceió, Aline Frazão passou quase duas décadas trabalhando com eventos, em uma rotina intensa, marcada por celebrações e muitas festas. Até que a vida dela mudou completamente após um diagnóstico.
Sem sintomas aparentes, ela descobriu que tinha uma doença séria. “O médico disse: ‘você tem uma doença renal crônica terminal’. Aquilo significava que minha vida mudaria completamente”, relembra. Aline precisou interromper a carreira, iniciar sessões de hemodiálise e reorganizar toda a rotina. O transplante de rim veio seis meses depois do início do tratamento e, com ele, um novo olhar sobre trabalho, saúde e propósito.
“Depois do transplante, comecei a perceber que meu corpo precisava de um ritmo totalmente diferente. A área de eventos exige muita energia física e emocional, e chegou um momento em que continuar com aquela rotina já não era mais possível”, conta.
Foi nesse processo de reconstrução que nasceu a Cores e Fofuras, papelaria criada inicialmente no ambiente virtual, vendendo canetas e itens cheios de memória afetiva. “Depois de tudo que vivi com a doença renal e o transplante, comecei a buscar algo que me trouxesse leveza, propósito e felicidade no dia a dia”, diz a empreendedora apaixonada por itens de papelaria desde a infância.
As primeiras vendas aconteceram de maneira simples, pela internet e, aos poucos, foi criada uma comunidade de clientes que passaram a se identificar não apenas com os itens vendidos, mas com o sentimento por trás da marca. “Cada pedido enviado tinha um pedacinho da minha história”, pontua Aline, que hoje celebra a abertura da primeira loja física.
O caminho até aqui, porém, não foi simples. Além das limitações impostas pela doença e pelo transplante, a empreendedora precisou enfrentar inseguranças comuns para quem entra no ramo dos negócios. “Tive dias de medo, cansaço e dúvidas se eu realmente conseguiria fazer dar certo”, admite. Segundo ela, o apoio da família, das clientes e o aprendizado adquirido junto a instituições como o Sebrae foram fundamentais para estruturar o negócio.
Hoje, Aline vê a empresa como símbolo da própria reconstrução. “A Cores e Fofuras nunca foi só uma empresa para mim. Continuar significava provar para mim mesma que, mesmo depois de tantas dificuldades, eu ainda podia sonhar, criar e construir algo bonito. Antes, vivia tentando dar conta de tudo. Depois do transplante, aprendi que sucesso não é apenas conquistar coisas, mas ter qualidade de vida, equilíbrio e presença. Hoje vejo no empreendimento o meu recomeço, a minha força e a prova de que é possível transformar momentos difíceis em algo cheio de significado”, conclui.
Uma volta às origens cheia de propósito
Assim como Aline, a engenheira de petróleo Tatiana Nascimento, de 32 anos, também viu a própria vida mudar por meio do empreendedorismo, após uma perda familiar e um período de profundas transformações pessoais. Natural de Penedo, no interior de Alagoas, ela cresceu em meio à agricultura familiar e costuma dizer, com orgulho, que faz parte da terceira geração de agricultores da família. A infância foi construída no sítio dos avós, acompanhando de perto a rotina do campo, as feiras livres e a produção de frutas cultivadas no quintal.
Apesar da ligação afetiva com o campo, Tatiana seguiu outro caminho profissional. Mudou-se ainda muito jovem para a capital sergipana para estudar e se formou em engenharia de petróleo. “Foi um dos momentos mais desafiadores da minha vida. Eu tinha 16 anos, não conhecia ninguém e precisei aprender a me virar sozinha”, conta. Durante a graduação, ela passou a se aprofundar em pesquisas ligadas à sustentabilidade e ao aproveitamento de recursos naturais, experiência que, mais tarde, influenciaria diretamente sua trajetória empreendedora.
O retorno para Penedo aconteceu em um momento delicado da vida pessoal. A avó enfrentava problemas de saúde e Tatiana decidiu voltar para ficar mais próxima da família. Pouco tempo depois a matriarca faleceu e, em seguida, veio a pandemia da Covid-19. “Foi um período de muita reflexão, desaceleração e de valorização do que realmente importa”, afirma.
Naquele contexto de luto e mudanças, ela passou a olhar de forma diferente para a propriedade da família. O coqueiral existente no sítio era utilizado basicamente como área de pastagem para o gado e o coco produzido muitas vezes sequer era aproveitado. “Na pandemia, meu pai começou a vender o coco in natura de forma simples, mas era um processo muito limitado, com pouco retorno financeiro”, lembra.
Foi observando essa realidade que nasceu a ideia da Coco Bom, agroindústria familiar criada para transformar a produção da propriedade em uma fonte de renda estruturada. Antes da formalização do negócio, segundo Tatiana, ocorreu a venda da água de coco de forma improvisada, em garrafas reutilizadas de refrigerante. “Aquilo me fez perceber que existia potencial, mas faltava organização, estrutura e valorização do produto”, diz.
A criação da agroindústria marcou um novo começo profissional e emocional. O processo, no entanto, exigiu aprendizado constante. Tatiana precisou sair de uma realidade informal para entender como funcionava a estruturação de uma agroindústria, passando por exigências sanitárias, gestão financeira, legislação e organização da produção. “Foi e ainda é um processo de muito aprendizado. Busquei apoio em cursos, capacitações e tive um suporte importante do Sebrae nesse caminho”, relata.
Hoje, a Coco Bom gera três empregos diretos e também movimenta a economia local por meio da compra de cocos produzidos por agricultores da região. A distribuição acontece em diferentes cidades de Alagoas e o negócio continua em expansão, desenvolvendo novos produtos à base de água de coco, como os gelos gourmet, que são saborizados e acabaram influenciando, inclusive, o plantio de pitaia na propriedade, como estratégia de diversificação da produção.
Para Tatiana, mais do que uma fonte geradora de renda, o empreendimento representa a valorização das próprias raízes e da agricultura familiar. “Estamos falando de uma pequena propriedade do interior de Alagoas que foi sendo ressignificada aos poucos. Isso é desenvolvimento, geração de renda e futuro sem perder nossa essência”, destaca.
Ela também relata os desafios de ocupar espaço no agronegócio sendo uma mulher jovem. “No começo existe muita desconfiança e a sensação de que você precisa provar o tempo todo que é capaz. Isso exige persistência, estudo e dedicação”, afirma a jovem empreendedora, que integra o rol das mais de 105 mil mulheres à frente de cargos de liderança em empreendimentos de Alagoas, de acordo com dados da Junta Comercial do Estado de Alagoas (Juceal).
Enxergando a vida com outros olhos
A busca por algo que ajude a recomeçar após um episódio de sofrimento e dor é comum ao ser humano e, de acordo com o psicólogo Carlos Gonçalves, as experiências traumáticas costumam provocar nas pessoas uma espécie de ruptura profunda na forma como elas enxergam a própria vida.
“Transformar o sofrimento em um projeto profissional pode funcionar como uma maneira de ressignificar a perda, recuperar o sentimento de utilidade e construir a própria identidade após um momento difícil. Quando a pessoa cria algo a partir da própria dor, do próprio sofrimento, deixa de ocupar apenas o lugar de quem sofreu e passa a assumir o papel de quem constrói, cria e transforma. Isso não elimina o sofrimento e nem a dor, mas pode ajudar no processo emocional de reorganização da vida e de fortalecimento psicológico”, afirma o especialista.
Segundo a analista do Sebrae Alagoas, Érica Pereira, os negócios afetivos e autorais têm ganhado cada vez mais espaço, pois criam uma conexão emocional com o cliente e carregam autenticidade, algo que é bastante valorizado atualmente. “Os consumidores têm valorizado cada vez mais produtos e serviços com identidade, propósito e história. Muitas vezes, esses negócios surgem justamente de experiências pessoais, talentos desenvolvidos ao longo da vida ou processos de superação”, destaca.
Ela diz ainda que os maiores desafios para quem quer começar a empreender para recomeçar é a falta de conhecimento em gestão de negócio e que, diante disso, buscar capacitação é essencial.
“Muitas pessoas começam empreendendo a partir de uma necessidade, de uma dor pessoal ou até como forma de recomeço, mas nem sempre possuem experiência com planejamento, precificação, vendas, controle financeiro e divulgação. O primeiro passo é entender que paixão e talento são fundamentais, mas precisam caminhar junto com gestão. Quando a pessoa consegue unir propósito, organização e planejamento, as chances daquele negócio se tornar sustentável e gerar renda de forma consistente crescem muito”, completa.
Apesar de todas as dificuldades que enfrentou até aqui, Tatiana acredita que a experiência no empreendedorismo deu um novo propósito à vida dela, assim como acontece com muitas pesosas que entram no mundo dos negócios.
“A decisão que tomei não foi só sobre empreender. Foi sobre ressignificar o que vivi na infância, valorizar minha família e mostrar que o campo também pode ser um espaço de inovação, transformação e oportunidade”, reflete.