SAÚDE
Descoberta do autismo na vida adulta amplia compreensão sobre o espectro
Pais e mães que acompanham seus filhos em tratametos e terapias acabam se identificando com o espectro
O caminho para descobrir o autismo nem sempre começa na infância. Para muitas pessoas, a resposta surge apenas na vida adulta e, em diversos casos, vem através dos próprios filhos. Durante investigações, terapias e avaliações das crianças, pais e mães passam a reconhecer em si mesmos comportamentos, dificuldades e características que acompanharam suas vidas por décadas, mas que nunca haviam sido compreendidos.
Foi o que aconteceu com Katiuscia Viana, de 49 anos, terapeuta ocupacional. Mãe de Davi Viana, de 18 anos, diagnosticado com TEA nível 3, e Daniel Viana, de 17 anos, com TEA nível 1, ela não imaginava que a busca por respostas envolvendo a própria família acabaria revelando algo sobre si mesma.
A suspeita inicial, no entanto, não veio diretamente por causa dos filhos. Um amigo percebeu alguns comportamentos e sugeriu que ela buscasse ajuda profissional. “Um amigo sugeriu avaliação porque me achou desatenta em algumas palestras e acreditava que eu pudesse ter TDAH. Fiz uma avaliação neuropsicológica e todos os testes pontuaram para TEA. Depois levei para a psiquiatra, que fez uma avaliação detalhada e fechou o diagnóstico”, relata.
Receber a notícia não foi simples. Entre a confirmação médica e a aceitação pessoal, houve um processo marcado por medo e questionamentos. “Tive medo de mais exclusão, ainda mais depois de tudo que vivi como mãe de filhos autistas. Procurei fazer outras avaliações porque não aceitava o diagnóstico”, conta.
Foram cerca de três meses de terapia até que a compreensão começou a substituir a resistência. O diagnóstico deixou de ser visto apenas como uma definição clínica e passou a ser uma peça importante para entender sua própria trajetória.
“Comecei uma busca por autoconhecimento, deixei várias culpas que carregava por não me entender. Passei a compreender melhor meu filho, meu desempenho ocupacional, minhas sobrecargas sensoriais e o que provocava minha desregulação. Melhorei minha percepção de mim mesma e do mundo”.
Apesar do alívio em encontrar respostas, novos desafios surgiram. Katiuscia relata que o preconceito foi uma das barreiras mais difíceis após a descoberta. “O capacitismo foi o principal desafio, especialmente no trabalho. Muitos achavam que o diagnóstico era mentira ou exagero, que minhas necessidades de adaptação eram privilégio ou frescura”.
A experiência fez com que ela se engajasse ainda mais na luta por inclusão. “Passei a ter um lugar de fala que ia além de ser mãe atípica. Hoje me vejo atuante e valorizada em um dos meus trabalhos. Minha equipe respeita minhas pausas, reconhece minhas potencialidades e me acolhe”.
Especialistas explicam que situações como a de Katiuscia têm se tornado cada vez mais frequentes. A pedagoga e especialista em desenvolvimento infantil e TEA Elizabete Souza afirma que, durante os processos de avaliação infantil, muitas famílias acabam identificando características semelhantes em pais e mães.
“Realmente, quando estamos fazendo avaliações nas crianças, começam a aparecer as famílias. Quando uma criança apresenta um laudo de TEA, naturalmente o pai ou a mãe pode ter características também. Estamos vendo muita gente descobrindo isso na fase adulta”, diz.
Além da maior conscientização sobre o transtorno, Elizabete chama atenção para um desafio enfrentado por quem recebe o diagnóstico após a infância: a escassez de profissionais preparados para atender adultos autistas.
“Muitas vezes os profissionais atendem crianças. A criança cresce, se torna adulta, e onde estão os profissionais preparados para atender esse público? Existe essa dificuldade. Temos muitos profissionais especializados no atendimento ao TEA infantil, mas poucos voltados para o adulto com TEA”, destaca.
Segundo a especialista, essa realidade pode atrasar diagnósticos, dificultar acompanhamentos e tornar ainda mais desafiadora a busca por suporte adequado. “O maior entendimento sobre o espectro e a ampliação dos critérios diagnósticos têm permitido que pessoas antes não identificadas encontrem respostas para comportamentos que carregaram durante toda a vida. Por isso, esse olhar profissional é tão importante”, completa.