CASA SENSORIAL
Onde o Nordeste Mora
Ana Brígida criou espaço em São Paulo para acolher criadores e desafiar estereótipos em torno da moda nordestina: conheça a Casa de Brígida
A moda nordestina sempre esteve presente na vida de Ana Brígida. Nascida em Maceió e criada entre as linhas e tecidos da avó costureira, ela transformou a paixão herdada da família em um projeto que desafia estereótipos e amplia a visibilidade da criação autoral da região. À frente da Casa de Brígida, espaço dedicado à valorização de marcas e artistas do Nordeste, a produtora de moda faz da própria trajetória uma ponte entre a potência criativa nordestina e os circuitos nacional e internacional da moda.
Admiradora dos estilistas alagoanos Vera Arruda e Flavius Lessa, Ana estudava em um colégio de freiras onde acessórios e maquiagem eram restritos; mesmo assim, sua essência falava mais alto e ela dava um jeito de usá-los.
Em uma feira de ciências no segundo ano do ensino médio, defendeu a pauta sobre moda. Sua turma resistiu, pois não achava que seria viável apresentar esse tema. No entanto, Ana estava determinada a fazer acontecer: "Eu defendi tanto que eu disse: 'Então eu vou atrás e vocês não se preocupem'. E a moda nasceu aí. Eu fui atrás do Flavius Lessa e ele passou 15 dias me dando orientação, me ensinando sobre moda. Fui para a casa dele e o acompanhei em alguns desfiles, no backstage e em todo o processo. E eu confesso que me sinto apadrinhada por ele", afirma.
A partir dali, Ana passou a construir seu caminho profissional no setor. Ela desenvolveu vitrines com estratégias de varejo, imagem e assessoria, e consolidou seu nome como uma consultora de moda reconhecida no estado, trabalhando com marcas consagradas da moda alagoana, como a própria Marta Medeiros e a Magazine São Paulo.
Além disso, movimentou o mercado local: "Foram movimentos muito específicos, direcionados à validação real do produto e da estética de moda cultural. Hoje, estando com a Casa de Brígida, eu vejo que esse processo, naquela época, foi muito importante para que hoje eu consiga olhar para a moda nordestina como ela merece e colocá-la no circuito de moda nacional e internacional".
A convite de uma marca paulistana para ser diretora executiva, enxergou uma oportunidade de expandir. Aceitou o trabalho e mudou-se para São Paulo, dando início a uma nova fase profissional, cheia de dificuldades e superações. Se o trabalho com moda, por si só, já enfrenta obstáculos, imagine uma nordestina no Sudeste precisando encarar, inclusive, a xenofobia. Entre os elogios, frases como "não sabia que no Nordeste tinha profissionais como você" eram corriqueiras.
"Eu não me sentia acolhida pelo meu trabalho e por estar no mesmo padrão do mercado de São Paulo, sabe? Vivi muitos casos de xenofobia assim que cheguei. Isso me entristecia, porque eu tinha que estar o tempo todo dizendo: 'Não, o Nordeste tem muito profissional bom, você precisa conhecê-los'. Ter que ficar repetindo isso exaustivamente era triste para mim”, destaca.
As pessoas não queriam enxergar a moda nordestina, mas Ana sabia que estava plantando uma semente. Durante os 6 anos em que esteve trabalhando em São Paulo, ela percebia a dificuldade de a moda nordestina acessar outras camadas. E foi nesse contexto, entre a saudade de casa e o desejo de ampliar o espaço da moda nordestina, que começou a surgir a ideia da Casa de Brígida.
O Espaço Sensorial A Casa de Brígida
A ideia de criar a Casa de Brígida ganhou forma em um dos momentos mais delicados de sua vida: a casa da família de Ana foi atingida pelo desastre ambiental causado pela extração de sal-gema da Braskem. "Para mim foi um golpe, um golpe muito grande. Porque voltar para a casa da minha avó, a casa em que eu nasci em Bebedouro, que era o meu lugar de resgate emocional, onde eu me sentia abraçada, acolhida, já não era mais possível", lembra.
Nordestinos fora de seu estado compartilham do mesmo sentimento de saudade de seu lugar. Ana percebeu que, assim como ela, existiam muitos nordestinos que estavam vivendo o isolamento social do pós-pandemia e queriam se sentir acolhidos. Assim, ela se deparou com a Rua Dona Brígida (em São Paulo), onde encontrou uma casa parecida com a dela no bairro do Bebedouro e entendeu o recado: precisava construir uma casa onde o Nordeste se reconhecesse, indo além do que o mercado oferecia — um Nordeste sem xenofobia, lindo, leve e acolhedor.
"Quando eu entro na casa, eu me deparo com a memória afetiva de voltar para o lar. Eu queria que a casa, desde o primeiro passo que dei aqui, não fosse sobre mim. Eu confesso que, quando a vi nascer, vi um novo futuro para a moda nordestina surgindo de mim. Eu não sabia como, mas sabia que queria muito fazer isso", diz.
Em 2020, ela inaugurou a Casa de Brígida. Muito além de uma loja, é um espaço sensorial e de acolhimento em que marcas do Nordeste podem ser contempladas. "A busca do nordestino por um lugar para expor sua arte me fez entender que não era só sobre uma loja para vender o seu produto; era sobre um lugar que pudesse fazer com que ele se sentisse pertencente".
Made in Nordeste e Made in Alagoas
Sempre almejando que a moda nordestina seja apreciada sob os holofotes, Ana não espera por agentes de fora. É uma moda que transborda força, mas muitas vezes carece de oportunidade. Por isso, idealizou o movimento Made in Nordeste (@madeinnordesteofc), um palco virtual para a moda autoral nordestina brilhar.
A ideia nasceu no quintal da Casa de Brígida. O perfil no Instagram é voltado para a apreciação da cultura regional. Com olhos de águia, Ana abre caminho para criadores que achavam que não tinham o direito ou a chance de chegar a um lugar de destaque.
"Olhar para profissionais tão incríveis que me inspiram, que estão no circuito de moda nacional, que estão aí com um legado incrível no que fazem, me faz ver que o Made in Nordeste é necessário", ressalta Ana.
Agora, o foco também está na sua terra natal, Alagoas. O novo projeto Made in Alagoas (@madeinal.ofc) vem como um convite para que a população enxergue por meio de outros olhos a cultura que, muitas vezes, encontra-se escondida. Mais do que projetos de divulgação, o Made in Nordeste e o Made in Alagoas representam a continuidade de uma missão que Ana assumiu ainda jovem: fazer com que a moda produzida na região seja reconhecida pelo valor que sempre teve.
"Alagoas abre a porteira dos nove estados. O estado merece estar no topo dessa lista. Por amar a minha terra e por saber que ela merece esse lugar de destaque, quero fazer com que todos contemplem Alagoas além do filé, além da renda. Quero contar a história da rendeira, a história da catadora de sururu, da crocheteira... É a história da mulher que pinta, da mulher que borda, da mulher que é mãe, que é filha e que vai revolucionar a história virando inspiração para as que virão. O Made in Nordeste é inspiração", finaliza Ana.