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Mocktails: o sabor da nova geração

Mais do que retirar o álcool das receitas, especialistas apostam em experiências sensoriais sofisticadas para atender um público cada vez mais preocupado com saúde, bem-estar e consumo consciente

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Durante muito tempo, quem optava por não consumir bebidas alcoólicas tinha poucas alternativas em bares, restaurantes e eventos. Refrigerantes, sucos e água costumavam ser as únicas opções disponíveis. Esse cenário, porém, vem mudando rapidamente. Impulsionados por novos hábitos de consumo e pela busca por um estilo de vida mais saudável, os chamados mocktails, que são drinks elaborados sem álcool, deixaram de ser uma alternativa secundária para se tornar uma categoria própria dentro da coquetelaria contemporânea.

A tendência acompanha uma mudança de comportamento especialmente entre os consumidores mais jovens, que desejam manter a experiência de socialização e celebração sem necessariamente consumir álcool. O resultado é um mercado em expansão que aposta em criatividade, técnicas sofisticadas e ingredientes cuidadosamente selecionados.

Para o mixologista especializado em mocktails, Leonardo Silva, o crescimento da categoria reflete uma transformação mais ampla na forma como as pessoas enxergam o consumo de bebidas.

“A procura por drinks sem álcool já existe na coquetelaria mundial há mais de uma década, mas nos últimos anos ganhou muita força no Brasil. Cada vez mais pessoas buscam opções que proporcionem experiência, sabor e sofisticação sem os efeitos do álcool, seja por questões de saúde, bem-estar, religião ou simplesmente por preferência pessoal”, explica.

Segundo ele, os consumidores deixaram de aceitar apenas bebidas tradicionais sem álcool e passaram a exigir experiências completas, semelhantes às oferecidas pela coquetelaria clássica.

“Hoje as pessoas querem apresentação impecável, ingredientes elaborados, técnicas de mixologia, aromas e storytelling. O consumidor não está apenas procurando uma bebida sem álcool, ele está procurando uma experiência completa”, afirma.

Muito além da retirada do álcool

Um dos equívocos mais comuns, segundo Leonardo, é acreditar que um mocktail é simplesmente uma versão de um drink tradicional sem a presença do álcool. Na prática, o processo é muito mais complexo.

“Criar um mocktail não significa retirar o álcool de uma receita. É desenvolver uma bebida com identidade própria, complexidade, equilíbrio e uma experiência completa para o consumidor”, destaca.

A construção dessa experiência envolve diversos elementos, como combinação de sabores, texturas, aromas, apresentação visual e técnicas de preparo. O objetivo não é reproduzir uma bebida alcoólica, mas criar algo novo.

“Um bom mocktail não tenta imitar uma bebida alcoólica. Ele cria sua própria identidade, oferecendo ao consumidor a mesma sofisticação, ritual e prazer que se espera de um grande coquetel, mas sem a presença do álcool”, explica.

Para alcançar esse resultado, a criatividade se torna um ingrediente fundamental. O processo de criação pode partir de uma memória afetiva, uma viagem, uma obra de arte ou até mesmo de um ingrediente específico. Depois vêm os testes e ajustes para equilibrar acidez, dulçor, amargor e textura.

“Nos mocktails esse desafio é ainda maior, porque precisamos construir complexidade e profundidade sem recorrer ao álcool”, ressalta.

Sabores nordestinos ganham protagonismo

Além das tendências globais, a valorização dos ingredientes regionais tem contribuído para fortalecer a identidade da coquetelaria sem álcool no Brasil. Pensando nisso, Leonardo aposta em frutas e ingredientes típicos do Nordeste para desenvolver receitas autorais que conectam gastronomia, cultura e memória afetiva. Entre os ingredientes utilizados estão cajá, caju, umbu, mangaba, seriguela, graviola, jambu, rapadura, mel de engenho e água de coco.

“Acredito que os mocktails ganham muito mais identidade quando contam histórias através dos ingredientes. Utilizar sabores nordestinos não apenas cria drinks únicos, mas também valoriza produtores locais e proporciona aos clientes uma experiência sensorial conectada às nossas raízes”, afirma.

Essa valorização da regionalidade acompanha uma demanda crescente por produtos naturais e de origem conhecida. Segundo o mixologista, os clientes estão cada vez mais interessados em ingredientes frescos, ervas aromáticas e combinações que transmitam autenticidade.

Inclusão e novas experiências

O crescimento dos drinks sem álcool também está relacionado à busca por experiências mais inclusivas. Pessoas que não bebem por motivos religiosos, esportivos, médicos ou simplesmente por escolha pessoal passaram a encontrar opções capazes de proporcionar a mesma sensação de pertencimento em encontros sociais. “O mocktail deixou de ser uma alternativa e passou a ser uma escolha”, resume Leonardo.

A presença dessas bebidas tem se tornado cada vez mais comum em casamentos, eventos corporativos, brunches, inaugurações e celebrações ao ar livre. Em muitos casos, elas ocupam posição de destaque nos cardápios. “A maior surpresa para quem experimenta é perceber que a experiência vai muito além de um simples suco ou refrigerante. Muitas pessoas esperam algo básico e acabam encontrando uma bebida complexa, equilibrada e cheia de camadas de sabor”, observa.

Mercado aquecido

A expectativa para os próximos anos é de crescimento contínuo do setor. A expansão das cervejas sem álcool, dos destilados zero e dos mocktails acompanha uma tendência internacional de consumo mais consciente.

Para Leonardo, estados com forte vocação turística e gastronômica, como Alagoas, têm potencial para se destacar nesse segmento. “O estado reúne características que favorecem esse crescimento: turismo forte, clima quente durante praticamente todo o ano, valorização da gastronomia regional e um público cada vez mais interessado em experiências sofisticadas, saudáveis e inclusivas”, afirma.

A combinação entre turismo, cultura local e ingredientes tropicais abre espaço para novos negócios, cartas premium em hotéis, eventos especializados e experiências autorais. Enquanto isso, os mocktails seguem conquistando consumidores que desejam celebrar sem abrir mão do bem-estar. Uma mudança que, ao que tudo indica, não representa apenas uma tendência passageira, mas um novo capítulo na forma de consumir e vivenciar a gastronomia.

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