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TRADIÇÃO E INOVAÇÃO

Onde cabe o bordado

Ateliê em Alagoas aplica o ponto cruz em superfícies antes inesperadas, como a cerâmica; conheça o Beliê

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Beliê nasceu com a ideia de alavancar o trabalho com o ponto cruz de Arivânia, mãe de Ariane
Beliê nasceu com a ideia de alavancar o trabalho com o ponto cruz de Arivânia, mãe de Ariane | Foto: Cortesia

A história de Ariane Pita, de 34 anos, mostra que tradição e inovação não precisam caminhar em sentidos opostos. Ao contrário. Caminham juntas em uma jornada de transformação e muito sucesso. Formada em arquitetura, ela transformou uma memória afetiva familiar em um negócio que ressignifica o ponto cruz e leva o bordado para acessórios de moda e objetos de decoração. À frente do Beliê, ateliê situado no município da Barra de São Miguel, Ariane atua hoje na direção criativa e na gestão de um grupo produtivo formado por sete artesãs.

Antes mesmo de imaginar que um dia transformaria o bordado do ponto cruz em negócio, ela acompanhava o trabalho da mãe, Arivânia Pita, que é autodidata e aprendeu a técnica por meio de revistas e, durante anos, produziu toalhas de banho, panos de prato, peças infantis e outros trabalhos artesanais. O que começou como uma habilidade passada de mãe para filha se transformaria, anos depois, no ponto de partida para uma marca que une ancestralidade, design, moda e decoração.

Bordado em materiais não convencionais chama a atenção
Bordado em materiais não convencionais chama a atenção | Foto: Cortesia

Foi ao sair da faculdade de Arquitetura que Ariane começou a enxergar o trabalho da mãe por outro ângulo. Ela percebia que as peças eram comercializadas de maneira informal e, muitas vezes, por valores que não correspondiam ao tempo, ao cuidado e ao investimento empregados na produção.

Com a cabeça ainda imersa nas referências de design e nas possibilidades que havia descoberto durante um intercâmbio nos Estados Unidos, onde teve contato com uma forte cultura maker e tecnologias como impressão 3D e corte a laser, Ariane passou a imaginar novas maneiras de apresentar o bordado ao público, de forma a abranger também as novas gerações.

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Imagem ilustrativa da imagem Onde cabe o bordado
| Foto: Cortesia

E foi se perguntando “onde o bordado pode estar” que nasceu o Bordeliê (hoje Beliê), em 2017. A resposta não veio de imediato. Foi construída a partir de pesquisas, experimentações e da disposição para testar possibilidades. Madeira, cerâmica, acessórios e diferentes materiais passaram a dividir espaço com as linhas.

O objetivo era não abandonar o ponto cruz, mas encontrar novas formas de fazê-lo chegar às pessoas, por meio da divulgação do trabalho da mãe de Ariane nas redes sociais. Enquanto a mãe bordava, a filha participava da criação das peças e ajudava na gestão. Aos poucos, porém, o projeto ganhou novas proporções.

Beliê hoje é formado por grupo de sete mulheres
Beliê hoje é formado por grupo de sete mulheres | Foto: Cortesia

Ariane começou a investigar como a técnica poderia ser aplicada em diferentes superfícies. Aprendeu a trabalhar com madeira, conheceu processos de corte a laser, experimentou modelagem em argila e passou a enxergar cada novo aprendizado como uma possibilidade.

A cerâmica, por exemplo, surgiu depois que ela iniciou um curso de modelagem em argila. O que poderia ser apenas um novo hobby acabou integrado ao universo do Beliê. A partir de referências de trabalhos que combinavam técnicas manuais e cerâmica, Ariane começou a criar objetos nos quais o ponto cruz continuava sendo o elemento central, o protagonista.

A própria estética do bordado serve de inspiração. A aparência quadriculada dos pontos remete, para Ariane, ao pixel art dos antigos jogos eletrônicos. Ao mesmo tempo, ela busca referências no cotidiano, nas caminhadas, nas paisagens naturais e nas experiências que atravessam sua vida.

Peças de moda e decoração unem madeira ao ponto cruz
Peças de moda e decoração unem madeira ao ponto cruz | Foto: Cortesia

Uma colher de pau, por exemplo, tornou-se matéria-prima para as criações. O objeto carrega para ela a memória das avós preparando doces, uma lembrança que também aparece na peça “Doce de Leite”, um colar inspirado na história de uma avó que fazia o doce no interior e o levava para Maceió. Um verdadeiro encontro entre memória e contemporaneidade.

Para Ariane, ressignificar o ponto cruz não desrespeita sua história. Pelo contrário. A ideia é justamente garantir que uma técnica tão antiga continue fazendo sentido para novas gerações. “O ponto cruz é algo que é muito visto como uma coisa tradicional. Eu respeito muito a tradição e a técnica, o jeito como as coisas foram criadas, mas acho que isso pode coexistir com a contemporaneidade, com as tecnologias, com novos olhares e novos materiais”, afirma.

A lógica também se aplica ao consumidor. Uma pessoa que não se identifica com a tradicional toalha de banho bordada pode encontrar no mesmo trabalho manual um colar, uma peça de decoração ou um objeto de cerâmica.

Ariane conta que são frequentes os relatos de clientes que reconhecem no ponto cruz uma lembrança familiar. Algumas aprenderam a bordar com tias ou avós; outras encontram nas peças uma forma de levar para dentro de casa uma referência afetiva.

É justamente essa capacidade de atravessar gerações que Ariane acredita ser fundamental para a sobrevivência da tradição. “Eu acho que a cultura só perdura se ela acompanhar a época que está vivendo. A gente não consegue fazer uma coisa durar se deixar ela engessada originalmente do jeito que foi feita”, afirma.

Bordado em cerâmica também é especialidade do Beliê
Bordado em cerâmica também é especialidade do Beliê | Foto: Cortesia

De projeto familiar a grupo de mulheres

O Beliê também mudou junto com Ariane. Durante os primeiros anos, ela continuava trabalhando como arquiteta e conciliava a profissão com a gestão do negócio, enquanto a mãe ficava à frente da produção. A pandemia, porém, alterou essa dinâmica e fez com que Ariane se envolvesse cada vez mais com a empresa.

Com o apoio do Sebrae, veio a formalização e, posteriormente, uma estrutura mais profissional. Em 2023, o Bordeliê passou a se chamar Beliê. A mudança de nome acompanhou uma transformação maior: o projeto deixava de ser apenas um negócio familiar para se tornar um grupo produtivo de mulheres artesãs formado atualmente por sete pessoas.

Um dos projetos que ajudou a consolidar esse caminho foi o “Artes da Barra”, criado por Ariane em 2023 para capacitar mulheres da Barra de São Miguel. Além do ponto cruz tradicional, elas aprenderam a aplicar o bordado em superfícies como cerâmica e madeira.

A expansão do grupo também responde a uma nova demanda: atender lojistas e compradores no atacado, que exigem uma produção maior sem que o trabalho artesanal perca suas características. “Hoje eu me vejo como uma líder, como uma pessoa que quer levar outras mulheres junto”, diz.

Bordado em cerâmica chama atenção pelo ineditismo e delicadeza
Bordado em cerâmica chama atenção pelo ineditismo e delicadeza | Foto: Cortesia

Mais do que aumentar a capacidade produtiva, ela enxerga a formação da rede como uma maneira de oferecer autonomia para mulheres que precisam conciliar o trabalho com outras atividades da vida.

A trajetória do Beliê também ultrapassou as fronteiras de Alagoas. Desde 2019, a marca participa de feiras em diferentes estados brasileiros. No ano passado, veio uma nova experiência em Lisboa/Portugal, sendo o primeiro contato internacional da marca. A participação ajudou Ariane a compreender que o trabalho artesanal brasileiro poderia ocupar outros mercados.

Neste ano, o Beliê participa da Jornada de Exportação da Apex, com apoio do Sebrae Nacional, que representa mais um passo em direção ao mercado externo. “Ter essa imagem de levar o Beliê para fora é também levar Alagoas, as nossas raízes, as nossas culturas. Para mim representa muito”, afirma Ariane, que embarca neste fim de semana para Paris, na França.

Expandir um negócio artesanal traz o desafio de aumentar a produção sem transformar o processo em algo industrializado e distante da essência que fez a marca nascer.

Ariane Pita fica à frente do lado criativo do Beliê
Ariane Pita fica à frente do lado criativo do Beliê | Foto: Cortesia

Ariane sabe que o crescimento exige estratégia. Gestão de estoque, organização da produção e criação de ferramentas que tornem algumas etapas mais ágeis fazem parte da nova realidade. A ideia é justamente liberar tempo para aquilo que não pode ser automatizado: a criação, o olhar e o próprio bordado.

“Eu preciso ser estratégica em alguns aspectos. Preciso ter uma gestão de estoque mais apurada, criar ferramentas novas para agilizar alguns processos para que eu possa ter mais tempo para criar, para bordar”, explica.

É preciso que haja um equilíbrio entre eficiência e tempo. Algumas etapas podem ganhar velocidade, enquanto outras precisam continuar sendo feitas com calma, respeitando o processo do fazer manual.

A história do Beliê, inclusive, parece ser feita de pequenos pontos que, juntos, formam algo maior. O que começou como uma tentativa de valorizar o trabalho manual da mãe tornou-se uma marca, depois um grupo produtivo e, agora, uma rede de mulheres que busca novos mercados sem abrir mão da identidade artesanal.

Ariane Pita fica à frente do lado criativo do Beliê
Ariane Pita fica à frente do lado criativo do Beliê | Foto: Cortesia

Para Ariane, esse talvez seja o maior significado do negócio: provar que tradição e inovação não precisam competir. Uma peça de cerâmica pode chamar a atenção pela forma contemporânea, mas, quando o olhar se aproxima, está ali o mesmo ponto cruz aprendido por tantas gerações.

“Para mim, o Beliê prova que a gente consegue unir tradição e inovação sem perder a essência. Isso fica claro quando as pessoas olham uma peça inusitada de cerâmica bordada e acham lindo, mas ali tá a técnica purinha do bordado tradicional. Isso para mim é a prova de que a pessoa pode se interessar, pode atribuir valor a uma coisa que é tradicional, mas que tem uma aplicação diferenciada. E nenhuma outra técnica vai se sobressair no Beliê além do ponto cruz, é uma questão de prioridade, de hierarquia, e isso é muito claro pra gente”, destaca.

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