EMPREENDEDORISMO
Corrida, beleza e um novo negócio
Empreendedora encontra oportunidade em eventos esportivos e investe em penteados para corredoras
Uma mala, uma cadeira de praia e uma ideia lançada no meio de uma conversa foram suficientes para Nirvhana Viana, de 30 anos, descobrir um novo caminho para empreender. Administradora e técnica em Segurança do Trabalho, ela nunca havia planejado trabalhar com beleza, mas percebeu nas corridas de rua uma oportunidade que ninguém parecia estar explorando: oferecer penteados para corredoras que chegam cedo aos eventos e querem aliar desempenho, praticidade e autoestima. Assim nasceu a Cabine dos Penteados, negócio que começou de forma improvisada e já conquistou espaço entre as atletas de Maceió.
A ideia surgiu no ambiente de trabalho, quando colegas que praticam corrida comentavam sobre a dificuldade de encontrar salões disponíveis nos horários próximos aos eventos, que contam com largadas ainda nas primeiras horas da manhã. “Gente, eu poderia ir fazer os penteados lá!”, sugeriu Nirvhana. E o que parecia apenas uma possibilidade, ganhou força quando a proposta foi divulgada nos grupos de assessorias de corrida e várias mulheres demonstraram interesse.
No mesmo dia, durante o horário de almoço, ela foi ao Centro de Maceió comprar os materiais necessários para marcar presença em uma corrida que estava prestes a acontecer. O que faltava era descobrir se, de fato, haveria público disposto a pagar pelo serviço. E a resposta veio rapidamente.
Uma mala, uma cadeira de praia e um sonho
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A estreia aconteceu justamente em uma corrida que começou na sexta-feira à noite, com a categoria kids e se estendeu para o sábado e o domingo, com a corrida dos adultos. Nirvhana chegou ao momento voltado para as crianças levando uma mala, uma cadeira de praia e muita expectativa. A primeira cliente foi uma pequena corredora. Depois que outras pessoas viram o resultado, começaram a se aproximar, perguntar sobre o serviço e indicar umas para as outras. Em pouco tempo, a improvisada cabine estava movimentada.
Nirvhana permaneceu atendendo até aproximadamente 0h30. Poucas horas depois, às 2h30, já estava novamente na orla de Maceió para receber as corredoras que participariam das provas na manhã do sábado. O cansaço, porém, foi acompanhado pela certeza de que havia encontrado uma oportunidade. “Foi cansativo, mas, ao mesmo tempo, muito gratificante, porque ali eu percebi que realmente existia uma demanda e que a ideia poderia dar muito certo”, conta.
Nessa primeira experiência, ela foi caminhando na madrugada até o local da prova. Tudo para economizar com o transporte. Às 2h30 do sábado, sentou-se na praça de alimentação da estrutura da corrida e iniciou o primeiro atendimento. O movimento ao redor fez o restante. As pessoas passavam, observavam o penteado, perguntavam e, quando Nirvhana percebeu, já não conseguia mais parar. Encerrou os atendimentos somente às 8h30, ao lado da mãe, que é cabeleireira, e de uma amiga, que ajudou a organizar o fluxo de pessoas interessadas no serviço.
A experiência mostrou que o negócio não era apenas uma ideia curiosa, como pensado inicialmente. Havia, de fato, um público interessado em transformar a preparação para uma corrida em um momento de beleza e autoestima, afinal, correr hoje é sinônimo não somente de vida ativa, mas de encontro, superação e celebração.
Na Cabine dos Penteados, o tradicional coque e o rabo de cavalo ganharam novas versões. Entraram em cena tranças, glitters, estrelinhas e outros acessórios que ajudam a dar um “up” no visual das corredoras durante as provas. “O penteado precisa ficar bonito, mas também precisa aguentar vários quilômetros de corrida sem ficar desarrumado ou incomodar”, explica.
O coque continua entre os mais procurados, principalmente pela praticidade, mas recebe uma dose extra de brilho. As tranças também fazem sucesso, inclusive combinadas ao rabo de cavalo. Mais do que preparar os cabelos para a prova, Nirvhana percebeu que estava ajudando as corredoras a se prepararem para viver aquele momento de forma mais leve e cheias de amor próprio, porque se sentir bonita também faz parte da prática de atividade física. “Não era só sobre fazer um penteado para correr, mas sobre proporcionar uma experiência: a pessoa se preparar, se sentir bonita, correr e depois continuar se sentindo bem com ela mesma e também linda e bela na sua foto correndo”, afirma Nirvhana, destacando que passou a dar nomes, como ‘baixa pace’ aos penteados.
Por trás de cada corredora, uma história
Se o negócio nasceu da percepção de uma necessidade, foi durante os atendimentos que Nirvhana descobriu outra dimensão das corridas: as histórias que chegam junto com cada cliente. Enquanto arruma os cabelos, ela ouve relatos de mulheres que começaram a correr para enfrentar a depressão, combater a obesidade, superar momentos difíceis ou simplesmente provar a si mesmas que eram capazes.
Ela conta, por exemplo, que atendeu uma mulher com mais de 60 anos que participaria de uma “casadinha”, desafio no qual correria 21 quilômetros em um dia e 42 quilômetros no outro. A corredora contou que chegou a ser sedentária e a sentir muitas dores, e naquela prova queria mostrar para si mesma que ainda era capaz de superar desafios.
E é nesse encontro entre empreendedorismo, beleza e histórias pessoais que Nirvhana parece ter encontrado o significado mais profundo do negócio. A corrida, que inicialmente seria apenas o local onde ela trabalharia, tornou-se também um espaço de aprendizado e inspiração.
Filha de cabeleireira
Curiosamente, a beleza nunca esteve completamente distante da vida de Nirvhana. Ela cresceu acompanhando a mãe, que é cabeleireira, no salão. Quando criança, ficava no local depois da escola, observando a mãe trabalhar. Também viu de perto o lado cansativo da profissão. A mãe atendia clientes de madrugada e até mesmo em casa. Por isso, durante muito tempo, Nirvhana acreditou que aquele não seria seu caminho.
“Eu pensava: ‘não quero essa vida, é muito cansativa! Vou estudar para dar o melhor para a minha mãe e para mim!’”, lembra.
Ela estudou, formou-se em Administração e também como técnica em Segurança do Trabalho. Atualmente, trabalha em uma dessas áreas. Mas, paralelamente, sempre carregou habilidades que aprendeu ao longo da vida e uma característica que os colegas reconhecem facilmente: a disposição para fazer de tudo um pouco.
Foi justamente essa versatilidade que a levou a enxergar uma oportunidade quando precisava de uma renda extra. Incentivada por colegas que diziam que ela era “desenrolada” para fazer esse tipo de trabalho, Nirvhana decidiu experimentar. E acabou caindo de paraquedas em uma profissão que, ironicamente, acompanhou desde a infância.
De olho nos próximos quilômetros
A Cabine dos Penteados ainda está em fase de estruturação, mas os planos já vão além das corridas de rua. Nirvhana começou a levar o serviço também para apresentações escolares de dança, ballet e ginástica rítmica, além de outros eventos que demandam penteados. Um dos primeiros trabalhos fora das corridas foi uma apresentação de dança de um colégio de Maceió. Por indicação de uma amiga, o serviço chegou a um grupo de mães e resultou em um pacote para produzir nove meninas.
A empreendedora também já começou a investir em uma estrutura própria, móvel e mais confortável, que permita montar a cabine de maneira profissional nos eventos. A ideia é buscar parcerias com organizações de corridas para que o serviço possa funcionar dentro das próprias provas. No futuro, ela não descarta levar a Cabine dos Penteados para corridas realizadas fora de Maceió.
O que começou com uma mala, uma cadeira de praia e uma ideia surgida durante o almoço entre colegar de trabalho ganhou forma, clientes e planos de expansão. Para fazer o negócio acontecer, Nirvhana precisou acordar quando boa parte da cidade ainda dormia, carregar equipamentos, improvisar estruturas e enfrentar o cansaço. Mas descobriu também que empreender, às vezes, é justamente ter coragem para testar uma ideia antes mesmo de saber onde ela pode chegar. No caso da Cabine dos Penteados, o negócio tende a ir longe e ganhar muitos quilômetros não de corrida, mas de estrada.