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RJ registra maior chacina de sua história

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Agência Folha Rio de Janeiro Em uma hora de ação na noite de quinta-feira, 30 pessoas - das quais ao menos sete menores de 18 anos -foram assassinadas por tiros que atingiram alvos a esmo em Nova Iguaçu e Queimados, cidades da região metropolitana do Rio. Foi um massacre. Apenas dois dos mortos tinham ficha criminal. Duas outras pessoas baleadas permaneciam internadas até ontem à noite. Segundo a Secretaria de Segurança, foi uma provável retaliação de policiais militares, intimidados por investigação de envolvimento de agentes da corporação em crimes na Baixada Fluminense, tornando-se a mais violenta ação contra comunidades carentes do Rio, desde o assassinato de 21 pessoas por policiais na favela de Vigário Geral em agosto de 1993. As investigações foram iniciadas com duas versões para a linha de ação dos assassinos. Na primeira, seriam quatro homens, utilizando um Gol de cor prata. Percorreram ruas das duas cidades, atirando nas pessoas que passavam sem ter um alvo definido. Na segunda versão, os criminosos teriam usado dois carros e uma motocicleta. O local que registrou maior número de mortes foi o bar Cacique, no bairro da Posse, em Nova Iguaçu, no qual nove pessoas foram assassinadas. MORTE AOS 14 ANOS O militar do Exército Sidney Apolinário, 23, disse que seu enteado Douglas Felipe Brasil de Paula, 14, morreu em seus braços. Afirmou que estava com o garoto no bar. Foi para casa e o deixou só jogando fliperama. Em seguida, ouviu vários tiros e voltou desesperado ao Cacique. Viu várias pessoas ensangüentadas caídas no chão, agonizando, inclusive seu enteado. A mãe do Douglas botou a mão no coração dele e ainda estava batendo. Fui ver sua pulsação. Foi ficando fraca até que morreu, declarou. Pessoas corriam carregando corpos e implorando por socorro, em desespero, relatou Sidney Apolinário. A doméstica Maria Helena Soares, 37, mãe de Felipe Soares Carlos, 13, outra vítima no bar Cacique, afirmou que os assassinos mataram um inocente. Ouvi muitos tiros. Parecia que o mundo iria acabar. Felipe não fazia nada, tinha problema na garganta. Tiraram a vida de uma criança. O dono do bar, Carlos Henrique Paula de Assis, 48, afirmou que não morreu por sorte. Disse que, no momento dos tiros, tinha ido comprar carne. Ao voltar, viu os corpos espalhados pelo chão, entre eles, o da mulher, Elizabeth Soares de Oliveira, 43. TESTEMUNHAS O Ministério Público e integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa estiveram presentes na Baixada. Ouviram Leovaldo Roberto da Silva, 44, que foi baleado na coxa direita na rua Gama. Ele contou ter visto um criminoso descendo do carro para fazer os disparos. Segundo ele, seria um homem de 1,70 m, moreno, de cabelo preto cortado à máquina. Silva não corre risco de morte. A outra internada é Kênia Modesto Dias, 27. Baleada na cabeça e no rosto, seu estado é muito grave. A Secretaria de Segurança suspeita que os criminosos sejam policiais militares, agindo em represália a investigações internas determinadas pelos comandantes dos batalhões na Baixada Fluminense. Na última segunda-feira, oito policiais do 15º Batalhão foram presos acusados de matar duas pessoas, degolar uma delas e atirar a cabeça dentro do pátio da unidade A polícia acredita que os policiais possam integrar grupos de extermínio na Baixada Fluminense. A acusação contra os PMs é reforçada pelo fato de as vítimas terem sido mortas com tiros de pistolas ponto 40, de uso exclusivo da corporação, e 380, usadas como armas particulares por policiais. Os assassinos deram tiros certeiros nas vítimas. ### Entenda como foram os assassinatos em série >Os assassinos, ainda não identificados, mataram a tiros ao menos 30 pessoas e feriram duas, em um intervalo de cerca de uma hora, a partir das 20h30 de quinta-feira, nas cidades de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense. >As armas usadas foram pistolas ponto 40, de uso exclusivo da Polícia Militar, e 380, que são usadas por PMs como armas particulares. Os assassinos tiveram a preocupação de recolher grande parte dos cartuchos das armas depois dos disparos, mas foram encontradas cápsulas do calibre ponto 40 - que tem três vezes mais impacto que um revolver de calibre 38 - nos locais da chacina. >Os criminosos aparentemente não tinham alvos definidos. A polícia ainda não sabe se os assassinatos foram cometidos por um ou dois grupos de criminosos, que estariam em Gols. Os participantes da chacina não se preocuparam em esconder os rostos? durante a ação. Pelo relato de testemunhas eles não usaram nenhum disfarce. Na noite de ontem foram feitos retratos falados dos suspeitos. >A investigação da chacina está sendo realizada pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense. Número de mortos > Em Nova Iguaçu: 18 > Em Queimados: 12 Seqüência dos crimes nova Iguaçu >A série de assassinatos começou na rodovia Presidente Dutra, próximo ao Sesc de Nova Iguaçu. Dois homens que estavam em bicicletas foram mortos >Na rua Gonçalves Dias, em Nova Iguaçu, um homem foi morto >Na rua Minas Gerais, dois homens foram alvejados em frente ao hotel Medieval. >Na rua Gama, 9 pessoas foram mortas no bar e fliperama Caíque, incluindo quatro menores de idade. Outras duas pessoas ficaram feridas >Na rua Geni Saraiva, dois homens foram mortos >Na rua Jacó Menot, no bairro de Corumbá, dois irmãos foram mortos Queimados >Na rua vereador Marinho Emetério de Oliveira, um homem foi morto em um lava-jato >Na rua Maria Cândida, no centro de Mesquita, outro homem foi assassinado em um bar >Um homem foi morto na rua 1, no bairro de Vila Camorim >Cinco homens, incluindo dois menores, foram assassinados no bairro Campo da Banha, na mureta de um bar na rua Carlos Sampaio >Num outro lava-jato mais quatro homens foram mortos. ### Polícia divulga retratos falados de dois suspeitos nas mortes Agência folha Rio de Janeiro No início da noite de ontem, a polícia divulgou os retratos falados de possíveis suspeitos. Um deles seria branco, de cabelos claros, entre 1,61 m e 1,70 m e de 35 anos presumíveis. O outro seria escuro, com cerca de 1,80 m e que teria entre 45 e 50 anos. O massacre começou por volta das 20h30 de ontem e durou cerca de uma hora. As primeiras vítimas foram dois ciclistas que passavam pelo km 178 da rodovia Presidente Dutra, que liga o Rio a São Paulo, na altura de Posse, em Nova Iguaçu. Em seguida, os assassinos mataram o cozinheiro José Gomes de Oliveira, 34, que passava pela rua Gonçalves Dias. Os criminosos dispararam então contra dois travestis que estavam em frente ao hotel Medieval. Ambos morreram. Após o ataque, o grupo se dirigiu para o bar Cacique, na rua Gama, também no bairro da Posse. Os assassinos fizeram vários disparos contra 11 pessoas que estavam no interior do estabelecimento. Nove foram mortas, incluindo quatro adolescentes. Duas ficaram feridas, sendo uma em estado grave. Dali, o grupo seguiu para a rua Geni Saraiva, também na Posse, onde mataram mais dois homens. Eles retornaram para a Dutra e chegaram até o bairro Corumbá, em Nova Iguaçu, onde mataram os irmãos Lenílson, 28, e Luciano de Souza Coutinho, 31. Os dois foram assassinados dentro de casa, na rua Jacó Menot. A mulher de Luciano, Patrícia de Jesus, 31, implorou para não morrer e foi poupada. Luciano foi morto na frente da filha de 4 anos. Após matarem 18 pessoas em Nova Iguaçu, o grupo foi em direção a cidade vizinha de Queimados, a cerca de 15 km de distância. No centro, eles mataram um homem na rua vereador Marinho Emetério de Oliveira, que estava em um lava-jato. Outros dois homens foram assassinados na rua Maria Cândido, também no centro, e no bairro Vila Camorim. Depois, os criminosos foram para o bairro Campo da Banha, onde mataram cinco pessoas. Por último, mataram mais quatro pessoas. ### Presidente Lula determina que Polícia Federal ajude no caso O ministro Nilmário Miranda (Direitos Humanos) disse ter ficado horrorizado e chocado com a chacina na Baixada Fluminense e afirmou que é uma questão de honra para o Estado brasileiro localizar e prender no menor prazo possível os responsáveis pelos assassinatos. Nilmário, que seguiu ontem à tarde para o Rio para acompanhar o enterro coletivo das vítimas e prestar solidariedade às famílias, afirmou que o país precisa ficar livre dessas pessoas o mais rápido possível, na forma da lei. O ministro disse ter sido informado da chacina pelo seu motorista. Imediatamente passei a fazer contato com as pessoas. Fiquei absolutamente horrorizado. Foram mortas crianças que estavam passando na rua, três travestis, pessoas inofensivas que estavam numa esquina, pessoas saindo do trabalho, em um bar. Eu fiquei chocado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu com indignação a notícia da chacina. Em nota divulgada ontem Secretaria de Imprensa da Presidência da República, Lula afirma que o governo federal não poupará esforços para, em conjunto com as autoridades estaduais e municipais, encontrar e punir os responsáveis por esse crime bárbaro e covarde. Segundo a nota divulgada Secretaria de Imprensa da Presidência o presidente determinou ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que oferecesse imediata ajuda federal nas investigações. As autoridades locais estão trabalhando em conjunto com a Polícia Federal, que já abriu inquérito para apurar o crime, informa a nota.

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