Nacional
Conselho de Ética deve convidar Dirceu e Delúbio
FOLHAPRESS Brasília O presidente do Conselho de Ética da Câmara, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), confirmou para amanhã, uma nova sessão para votar os requerimentos de convite de testemunhas apresentados ontem. Entre os nomes sugeridos, estão o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e do tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Também foram apresentados requerimentos para que sejam convidados a deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO), o deputado Miro Teixeira (PPS-RJ), o governador do Goiás, Marconi Perilo e o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. Todos os nomes foram citados no depoimento do deputado Roberto Jefferson (RJ), presidente nacional do PTB, que foi objeto de uma representação do PL, junto ao Conselho de Ética, por falta de decoro parlamentar. O PL acusou Jefferson de fazer graves acusações contra deputados do seu partido sem provas. Jefferson repetiu em seu depoimento o que já havia afirmado em duas entrevistas concedidas à Folha de S.Paulo, sobre a existência de um suposto esquema de pagamento de mesadas de R$ 30 mil -o mensalão- a congressistas do PP e do PL em troca de apoio político ao governo federal. O dinheiro, pago pelo tesoureiro do PT, viria, segundo ele, de empresas privadas ligadas ao governo. O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), quer ainda que a secretária do publicitário Marco Valério seja convidada a depor. De acordo com declarações de Jefferson, a funcionária já teria confirmando ter empacotado o dinheiro distribuído pelo PT. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava sereno e tranqüilo no início da noite de ontem, segundo relato do empresário Abílio Diniz, do grupo Pão de Açúcar. A audiência do empresário foi um dos vários compromissos do presidente ocorridos no Planalto ontem enquanto o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson, prestava depoimento ao Conselho de Ética da Câmara. O presidente Lula foi informado sobre o conteúdo das declarações do deputado Roberto Jefferson pelo secretário de imprensa da presidência, André Singer, mas não teria comentado o assunto. ### Genoino nega repasse de R$ 4 milhões Após assistir ao depoimento de Roberto Jefferson (PTB-RJ) na casa de um amigo?? e ao lado do tesoureiro do partido, Delúbio Soares, o presidente do PT, José Genoino, negou, na noite de ontem, o repasse de R$ 4 milhões para o PTB nas eleições de 2004, mas admitiu ter tratado de apoio material?? nas cidades onde PT e PTB estavam coligados, tipo programa de TV, camisetas, folhetos??. A planilha era a relação de cidades onde íamos fazer campanha conjunta. Jamais repasse de dinheiro para o PTB. Era a divisão de despesas e, onde o PT tinha a cabeça de chapa, a maior parte era por conta do PT??, disse. Ele não precisou o total gasto com o PTB na campanha de 2004 sob o argumento de que o registro era feito por município e não por partido. Não tenho noção dos valores porque era cidade por cidade. A planilha à que ele se refere era de cidades??, repetiu. Embora resistindo, Genoino confirmou ter participado da reunião citada por Jefferson, em maio do ano passado, no PT de Brasília. Mas frisou: Nunca tratei de dinheiro com o senhor Roberto Jefferson. Não teve só essa reunião, não. Teve em maio, teve em abril. Deve ter havido outras. Tratávamos de acordos eleitorais nessas cidades??. Dezenas de cidades Segundo ele, foram dezenas as cidades em que houve aliança entre PTB e PT, como São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba. Lembro agora de São João de Meriti e Juiz de Fora??, disse ele, numa alusão a duas cidades onde o PT apoiou o PTB no segundo turno. Genoino afirma que essas despesas (incluindo shows, deslocamento de políticos, campanha de vereadores) foram registradas na prestação de contas do PT. Insistindo em acusar o deputado Roberto Jefferson de calúnia, mentira e difamação, Genoino chegou a alterar o tom de voz ao responder se o fato de Delúbio e o secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, não se manifestarem era uma estratégia de defesa do PT. Não aceito que esse cidadão, com a minha história, com a minha vida, faça de uma mentira uma acusação e e eu esteja aqui fazendo uma estratégia de defesa. Não preciso. A verdade é isso. O PT não vai aceitar se transformar em uma nova Escola Base??, reagiu, referindo-se à acusação, que se provou falsa, feita em 1994 contra os donos da escola de terem abusado sexualmente de crianças. Olho no olho Ele disse que aceita uma acareação com Jefferson: Claro. Agora! Olho no olho. Ele está fazendo um rol de mentiras e calúnias. Estou tranqüilo, indignado de ver um acusado fazer um teatro para acusar as pessoas do PT sem limite de responsabilidade??. Por orientação da cúpula, a sede do PT foi esvaziada na tarde de ontem. Alvos de Jefferson, Delúbio e Silvio Pereira saíram do prédio logo de manhã. A permanência de Delúbio foi de cerca de uma hora. Na véspera, segundo um integrante da Executiva, os dois foram orientados a não participar da reunião da cúpula do PT em Brasília. A idéia é não dar ressonância ao teatro?? do deputado e presidente Nacional do PTB, Roberto Jefferson. ### Senadores cobram explicação e Dirceu diz que não sai Uma das conseqüências imediatas do depoimento do presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), foi a cobrança de explicações do ministro José Dirceu (Casa Civil) por parte de senadores governistas e da oposição. Ele foi um dos principais focos de ataque do petebista. O José Dirceu se pronunciará sobre esse episódio seguramente??, disse o líder do governo, senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Ele ligou para o ministro no fim da tarde de ontem para esclarecer boatos de que ele teria deixado a Casa Civil. Além de negar sua saída do cargo, Dirceu disse a Mercadante que ficou indignado?? com as acusações de Jefferson. O ministro José Dirceu deve pegar o escudo e vir para a luta, sem evasivas??, disse o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM). O líder do PFL, senador José Agripino (RN), disse que Dirceu deveria tomar a iniciativa de se explicar, mas que, de qualquer forma, ele será convocado para depor na CPI dos Correios. Botaram a crise sentada dentro do Palácio do Planalto??, disse Agripino. A oposição também avalia que o depoimento deu vários caminhos que os deputados pretendem explorar na CPI dos Correios, como o fato de o dinheiro do PT ter sido entregue ao PTB, segundo Jefferson, em notas que seriam do Banco Rural e do Banco do Brasil. Identificação Enquanto acompanhava o depoimento pela televisão, um líder partidário da base aliada concordava com o presidente do PTB quando ele dizia que Dirceu não tem palavra??, por não cumprir acordos feitos. Também houve identificação quando Jefferson disse que não tinha acesso ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque havia um cordão de isolamento?? em torno dele. O Senado parou no início da tarde para acompanhar o depoimento de Jefferson. Líderes partidários encerraram reuniões às pressas e correram para a frente da TV. Alguns senadores gravaram a sessão do Conselho de Ética da Câmara. ### Falta de provas deu alívio a governistas Os governistas ficaram aliviados com o fato de Jefferson não ter apresentado provas de suas denúncias. Ele não apresentou provas, fez ilações e levantou suspeitas. Mesmo assim tudo tem de ser investigado e nos parece que as acusações não têm fundamento??, disse o líder do governo. Mesmo sem provas, a oposição considerou forte o testemunho do presidente do PTB. O depoimento foi arrasador. Como ele era de dentro do esquema do governo ele sabe de tudo, mostrou indícios fortíssimos e estava muito seguro??, disse o senador José Jorge (PFL-PE). Ele reafirmou tudo o que disse, mas não avançou, embora tenha desafiado o ministro José Dirceu??, afirmou o senador Jefferson Péres (PDT-AM). Os governistas tentaram minimizar as declarações do petebista. O que determina o processo é a consistência dos fatos??, disse Aloizio Mercadante, disse o senador petista. ### Menti para proteger a candidata Marta Suplicy Roberto Jefferson admitiu ontem que faltou com a verdade no ano passado, quando negou um acordo financeiro envolvendo seu o partido e o PT. Afirmou que fez isso para não prejudicar violentamente a campanha à reeleição da então prefeita petista, Marta Suplicy. Em junho do ano passado, a revista Veja publicou uma reportagem relatando o acerto entre os partidos. O PT, com o aval dos petistas José Genoino (presidente do partido), Delúbio Soares (tesoureiro) e Marcelo Sereno (secretário de comunicação), pagaria parte das campanhas de candidatos do PTB. Em 24 de setembro, em artigo na Folha de S.Paulo, Jefferson repudiou veementemente a existência desse acordo. À Folha de S.Paulo, ele disse ter recebido do PT a soma de R$ 4 milhões, em duas parcelas -uma de R$ 2,2 milhões e outra de R$ 1,8 milhão. Ele teria distribuído o dinheiro a candidatos petebistas. Seria parte de um pacote financeiro de R$ 20 milhões, que acabou não se materializando. Ontem, ao ser pressionado por deputados a se explicar, durante o seu depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, o presidente do PTB admitiu que mentiu da primeira vez. O PTB apoiava a campanha de Marta, que acabou perdendo a disputa para o candidato do PSDB, José Serra. Matei no peito, afirmou o deputado, utilizando uma metáfora futebolística que significa absorver um impacto. Isso teria sido feito a pedido do próprio PT. O deputado declarou que sua intenção era proteger a Marta. Naquele momento, eu não podia falar. Isso certamente prejudicaria violentamente a campanha dela, disse Jefferson. A contradição entre a negativa do ano passado e a confissão dos últimos dias foi bastante explorada no depoimento. Primeiro pelo deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), que, durante a sessão, mencionou a existência de um suposto acordo entre os dois partidos na Bahia. Já Ângela Guadagnin (PT-SP), quis saber quando Jefferson está dizendo a verdade. Ao final, o assunto veio à tona por obra do deputado Chico Alencar (PT-RJ), que questionou Jefferson em tom crítico. Ao que o petebista respondeu, acidamente: Fiz isso para proteger o seu partido, declarou o presidente do PTB. Em bate-boca com Alencar, que também o acusou de só fazer denúncias quando é contrariado, Jefferson se indignou: Será que eu estou falando em um convento de virgens? Será que só eu ouvi falar em mensalão? Eu apenas destampei a panela, deputado, afirmou.